Filosofia e Ciência: Ricardo Fenati

Exibido em 4 de Dezembro de 2007 | Resumo por: Anna Luiza - Categorias: Filosofia da Ciência

Ricardo FenatiO Professor Ricardo Fenati é professor aposentado do Departamento de Filosofia da UFMG e professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia.

Filosofia e Ciência - Parte I

O tratamento das problemáticas científicas é encarado como um desafio à filosofia. Se a filosofia deve pensar o seu tempo, contemporaneamente isso significa lidar com as questões e os problemas colocados pela ciência.

Muitas são as formas de se pensar a relação entre filosofia e ciência, e talvez a mais tradicional delas seja a de encarar a filosofia como uma espécie de conhecimento incipiente, à espera de uma formulação científica, de uma sistematização rigorosa. Esse modo de compreender a relação entre filosofia e ciência chama-se positivismo. Positivismo é a crença ou a tese de que conhecimento equivale a conhecimento científico.

A suspeita em relação à filosofia perpassa toda a história do pensamento e pode ser organizada em dois sentimentos até mesmo contraditórios que se alternam em preponderância no decorrer da história:

Em primeiro lugar, o sentimento de que há uma realidade, e essa realidade pode ser conhecida por nós. Em segundo lugar, o sentimento de que o projeto do conhecimento tem limites muito estritos.

Uma outra maneira de pensar a relação entre filosofia e ciência, surgida como reação ao positivismo nos anos 70, 80, apresenta uma desconfiança de que por trás da tese do positivismo havia um pressuposto que compreendia o conhecimento como uma espécie de observação passiva da realidade. Percebeu-se que toda forma de abordagem da realidade tem um componente interpretativo, e que não mais poderíamos nos servir do “dogma da imaculada percepção”.

A partir de então uma outra dimensão de compreensão e investigação das relações possíveis entre filosofia e ciência, distinta do positivismo, que recebeu do nome de “filosofia da ciência”. A ciência é encarada, então, como um domínio de investigação que coloca problemas e questionamento de natureza filosófica e especulativa, e juntamente com a filosofia atinge objetos comuns a ambas, como a teoria do conhecimento, a lógica ou a metafísica.

Filosofia e Ciência - Parte II

Filosofia e ciência são esquemas de leitura da realidade. Ambas são tentativas de compreender o mundo e nosso lugar no mundo. A filosofia nasce da admiração – devemos compreender a compreensão do mundo. Uma tentativa de demarcação seria compreender a filosofia como uma atividade cuja vontade exaustiva de entendimento nos levaria a prolongar indefinidamente as interrogações, enquanto na ciência haveria momentos em que a interrogação poderia ser interrompida. A dificuldade em se estabelecer uma grande linha demarcatória força-nos a abrir mão de uma simples oposição entre filosofia e ciência para falar de zonas distintas de aplicação de uma ou outra forma de conhecimento.

Uma outra tentativa de demarcação pode ser pautada nas diferenças de tratamento que podemos designar a uma e a outra. Questões científicas podem receber tratamento empírico, e ainda que a resposta não seja obtida, somos capazes de compreender o tipo de resposta que satisfaria a pergunta colocada. Para a filosofia, no entanto, não há investigação que possa ser equacionada de maneira unicamente empírica, uma vez que o tratamento de suas questões não se esgota empiricamente. A vitalidade da filosofia é essa percepção de que em algumas circunstâncias é importante continuar a interrogar.
Filosofia e Ciência - Parte III

Há sempre um comportamento “impaciente” por parte da ciência que julga que dados da observação são capazes de eliminar quaisquer dúvidas teóricas. Há, ainda, por parte da biologia um esforço de transformar as questões filosóficas em questões aparentemente científicas – aparentemente porque a tese segundo a qual “mente se reduz a cérebro” é uma tese filosófica, e não científica –, no esforço de responder à questão fundamental da filosofia: “qual a natureza do que existe?”. A ciência sempre adotou teses filosóficas. O problema é quando a ciência reveste uma tese filosófica com vestes científicas. Isso gera uma série de confusões que deixam em apuros os filósofos da ciência, encarregados de esclarecer e examinar as suposições de natureza não-empírica que estão subjacentes a quaisquer empreendimentos empíricos.

Quanto ao problema do progresso científico – aquilo que deveria garantir o estatuto superior da ciência em relação à filosofia – como se posicionar diante dele, e como relacioná-lo ao progresso tecnológico? Há, evidentemente, um progresso tecnológico que pode ser comprovado por meras comparações entre diferentes períodos da história. A questão do progresso científico é mais complexa porque envolve a discussão acerca do conhecimento efetivo ou “verdadeiro” do mundo. Entretanto, a complexidade do mundo é tal que a circunstância que podemos dizer favorável ao progresso científico é a que garante a proliferação e a diversidade de teorias. O problema da verdade, de se uma teoria se aproxima mais ou menos da verdade é um problema muito complicado e que exige uma série de pressuposições. O progresso científico possa talvez ser dito, portanto, em termos da quantidade de teorias de que dispomos para compreender o mundo em sua complexidade.

Filosofia e Ciência - Parte IV

O valor da tecnologia estabelece o valor da ciência? Podemos dizer que nosso esforço de compreensão do mundo produz teorias, e essas teorias se transformam em objetos, mas daí a dizer que nossa interação com o mundo se resume à criação de objetos é por demais reducionista. O mesmo seria afirmar que o valor da tecnologia é o que estabelece o valor da ciência. A interação do homem com o mundo é também prática e especulativa. A grande questão é: qual a confiança que depositamos na experiência humana? Uma posição pessimista talvez aceite a redução da interação à produção de objetos.

A filosofia não pode atuar como uma espécie de juiz ou de legitimadora da ciência. Essa é uma aplicação suicida para a atividade filosófica. A filosofia deve permanecer na tarefa de derrubar os mitos científicos, investigar e afastar as ilusões. O trabalho da filosofia no campo da biologia, por exemplo, é o de investigar as bases não empíricas presentes no campo biológico.



8 pessoas comentaram o programa de “Filosofia e Ciência: Ricardo Fenati”

  1. Mário Terenzi disse:

    Mais uma excelente entrevista. Mas, por favor, entrevistadores, vamos ensaiar um pouco as perguntas antes, para não ficar gastando tanto tempo sem nenhuma objetividade.

  2. Anselmo disse:

    Essa abordagem de filosofia e da ciência foi feita de forma sensacional, objetiva, com conceitos fundamenados por parte do entrevistado, mas não em relação aos entrevistadores, mas já é um começo….
    Bola para frente que o caminho é esse.

  3. Luciana Gomes disse:

    Nossa! Sensacional essa entrevista sobre Filosofia e Ciência, até porque estava fazendo uma pesquisa sobre isso e, foi o que me ajudou muito na compreensão do assunto.

  4. João Mateus disse:

    Resume isso em 4 linhas para mim? xD

  5. mayara disse:

    um site perfect a qual encontrei todas as respostas que eu estava precisando

  6. Renato disse:

    gostaria de saber qual e a relaçao da filosofia com a ciencia, na modernidade

  7. Maria Auxiliadora Mesquita disse:

    Gostei muito do seu comentário , espero manter contato para vc poder me enviar mais assuntos até pq sou Profª de filosofia . Conto com sua contribuição . Um abraço

  8. arnaldo toral hidalgo disse:

    Prof, Ricardo adorei ler sua repostas para outras pessoas, e como sou estudande de filosofia, tudo que o nobre Prof. me disera respeito do Banquete de Platão ficarei contente

    pois cada filosofo fala uma coisa,quero saber a sua poderossa opinião
    OBS: TUDO

    se possivél me mande respostas pelo meu e-mail
    hidalgoat@uol.com.br

    abraços 3 X

Comente o programa