II ReACT | Sessão de Trabalho 4

Sessão de Trabalho 4
22/05/09 : 9:30 - 12:00
Auditório Bicalho
Controvérsias sociotécnicas – II 

- Andréa Zhouri (debatedora | Sociologia/UFMG)

- Joana Cabral de Oliveira (USP /Doutoranda em Antropologia)
O lugar do sensível nas práticas de classificação botânica
A sistemática, ramo da ciência responsável pelo estudo e produção de classificações, é sem dúvida uma das áreas mais antigas da ciência. Acompanhando alguns botânicos em suas pesquisas na área da sistemática botânica, busco apresentar o lugar que o sensível está tomando nessa prática científica, tendo em vista as atuais mudanças pelas quais a sistemática vem passando com o desenvolvimento da biologia molecular e das técnicas genômicas. Essa análise tem como pano de fundo, ou como ponto de contraste, um estudo sobre as classificações botânicas dos Wajãpi, um grupo Tupi do Amapá. Assim, parto da experiência de dois campos distintos (Wajãpi e os Laboratórios de Sistemática Botânica) para refletir comparativamente sobre o lugar ocupado pelo sensível na produção de taxonomias botânicas em ambos os contextos.

- Orlando Calheiros (MN/UFRJ - Doutorando em Antropologia)
Uma turbamulta de baleias incertas, fugidias e semifabulosas: notas de uma praxiografia
Há tempos a palavra-conceito método deixou de significar simplesmente aquilo que descobre ou representa realidades para transformar-se em um agente ativo na promulgação de mundos possíveis. Uma formulação que desloca o questionamento “o quanto de realidade este método revela?”, fundamental de nossa ontologia, para “qual é a realidade promulgada por este método?”. Partindo deste pressuposto, podemos complexificar ainda mais o problema nos perguntando: o que acontece quando diferentes métodos se voltam para - noção duvidosa - o mesmo objeto? Múltiplos objetos ou objetos múltiplos? E mais, como entender de que maneira tais métodos e, conseqüentemente, suas realidades se relacionam uns com os outros? Naturalmente, questões que só fazem sentido a partir de um engajamento empírico, uma exploração do método-na-prática. Interno a este modo de inscrição e descrição, esta apresentação procura oferecer algumas considerações sobre como um grupo de cetólogos, auto-intitulados Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (GEMM-Lagos), coordenam sua produção científica a despeito das distâncias entre os diferentes agenciamentos metodológicos que a atravessam. Para tanto, analiso as chamadas metodologias de produção de dados primários utilizadas pelos cetólogos, o monitoramento in situ e a avistagem: uma voltada para o obtenção de testemunhos que estabelecem um bloco de aliança entre cetáceos e humanos, cuja aliança é operada por uma substância tóxica; outra voltada para a produção contínua de dados estatísticos sobre a abundância e utilização do habitat pelos cetáceos. Em suma, duas perspectivas distintas que, por conseqüência, projetam substâncias heterogêneas a partir do que, a princípio – condição de possibilidade da prática científica -, seria um mesmo objeto/animal. Neste trabalho, procuro esboçar um quadro das relações possíveis entre estas substâncias, de modo que fique claro que as associações entre elas não são uma conseqüência imediata condicionada pela pré-existência de um todo, mas sim, o resultado de um complexo deslocamento das próprias partes. Um duplo trabalho para os cetólogos, que não devem apenas extrair testemunhos fidedignos de seus objetos, mas também fazê-los se relacionar com objetos da mesma família, ora em regime de associação e incorporação, ora em regime de contradição e exclusão, e deste conjunto de relações constituir um plano de referência consistente para suas proposições.

- Tiago Ribeiro Duarte (UK Cardiff / Doutorando em Sociologia)
Aquecimento Global e Elaboração de Políticas Públicas: Abordando o Problema sob a perspectiva da
“Terceira Onda de Estudos Sociais da Ciência”.
A formulação de políticas relacionadas ao aquecimento global é uma preocupação central na agenda de políticas públicas de diversos países, inclusive do Brasil, nação industrialmente emergente e onde se localiza a maior floresta tropical do planeta. De um modo geral, esta preocupação é justificada pelas pesquisas recentes realizadas por cientistas de diversas especialidades apontando que desde o início da era industrial houve uma mudança climática rumo a uma elevação das temperaturas do planeta. Esta elevação das temperaturas seria causada pelas emissões de dióxido de carbono e outros gases estufa na atmosfera fruto da atividade humana. Apesar de esta teoria ser dominante na comunidade científica e, de um modo geral, apresentada como consensual na mídia, há um grupo de cientistas, usualmente chamados de céticos, que dela discordam. Há diversos argumentos utilizados pelos céticos, mas de uma forma geral, estão compreendidas nas seguintes idéias centrais. Alguns defendem a inexistência do aquecimento global. Outros afirmam que o planeta está de fato passando por um processo de aquecimento, porém, ele não seria causado pela ação humana, mas por processos naturais. Além disso, alguns ainda afirmam que o aquecimento global seria benéfico para as sociedades humanas, trazendo mais prosperidade. Os argumentos dos céticos têm sido comumente usados, especialmente nos EUA, para justificar o não comprometimento com metas de redução nas emissões de dióxido de carbono, o principal gás estufa. Considerando haver esta controvérsia na comunidade científica, surge o seguinte dilema: Devemos prosseguir com as políticas de combate ao aquecimento global ou devemos abandoná-las e investir nossos recursos para lidar com outros problemas? A minha pesquisa procura lidar com este problema, isto é, com o desenvolvimento de critérios que auxiliem os formuladores de política a decidirem em qual dos lados desta controvérsia se embasar para tomar as melhores decisões possíveis. Para tanto, amparo-me na “Terceira Onda de Estudos Sociais da Ciência”, isto é, a nova vertente da sociologia da ciência que vem sendo desenvolvida na Universidade de Cardiff por Harry Collins e Rob Evans. Segundo estes sociólogos, em contextos de tomada de decisão política relacionadas ao conhecimento científico e tecnológico, devemos nos basear no aconselhamento técnico dos especialistas com maior perícia no tópico em pauta. O grau de perícia de um especialista é determinado pelo conhecimento tácito que possui, isto é conhecimento que não pode ser reduzido a um conjunto de regras formais. Assim sendo, o grau de relevância que deve ser atribuído à opinião dos diferentes especialistas deve ser condicionado pelo grau de conhecimento tácito possuído por cada um deles. Deste modo, em minha pesquisa procuro avaliar os
diferentes tipos e graus de perícia dos cientistas envolvidos na controvérsia do aquecimento global. Meu intuito central é oferecer uma avaliação de qual peso deve ser dado aos diferentes indivíduos envolvidos neste debate, com o intuito de estabelecer uma base para a tomada de decisões políticas vinculadas ao clima.

- Carlos Emanuel Sautchuk (PPGAS/UnB)
Antropologia da ciência e da técnica no Brasil
Neste trabalho apresento estudo em andamento, cujo objetivo é traçar um panorama da produção recente da antropologia brasileira sobre aos temas da ciência e da técnica. Os trabalhos analisados são divididos em quatro grupos, conforme seus objetos. O primeiro refere-se aos estudos etnográficos sobre a prática científica moderna, que abordam a dimensão cosmológica da ciência, as controvérsias envolvidas
na produção e difusão do conhecimento científico, além das relações entre cientistas e com seus objetos de pesquisa. Em seguida abordo as pesquisas sobre os desdobramentos das inovações em biotecnologia (como as tecnologias reprodutivas e os medicamentos) nos regimes da vida; tais abordagens enfatizam as transformações nas concepções de corpo e pessoa e as controvérsias no campo normativo. Outra corrente é caracterizada pela renovação das pesquisas em cultura material, que dão conta das propriedades socioculturais e da agência dos não humanos (artefatos, animais etc.), dos fundamentos cosmológicos de sua estética, além da reconfiguração do saber-fazer sob a lógica do patrimônio cultural. Por último, resenho trabalhos que abordam os saberes sobre o ambiente pelo viés dos conflitos de perspectivas (conhecimentos “tradicionais” e “científicos”), sobretudo no âmbito das controvérsias no cenário
ambientalista e das disputas enquadradas pela noção de intercientificidade.