Teoria e Filosofia da História
O prof. José Carlos Reis é graduado em História e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, e doutor em História da Filosofia pela Université Catholique de Louvain na Bélgica. Realizou estudos de pós-doutroramento na mesma Universidade e também na École des Hautes Études en Sciences Sociales na França. Atualmente é professor do curso de História da Universidade Federal de Minas Gerais, atuando e lecionando sobre temas como Teoria e História da História, Epistemologia e Historiografia. É autor de diversos livros sobre o tema como História & Teoria: Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade.
Teoria e Filosofia da História - Parte I
Primeiramente o professor é questionado sobre a terminologia “filosofia da história”, se efetivamente é possível encarar que existe uma disciplina atemporal que cuida da reflexão sobre o tempo e o sentido das ações humanas inseridas nesse contexto temporal, ou se, como Habermas parece afirmar, que as filosofias da história propriamente ditas são aquelas do século XVIII, e refletem somente o pensamento daquela época. O professor afirma, a respeito desse tema que é possível sim ver uma reflexão sobre a história durante o período antigo e mesmo sobre o período medieval, e seria efetivamente correto chamar isso de uma teoria da história. Contudo, o período a que Habermas se refere possui claramente sua especificidade, onde a história e o tempo são pensados de forma laica, como numa ruptura com a ‘teologia da história’ muito encontrada no medievo, que o autor parece entender como um reflexo da ascensão da burguesia, que tenta com essa reflexão dar sentido às suas ações, já que na reflexão como era conduzida anteriormente era insuficiente para fornecer esse sentido.
Nesse ponto, pergunta-se ao professor como características fortes dessa forma moderna de pensar a história, como a racionalidade e a laicização, se relacionariam com o contexto histórico específico da época. O professor responde que é exatamente esse espírito da Revolução Francesa do século XVIII que se relaciona diretamente com essa concepção de história e de moralidade. Era preciso uma espécie de lei que não fosse imposta de cima pra baixo, mas reconhecida pelos homens como advinda deles mesmos, e não advinda de Deus, como na persepectiva cristã. Como exemplo, o professor menciona Hegel que claramente vê essa moralidade como vinda do próprio homem, do Espírito que se manifesta na humanidade, ou como diz o professor, reconhecendo a lei, como reconhecendo o universal dentro, dentro de nós mesmos e não imposto por outrem. Os homens obedeceriam a lei, “não porque ela se impõe, mas porque eles criaram a lei”, como diz o professor.
Outros conceitos bastante importantes na reflexão sobre a história são a preocupação com o futuro e não só com o passado e ainda de que maneira a história se mostraria como aquela que daria um sentido para as ações humanas. Perguntamos ao professor em qual contexto nasce a reflexão da história baseada nessas idéias, e ele respondeu que anteriormente ao contexto grego antigo, e mesmo entre os gregos, a perspectiva era claramente não-histórica, o pensamento era anti-histórico, de modo que a história, ou o reino do mutável e do contingente era vista como incognoscível em oposição ao mundo supra-lunar, perfeito, regular. Desse modo era o pensamento histórico era desvalorizado, sempre se pensando num agora eterno. É no pensamento judaico e cristão que o professor vê que a história adquire um sentido próprio importante e central no pensamento humano. O homem caiu no tempo, isso é tomado como um fato e ele se torna um fator importantíssimo para a redenção e a salvação. Nesse ponto, a reflexão sobre as ações humanas, e o local das ações humanas no tempo adquirem uma importância enorme, começando a nascer as noções como por exemplo a preocupação com o futuro, que é mostrado como a salvacão na perspectiva judaico-cristã. O passado se torna importante pois denota a queda, e o futuro se mostra como a redenção, o possível retorno ao anterior à queda, é nesse contexto que se insere a história e a reflexão histórica. Fazendo um paralelo com a modernidade, o professor mostra que essa perspectiva da história realça o futuro e desvaloriza o passado, características também presentes na filosofia da história moderna. No contexto cristão, o futuro guarda a salvação, o fim da história, e o retorno ao perfeito; na modernidade, o futuro representa a realização de uma sociedade moral no tempo, não um fim da história, no sentido de um término da história, mas no sentido de uma realização, de uma finalidade que é conferida á reflexão moral nesse contexto. Na modernidade, o passado também é desvalorizado como sendo as trevas, a escravidão, a irracionalidade.
É questionado por fim a respeito de Kant e sua tentativa de pensar uma sociedade onde o ser humano é visto como um todo, onde a moralidade é realizada plenamente. O professor afirma que sim, Kant se insere nesse contexto de filosofias da história modernas, e que se aproxima dos Iluministas Franceses e de Hegel, mas que há diferenças marcantes entre eles, como por exemplo Hegel assume e admite o processo trágico da história para que se chegue ao télos, ao fim, ao objetivo que a história tende, já Kant tem uma certa aversão ao processo, de modo que não vê o processo brutal da história como talvez o melhor caminho para a paz perpétua.
Por fim, pergunta-se a respeito da diferença entre o pensar história na grécia antiga, que é desprovido muitas vezes de noções como teleologia e história universal, e a antiga roma, onde a reflexão sobre a história é carregada desses conceitos.
Música: “Solo Blues: Piano”, Thelonious Monk
Teoria e Filosofia da História - Parte II
Para iniciar o segundo bloco, pergunta-se como se deu o processo, afirmado pelo professor, de inversão de relações entre filosofia e história, onde parece que “a filosofia se mostra histórica” e quais ainda seriam as conseqüências dessa inversão de relações para as duas áreas. O professor afirma que no século XIX, onde essa inversão se dá mais claramente, ocorre uma ruptura muito forte entre as relações entre filosofia e história. A história acha que a filosofia em nada pode acrescentar à ela com os seus “a prioris”, se tornando muito documental e pouco teórica. A filosofia por sua vez, acredita que a história se torna pobre por não encarar sua documentação com uma hipótese teórica e ainda com uma concepção de história bem formada. Dessa maneira, a relação entre as duas disciplinas se distancia, sendo que o diálogo deveria ser estabelecido, lembrando sempre que diálogo não significa aceitar tudo o que eu outro diz, mas sim discutir a respeito disso para enriquecer as suas prórias idéias e teorias.
Pergunta-se então, sobre a modernidade ainda, qual exatamente é a relação existente entre a concepção de natureza humana moderna e sua nocão de história, e se de alguma maneira esta última ditaria alguns pontos da primeira. Para responder a essa pergunta, o professor José Carlos recorre não à modernidade, mas ao início do século XX onde ele afirma ter nascido a perspectiva estruturalista da história, que busca ver no movimento histórico grandes permanências, grandes blocos, sem sentido nem direção, em oposição à modernidade que vê um télos e um futuro melhor na realização da história. Nisso se encerraria uma posição do homem como a de Lévi-Strauss, que afirma que não há diferenças muito grandes entre o homem primitivo e o homem civilizado contemporâneo, que eles utilizam as mesmas categorias do ponto de vista epistemológico para pensar e fazer a bomba atômica ou uma arma de pedra lascada. Dessa forma a concepção de história sem télos ou fim, sem uma caminhada para o melhor, se mostra como determinante para uma concepção de homem onde não há também uma caminhada para o melhor, onde o homem que se situa posterior do ponto de vista histórico não é melhor ou mais desenvolvido que o anterior.
Então perguntamos ao professor a quais preceitos da modernidade, pensadores do século XIX e XX vêm se contrapor quando requerem um desinteresse pelo futuro, um sentido universal fragmentado e uma história que não mais se centre na Europa. O professor requer ao fato de que conceitos caros às filosofias da história modernas são alguns como consciência, ação, relexão e subjetividade, e que esses autores posteriores virão exatamente a criticar esse ponto. Freud, por exemplo, com a sua abordagem do inconsciente, mostra uma instância da subjetividade que não sabe que sabe, e isso entraria em oposição por exemplo a Hegel, que tem um desejo imenso de saber de si, e conhecer para si. Nessa posição freudiana, é vetado ou pelo menos é dificultado, essa tomada de consciência, essa reflexão total sobre a ação e o sujeito histórico. Marx também faria parte dessa tradição já que mostra que os sujeitos agem, mas nem sempre sabem o que fazem ou onde atuam, já que há uma estrutura econômico-social anterior a eles, onde eles são jogados e que eles não escolhes, abolindo também ou dificultando a nocão de consciência que se oporá a uma espécie de alienação.
A última pergunta do bloco é sobre como há uma possibilidade de um pensamento marxista do movimento da história. A resposta é dada de maneira bastante suscinta diferenciando as diferentes posições advindas da teoria de Marx. O ‘marxismo estruturalista’ encararia que a história é um movimento não dos agentes, mas da estrutura econômica, de modo que os sujeitos não poderiam efetivamente fazer história, ou escolher suas ações de modo a construir a história. O dito ‘marxismo neo-hegeliano’ seria então capaz de crer na tomada de consciência e da escolha de efetivamente se realizar uma revolução, e sujeitos que transpuseram a estrutura dada e escolheram construir sua história de forma diferenciada.
Música: “Scenic World”, Beirut
Teoria e Filosofia da História - Parte III
Logo no início do bloco se pergunta aceca das diferentes leituras sobre o período que vem após o período propriamente moderno. Alguns acreditam que a inserção de sujeitos vistos anteriormente como irracionais e a descentralização da história são sinais de uma ruptura com a modernidade e que esse período seria corretamente denominado de ‘pós-modernidade’. Outros crêem que esse movimento denota não uma ruptura, mas uma expansão da concepção de racionalidade, e que esse momento deveria ser chamado de ‘neo-modernidade’ ou ainda ‘modernidade reflexiva’. O prof. José Carlos comenta esses momentos como diferentes autores lendo a modernidade. Exatamente por que a concepção moderna-iluminista da história levou a guerras mundiais, conflitos inúmeros e aos totalitarismos que nascem essas duas vertentes que querem solucionar esses pontos. Para a vertente da ruptura, pode-se ver uma posição estruturalista, onde o homem não faz história e nem deve fazê-la, como já foi mostrado; e uma posição de pluralização de sentidos, onde se rompe com a noção de sentido universal dos modernos para ver que a história deveria mostrar que não há um sentido para a humanidade, um télos ou uma melhoria como um todo, mas diversas vidas paralelas e particulares. Em oposição a essa leitura, viríamos, por exemplo, Habermas, que pensa uma re-leitura dos modernos, não para combater a razão e o objetivo universal colocados pela modernidade, mas para ler os erros que existem nessa concepção que levaram aos totalitarismos, para melhorá-la, torná-la mais pura e transparente para cada vez mais se aproximar de uma concepção de um maior esclarecimento.
No momento seguinte, quer-se realçar a questão da pluralidade cultural, onde nesse período após a modernidade há o movimento de inserção daquilo que era considerado irracional como a mulher, o selvagem e o analfabeto. Pergunta-se como que esse processo se relacionaria com a perspectiva linear do tempo, já que nesse ponto “o ocidente se descobre não-linear” de acordo com o professor. O professor responde afirmando que as posições lineares são muitas vezes autoritárias e excludentes, já que determina de um ponto de vista o caminho e exclui quem está à margem dele. Após um comentário sobre como houve a inserção de grupos como os negos, os homossexuais, as mulheres e as crianças no projeto pós-moderno, ele comenta de forma habermasiana: Será que isso não é, ao contrário de uma não linearização, uma razão auto-crítica, que se esclarece cada vez mais e se torna melhor consciente do seu caminho? Não será uma afirmação dessa linearidade de forma mais esclarecida? A história, nessa posição não perdeu o sentido da emancipação, mas estaria mais consciente do processo, através dessa inclusão.
A próxima pergunta se mostra como uma tentativa de entender como ocorre uma priorizacão da esfera cultural na historiografia pós-moderna, que tenta ver a cultura não apenas como reflexo da dita infra-estrutura, mas como determinante e importante inclusive para o tratamento de questões econômicas e políticas. Não seria esse processo uma tentativa de suprir o espaço deixado pela racionalidade e pela emancipação quando abandonadas? A resposta vai no caminho de quando a perspectiva de que a super-estrutura determinaria todos os processos históricos e que a cultura é somente um fenômeno disso é abandonada, entra a cultura como um determinante, numa posição onde “tudo é cultura”. Inclusive a economia e a política já seriam culturais. Nessa posição, os sujeitos históricos se preocupam muito mais com as suas vidas privadas, e seus papéis não construídos como papéis particulares na história, e não papéis determinados pela estrutura da sociedade que vê a humanidade como um todo. A humanidade deixa de ser vista como um universal, para que haja diversas identidades particulares que fazem a história, e alteram a forma como ver e fazer história.
Para terminar a entrevista, perguntamos sobre as questões metafísicas, sobre a angústia de ser no tempo, de ser histórico; e como o professor via a nossa atualidade como lidando com essa angústia. O professor nos disse que vivemos num tempo pouco filosófico, onde a idéia de crítica fora há muito abolida. Vive-se à mercê do tempo e dos sentidos, como se vivêssemos numa máquina da qual não conhecemos o funcionamento total. Pergunta-se o que alguém gosta de ler, de assistir, mas não perguntas de filosofia ou de sentido histórico. Se essas perguntas são feitas, a resposta normalmente é “não sei”, no sentido de não sei o que é a história, o homem, ou se há uma redenção ou emancipação na vida ou na história. Essa posição é conflitante no ponto que é vista como uma ignorância saudável já que é melhor não definir, do que definir dogmaticamente, que pode resultar em totalitarismos como foi mostrado, mas também leva o homem numa não-direção, numa história de massa e não de sujeitos conscientes, onde o ser no tempo não acha definitivamente seu sentido.
Música: “A Media Luz”, Astor Piazzolla
Teoria e Filosofia da História - Parte IV
Leitura de um trecho do Capítulo I do Livro “História e Teoria: Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade” de autoria do professor entrevistado José Carlos Reis.
Maio 12th, 2010: 10:08 pm
Faltam os mp3 das partes 3 e 4 (repetem a 2).