Unidade 2 (09/04):
1 – A formação do coletivo e noção de comunidade
2 – A constituição das causas sociais
______________________
COMUNIDADE E COMPLEXIDADE
Há muitas dificuldades de lidar com o que hoje
chamamos de "comunidade", já que não podemos nos referir exclusivamente ao seu
caráter territorial nem ancorar os vínculos grupais numa determinada tradição. O
desafio é, portanto, construir uma visão sistêmica, onde esses agrupamentos,
possam ser percebidos em toda a sua heterogeneidade, plasticidade e
permeabilidade. Isso põe uma ênfase especial nas relações comunicativas que se
estabelecem dentro e fora dos limites desses agrupamentos. Para Raquel Paiva
(2003), a comunidade "diz respeito aos agenciamentos interpessoais e midiáticos,
que vêm procurando caminhos sociais e comunicacionais não regidos pelo
fechamento organizacional que costuma caracterizar tanto as instituições quanto
as corporações consentâneas ao espírito da globalização financeira do mundo".
Isso significa ver a comunidade como uma forma de sociabilidade mais espontânea
(e mais local, em oposição à abrangência global), não regida por obrigações
contratuais fortemente expressas. E as relações comunicativas aí implicadas vão
desde o nível mais direto e interpessoal, até o midiático, ou seja,
agenciamentos de sentido mediados das mais diversas formas. Assim, não podemos
fugir do contexto de complexidade que instala na contemporaneidade tensões e
perspectivas diferentes na organização da vida e do agir coletivo e menos ainda
do fato de que a mídia é elemento determinante neste processo. Para muitos
autores, a intensificação dos fenômenos comunicativos, a acentuação da
circulação das informações não somente é um aspecto a mais da modernização, mas
também o próprio centro e o sentido mesmo deste processo (Lopes, 2003). Para
Vattimo (1992), os mass-media caracterizam esta sociedade não como uma sociedade
mais "transparente", mais consciente de si, mais "iluminada", mas como uma
sociedade mais complexa, mais caótica, mas é exatamente neste relativo "caos"
que depositamos as nossas esperanças de emancipação.
Referências:
LOPES, Maria Immacolatta Vassallo de. Sobre o estatuto disciplinar do campo
da comunicação. In: LOPES, Maria Immacolatta Vassallo de (org.). Epistemologia
da Comunicação. São Paulo: Loyola, 2003.
PAIVA, Raquel. O Espírito Comum.
Comunidade, mídia e globalismo. 2.ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.
VATTIMO,
Gianni. A sociedade transparente. Lisboa: Relogio d'Água, 1992.
A COMUNICAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DAS CAUSAS SOCIAIS
Um exame da constituição de
causas sociais e dos projetos mobilizadores que lutam por estas causas,
permite-nos compor uma matriz de análise e leitura desse processo por meio dos
diversos atos comunicativos que estão implicados e que geram e mantém a
mobilização. Isso nos permite definir como uma função importante da comunicação
para a mobilização social, que é a coletivização, ou seja, o processo dinâmico
de construção de um problema público, passando da esfera individual à esfera
coletiva. É importante observar que nenhuma causa se sustenta sem a composição
de razões que a justifiquem, sem a exposição pública dessas razões e sem um
apelo que possa de alguma forma convencer os outros de que a questão à qual se
refere: (a) é concreta; (b) é de interesse público; (c) é passível de
transformação e (d) aponta para valores mais amplos. Isso ressalta a necessidade
de ações estratégicas de comunicação com os mais diversos públicos.
Para
ler:
As
relações públicas na constituição de causas sociais: a mobilização como
ato comunicativo - Márcio Simeone Henriques, Clara Soares Braga, Rennan
Lanna Martins Mafra
elações Públicas, movimentos populares e transformação social - Cicilia Peruzzo
Comunicação, comunidades e os desafios da mobilização social - Márcio Simeone
Comunidades
e identidades de novo tipo - Carlos Mendonça