Universidade Federal de Minas Gerais
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

KRITERION

vol. XL, nº 100 - Teoria Crítica Hoje
julho a dezembro / 1999

ARTIGOS:
 

- Apresentação - Rodrigo Duarte
- Is Experience still in crisis? Reflections on a Frankfurt School Lament -
Martin Jay 
- Niilismo e Autoconhecimento: Descartes em uma perspectiva benjaminiana -
Olgária Matos 
- Observadores paradoxais, testemunhas imaginárias: Reflexões sobre uma teoria contemporânea da cultura de massa -
Gerhard Schweppenhäuser
- O mal na trama da razão: Breve apreciação da obra de Max Horkheimer em seu conjunto -
Maurício Garcia Chiarello
- Expression as a philosophical attitude in Adorno -
Rodrigo Duarte
- Arquitetura na Modernidade: reflexões a partir de Theodor Adorno -
Silke Kapp 
- RESENHAS


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Is Experience Still in Crisis? Reflections on a Frankfurt School Lament
Martin Jay

 

Abstract: Taking into account the differences and similarities in the thought of Adorno, Benjamin and, in some extent, Heidegger, this article discusses the issues connected to the so-called “decay of experience”. For this purpose, the following questions are approached: when experience came into crisis; whether this constitutes an actual historical event of process, caused by a trauma such a global warfare, or whether there is something more ontological at issue; if there is a coherent and unified notion of experience can be assumed as concerns the Frankfurt School “lament”, or if the word functions in different ways in different contexts; and, provided that different acceptations are to be discerned, if we can say that all of them have withered to the same degree or even withered at all at the present time.

Resumo: Levando em consideração as diferenças e semelhanças no pensamento de Adorno, Benjamin e, em certa medida, Heidegger, esse artigo discute motivos associados à chamada “perda da experiência”. Com esse objetivo, são abordadas as seguintes questões: quando a experiência entrou em crise; se isso foi um acontecimento ou processo propriamente histórico causado por um trauma como o estado de guerra mundial ou se está em pauta algo mais ontológico; se há uma noção coerente e unificada de experiência, tal como ocorre no “lamento” frankfurtiano, ou se o termo funciona de diferentes modos em diferentes contextos e, pressupondo-se que acepções diferentes devem ser discernidas, se se pode dizer que todas elas foram atrofiadas no mesmo grau ou mesmo se foram definitivamente atrofiadas definitivamente no momento atual.

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 Niilismo e autoconhecimento: Descartes em uma perspectiva benjaminiana 
Olgária Matos

 

Abstract: The intention of this article is to analyse the rationalistic and scientific self-representation of the VXIIth century, using the categories of Walter Benjamin’s The Origin of German Tragic Drama. Baroque is the conscience of the unavoidable and man is an “ensemble of contradictions”. In German drama and in Descartes the century sees the arisal of a new form of solitude, a post-religious solitude, in an epistemological, ethical and political dimension.

Resumo: O objetivo deste artigo é analisar a auto-representação do século XVII – racionalista e científico –, valendo-se das categorias do Drama Barroco Alemão, de Walter Benjamin. O barroco é a consciência do incontornável e o homem um “conjunto de contradições”. Nos dramas barrocos e em Descartes, o século assiste ao advento de uma solidão de tipo novo, solidão “pós-religiosa”, na dimensão epistemológica, ética e política.

 

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Observadores paradoxais, testemunhas imaginárias: Reflexões sobre uma teoria contemporânea da cultura de massa
Gerhard Schweppenhäuser

 

Abstract: Verifying that the theory of cultural industry, that seemed definitely relegated to the second plane, won a new strength after the sociological approaches which seek to understand the cultural phenomena associated to “globalization”, this article schematically presents Luhmann’s sistemic theory and the Critical Theory of Adorno and Horkheimer on mass culture. If  both theories are compared, one can notice that they are radically disparate as concerns the role of an autonomous subject toward culture industry – Luhmann dismisses it entirely while Adorno and Horkheimer lament its evident decay – although they agree about the trace of necessity that this phenomenon has acquired in the contemporary world.

Resumo: Constata-se que a teoria crítica da indústria cultural, que parecia definitivamente relegada ao segundo plano, ganhou um novo vigor a partir das abordagens sociológicas que procuram dar conta dos fenômenos culturais associados à “globalização”. Em vista disso, expõe-se, suscintamente, a teoria sistêmica de Luhmann e a crítica de Adorno e Horkheimer à cultura de massas. Se se compara ambas as teorias, observa-se que elas são radicalmente díspares quanto ao papel do sujeito autônomo diante da indústria cultural – Luhmann o dispensa totalmente enquanto Adorno e Horkheimer lamentam seu evidente declínio – embora concordem sobre o caráter de necessidade que esse fenômeno adquiriu no mundo contemporâneo.

 

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O Mal na Trama da Razão: Breve apreciação da obra de Max Horkheimer em seu conjunto
Maurício Garcia Chiarello

Abstract: An interpretation, rendered canonical since Habermas, considers the way Max Horkheimer's work unfolds severely fractured by its composition, together with Theodor W. Adorno, of the Dialectic of Enlightenment. Incapable of conjoining with the first critical theory, the late work would have led to a dead end, by force of its aporia. Aiming at destroying this interpretation and restoring the work to an identity of its own, the present paper intends, at first, to show how the criticism of traditional or instrumental reason doesn't dissociate itself, according to Horkheimer, from a theological dimension always in action, granting it an undeniable unity. Secondly, it intends to make clear how the habermasian argumentation, which insists on the aporetic character of the radical criticism of reason through art and theology, overlooks the theme of the darkening of domination in the immanence plot, crucial to both Horkheimer and Adorno. Thus, the concern with the unconscious perpetuation of domination moves, with Habermas, to its legitimation.

Resumo: Uma interpretação, tornada canônica desde Habermas, considera a obra de Max Horkheimer drasticamente fraturada no seu desenrolar pela redação, em conjunto com Theodor W. Adorno, da Dialética do Esclarecimento. Incapaz de se conjugar com a primeira teoria crítica, a obra tardia teria desembocado, por força de suas aporias, num beco sem saída. No intuito de desbaratar tal interpretação e restituir à obra a identidade que lhe é própria, o presente trabalho procura, num primeiro momento, mostrar o quanto a crítica da razão tradicional ou instrumental não se deixa dissociar, no pensamento de Horkheimer, de uma dimensão teológica desde sempre atuante, conferindo-lhe inegável unidade. Num segundo momento, procura evidenciar o quanto a argumentação habermasiana, que insiste no caráter aporético da crítica radical da razão e desdenha uma possível auto-reflexão da razão por meio da arte e da teologia, faz vista grossa para o tema da ofuscação da dominação na trama da imanência, crucial tanto para Horkheimer como para Adorno. Assim, a preocupação com a perpetuação inconsciente da dominação desloca-se, com Habermas, para a de sua legitimação.



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Expression as a philosophical attitude in Adorno
Rodrigo Duarte

Abstract: The radicality of some propositions of Adorno’s critique of instrumental reason has been attacked by many authors among which Jürgen Habermas is perhaps the best known. In the Philosophical discourse of modernity, for instance, he addopts the key-word “performative contradiction” to refuse every position that goes too far in the critique of reason – according to him –, contradicting itself. I intend to show that what Habermas critizes is in fact “expression”, here understood not only as a key-concept of Adorno’s mature thought but as a feature of philosophy in a more general sense. While Habermas’ “Communicative rationality” tries to ignore the difficult moment experienced by mankind and proposes a “way back” away from the critique of instrumental reason, expression seeks to lend voice to human suffering as a first step to overcome it.

Resumo: A radicalidade de algumas proposições da crítica adorniana à razão instrumental tem sido atacada por muitos autores, dentre os quais Jürgen Habermas é talvez o mais conhecido. No Discurso filosófico da modernidade, por exemplo, ele adota a palavra-chave “contradição performativa” para refutar toda posição que se excede na crítica da razão  – segundo ele – contradizendo-se a si mesma. Pretendo mostrar que o que Habermas critica é, na verdade, “expressão”, aqui compreendida não apenas como um conceito-chave do pensamento maduro de Adorno, mas como uma característica da filosofia num sentido mais geral. Enquanto a “racionalidade comunicativa” de Habermas tenta ignorar o difícil momento vivido pela humanidade e propõe um “caminho de volta” para a crítica da razão instrumental, a expressão procura emprestar voz ao sofrimento humano como um primeiro passo para sua superação.

 

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Arquitetura na Modernidade: reflexões a partir de Theodor Adorno 
Silke Kapp 

 

RESUMO: Esse artigo aborda problemas da arquitetura moderna do ponto de vista da teoria crítica da sociedade. Particularmente quando Adorno discute temas clássicos da Estética, como “autonomia” e “aparência”, podemos aprender muito sobre a situação da arquitetura hoje. É possível, por exemplo, distinguir entre autonomia “externa” e “interna”, sendo que a primeira advém da concepção kantiana de gosto e a segunda  da teoria de Hegel sobre a obra de arte. É possível também compreender a aparência enquanto relacionada com uma necessidade antropológica de uma “ilusão constitutiva”.

ABSTRACT: This paper approaches problems of modern Architecture from a point of view of the Critical Theory of Society. Particularly when Adorno discusses classic themes of Aesthetics as “autonomy” and “appearence”, we can learn very much about the situation of Architecture today. It is possible, for instance, to distinguish between “external” and “internal” autonomy, the former coming from Kant’s conception of taste and the latter from Hegel’s theory of artwork. It is possible also to understand appearence as related to an anthropological necessity of a “constitutive illusion”. 

 

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