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Aprendendo na prática

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Aprendendo na prática

O desafio de aprender a ensinar jornalismo

Por Catarina Flister, Mariana Garcia e Vanessa Veiga

Máquina de escrever, café, cigarro, lead, deadline. A realidade de uma redação de jornal dos anos 50 e 60 era bem conhecida pelos jornalistas José Mendonça, Adival Coelho e Anis Leão. Em uma época que não era exigido o diploma em jornalismo para exercer a profissão, os três bacharéis em Direito receberam no início dos anos 60 a proposta de contribuir na criação do primeiro curso de jornalismo de Minas Gerais. Desafio aceito, em 1962 começavam as aulas da nova graduação da Universidade de Minas Gerais. E se eles imaginavam que a parte difícil de se criar um curso do ensino superior já havia passado, eles acabavam de entrar em uma missão ainda mais desconhecida e ousada. Como passar a experiência profissional de jornalista de forma didática?

No início dos anos 60, havia uma carência de bibliografia especializada traduzida para o português. Se a maioria dos (raros) manuais de jornalismo que tinham à disposição eram estrangeiros, a situação para textos mais teóricos, refletindo sobre a prática, era pior. "Era uma pobreza franciscana. Não existia Xerox. Não tinha ‘enrolômetro’. O professor Velloso não deixava faltar na biblioteca os poucos livros de jornalismo que havia disponíveis", conta Anis Leão.

Anis ainda lembra: "Então nós começamos assim: a título precário, nós dividimos as tarefas. Durante quatro ou cinco anos, ou mais, nós demos aula de graça. Ninguém estava pensando em dinheiro não. E também não recebemos o dinheiro depois não. Apenas houve uma retificação na carteira profissional". Os outros professores vieram de duas vertentes. A primeira era composta por aqueles que, assim como Anis, Mendonça e Adival, já atuavam como jornalistas. Eles seriam os responsáveis pelas disciplinas práticas, pelo ensinar a "fazer jornalismo". A segunda vertente eram aqueles professores que já lecionavam na Escola em cursos como História, Letras, Geografia e Antropologia. Eram responsáveis pela chamada "formação humanística". Pois é, havia Geografia e História Antiga e Medieval na Comunicação nessa época...

A falta do embasamento teórico dos professores responsáveis por ensinar a “fazer jornalismo” não passou despercebida. Para Marly Spitali de Mendonça Pignataro, aluna da primeira turma do curso de Jornalismo da UFMG em 1962, os professores da vertente prática do curso também precisavam de uma teoria que eles não possuíam. Em seu depoimento, a fala de Marly às vezes se perde na exatidão de datas, nomes e outros detalhes, mas transparece a empolgação e o clima de quem vivenciou o início de um curso superior em uma época muito diferente. Alguns anos depois, ela se tornou professora do mesmo curso que viu nascer. Ela acredita que haviam falhas no modo como o curso de Jornalismo foi criado. Não havia uma grade curricular fixa, da qual só começou a se falar muito tempo depois. O curso ainda tinha a duração de três anos, tempo que para a ex-aluna era insuficiente. Além disso, na visão dela, o perfil do curso era muito prático, com pouco fundamento teórico. “Os professores eram um povo que tinha a base prática e jogaram essa prática em cima da gente”, disse.

Marly destaca a mudança que houve no “ensinar jornalismo” da época em que ela foi aluna para a época em que ela foi professora percebido no anteparo da teoria que hoje existe e que proporciona um embasamento teórico que os jornalistas precisam. Essa realidade ela não conheceu na época em que foi aluna do curso. Ela destaca que ao deixar de ser aluna do curso para transformar-se em professora, ela tentou trilhar o mesmo caminho de seus mestres, mas se esforçando para encontrar uma base mais teórica. Para Marly, a relação entre alunos e professores na época em que ela foi aluna foi fantástica, tendo aprendido muito em momentos extracurriculares. E essa relação ela quis manter sempre durante o exercício da docência.

No entanto, Marly faz uma ressalva. A falta da bagagem teórica fez diferença sim. Mas isso não foi problema para que saíssem bons jornalistas de sua turma. O curso foi crescendo junto com os profissionais e o que era bom, tornou-se ainda melhor.
 
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