Ceticismo na obra de Machado de Assis

Exibido em 23 de Setembro de 2008 | Resumo por: Mateus de Oliveira - Categorias: Filosofia Moderna, Filosofia e literatura

O professor José Raimundo Maia Neto possui graduação em Ciencias Sociais pela Universidade Federal Fluminense (1983), mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1987) e doutorado em Filosofia pela Washington University in Saint Louis (1991). Atualmente é Professor Associado da Universidade Federal de Minas Gerais. Atua na área de História da Filosofia Moderna, desenvolvendo pesquisa sobretudo sobre as correntes céticas do século XVII.

Ceticismo na obra de Machado de Assis - Parte I

Um dos objetivos principais do Dr. José Raimundo em seu livro é a observar a gestação de uma perspectiva cética, que se desenvolve gradualmente no percurso da obra machadiana. Necessário considerar que o ceticismo é uma corrente filosófica muito desenvolvida durante a História. Apresenta-se desde a Grécia antiga (período Helenista) no, Renascimento, na Modernidade e até a atualidade.

Machado de Assis apresenta uma visão negativa da vida social, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro como um ambiente de falsas aparências e manipulações. Nesse contexto, ele apresenta um personagem ético, que se pode caracterizar como o “homem de espírito”, que não se adapta a esse contexto, rejeitando-o pela falta de eticidade e de verdade. Outra característica marcante é que as personagens femininas são caracterizadas geralmente no coração da vida negativa.

Há nas primeiras obras ainda a presença de mulheres que também rejeitam essas características do ambiente, em concordância com o homem de espírito. Daí apresenta-se na primeira fase da obra de Machado um momento dogmático, que tem pretensão de encontrar a verdade, misturado com um pensamento cristão ainda muito presente. Tendo em comunhão essa rejeição da superficialidade e falsidade de certos personagens, o casamento se apresenta como alternativa à sociedade corrupta, onde se encontra a dita “paz doméstica”, reduto da verdade e da eticidade.

Em seguida o autor problematiza de forma mais firme essa ingenuidade. Todas as personagens femininas se definitivamente de acordo com a sociedade aparente e, dessa forma, o personagem principal se torna problemático, pois já não encontra o conforto da “paz doméstica” como alternativa, instaurando nele uma crise cética. Ele rejeita a falsidade da sociedade, mas começa a perceber que na realidade, essa é falsidade é inescapável.

Dessa crise cética, surge a 2ª fase, onde começa a surgir propriamente a “perspectiva cética”, no lugar da perspectiva ingênua. Os protagonistas se tornam observadores e tomam a tarefa da narração. O início dessa fase é marca em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Brás Cubas era o homem problemático em vida que, ora morto, está desvinculado e criticamente postado de frente à sociedade. O Brás Cubas dessa forma torna-se ele mesmo um ponto de vista, que veicula a perspectiva cética de que não há uma alternativa possível nesse mundo para uma eticidade real. Por isso ele se encontra do lado de fora, único lugar que lhe convém como personagem ético, onde é capaz de encontrar a verdade. Exatamente devido a essa possibilidade da verdade, da crítica e da denúncia através de uma observação, Brás Cubas não é ainda uma obra genuinamente cética. A perspectiva cética evolui, em Dom Casmurro, onde há uma sofisticação: o protagonista está inserido definitivamente no ambiente da sociedade falsa, o que torna inviável a distinção de uma verdade de uma aparência. Não existe uma verdade pressuposta, uma referência para a reflexão precisa dos fatos. As ambigüidades são extensas e impossíveis de solucionar. Nesse romance, isso é marcadamente presente na visão que Bentinho tem de Capitu, o que é a razão do sofrimento e perturbação do homem ético.

Finalmente, nos romances finais, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, o autor fictício e observador Aires, e o narrador em primeira pessoa Aires, respectivamente, reconciliam, segundo o Dr. José Raimundo, um “ceticismo mais fenomenista” na obra de Machado de Assis. Isso quer dizer que esse personagem conclui que não se deve buscar a verdade da subjetividade de seus pares, como fazia Bentinho em Dom Casmurro, empreitada que tanto atribulou o seu espírito. Aires se mostra mais maduro e conscientizado da completa atuação da aparência na vida, e passa a uma confortável posição de uma fruição do belo aparente no mundo, encontrando paz, apesar de saber das dúvidas que o rondam, não se sente mais desgastado com essa situação.

O Dr. José Raimundo conclui: há um aperfeiçoamento na construção de personagens ceticamente éticos na obra de Machado: de um autor defunto, em Brás Cubas, um narrador retirado da vida social em Dom Casmurro, e finalmente de um observador maduro, vivo e presente em Memorial de Aires. Pode-se encontrar, portanto, uma busca constante de um caráter verdadeiramente cético no decorrer de toda obra machadiana.

Música: “Aconteceu”, Marisa Monte

Ceticismo na obra de Machado de Assis - Parte II

Tendo como referência a obra Dom Casmurro, e o conflito do personagem Bentinho com relação à possível traição de Capitu, como esse processo de dúvida sobre dúvida, que causa tanto sofrimento, pode se relacionar com a busca de felicidade?
José Raimundo: Seguindo a tradição pirrônica da antiguidade, a felicidade se caracteriza como “ataraxia”. Para os pirrônicos, o ceticismo é como uma terapia para as dúvidas, para as  perturbações, pontos de partida, dos quais o ceticismo busca ser a solução. Naquela obra, para Bentinho a memória da infância é o lugar da felicidade com Capitu, em que ainda não encenam na vida social. No casamento encontra-se o momento da dúvida, no cerne da vida social, e somente com o seu retiro, com sua transmutação em Dom Casmurro, Bentinho encontra alguma tranqüilidade com essa superação e rememoração das dúvidas.

Mesmo no Bentinho que se torna Dom Casmurro, é difícil encontrar tranqüilidade, ou uma paz de espírito. Qual seria a tranqüilidade que, desse ponto de vista, o ceticismo poderia propiciar ao Bento?
José Raimundo: Tem que se ter em vista que no projeto de construção do personagem cético, o Dom Casmurro é apenas o segundo passo. Ainda não há um personagem cético maduro aqui, como se dá no Conselheiro Aires, que já pode aproveitar a ataraxia, como o ponto final de um sábio. O Bentinho não tem a característica cética totalmente elaborada. Ele ainda apresenta-se dogmático, por exemplo, não suspende o seu juízo sobre a Capitu, é através dessa posição dogmática que ele busca uma tranqüilidade, mas ainda não é a ataraxia pirrônica.

Tendo em vista questão do Bentinho que se torna Dom Casmurro, que busca uma saída, como poderíamos pensar a autoria como expressão da perspectiva cética?
José Raimundo: Machado de Assis não é um filósofo. Ele é um escritor literário. Sua perspectiva cética se vincula através, principalmente, da autoria. Isso surge com o Brás Cubas, que se define como autor defunto, um autor depois de morto, com um lugar alternativo. Como se seguisse um pensamento de Santo Agostinho, de que a verdade só é possível fora da vida. Além de apresentar uma característica muito forte de Pascal, sobre a precariedade da vida humana, que sendo miserável, efêmera, tem sua grandiosidade exatamente no saber-se miserável, pelo pensamento. É o que ocorre no Brás Cubas: ele expõe a miséria humana a partir dele mesmo. É a partir da autoria defunta que ele expressa livremente sua posição, seu autoconhecimento, que se reflete para a sociedade.

Sobre a questão dos autores ficcionais em contraposição à autoria do próprio Machado de Assis: é uma questão geralmente colocada?Qual a sua posição?
José Raimundo: Valorizo o ponto de vista do autor ficcional. Muitos acabam tentando descobrir qual a fundamentação do autor real por trás dos autores ficcionais, como eles poderiam estar intimamente ligados, etc. Mas não é uma abordagem interessante, uma vez que, principalmente a partir da segunda fase de Machado de Assis, existe a abertura de toda uma nova perspectiva através dos atores ficcionais, que deve ser valorizada. Machado abre mão de sua autoria, de sua autoridade sobre a obra para a formação dessa nova perspectiva, o mais interessante é perceber o que esse autor ficcional está exprimindo.

O que seria possível de observar pela perspectiva cética, como nas escolhas das histórias e dos enredos das obras, além das personagens?
José Raimundo: A perspectiva cética é a perspectiva dos personagens que vivem esse enredo. O próprio Machado diz que se interessa mais pela composição das personagens, que o enredo é apenas o pano de fundo para suas ações e sua construção. A perspectiva cética resulta dos enredos, da transformação dos indivíduos que eram ingênuos em céticos, ao interagir com os ouros personagens no decorrer da história, nessa vida social que se apresenta com um caráter negativo.

Música: “Cartomante”, Elis Regina

Ceticismo na obra de Machado de Assis - Parte III

Problematizando a questão do enredo como uma coisa programada, chegando quase a um teorema, onde se desenvolve uma situação para exemplificar alguma coisa, de forma circunstancial (ao contrário do que se o ceticismo se propõe agir, em qualquer situação). Como fazer esse jogo entre o espontâneo da vida prática e o programado da ficção, levando em consideração a proposta de vida do ceticismo?
José Raimundo: Seguindo a única fonte do Sexto Empírico, existe o ideal de um “homem de talento”, que diante da situação de conflito investiga, segundo a lógica de uma eqüipolência, argumentando a não preferência e entre dois objetos, estabelece valores positivos e negativos que propiciem um equilíbrio, uma igualdade de peso em nossos valores no referente às diversas situações. A investigação que os personagens de Machado de Assis fazem é um pouco diferente entre eles. Brás Cubas, num primeiro quesito mostrar as raízes viciosas do comportamento humano, e num segundo plano percebe-se o ponto de vista crítico sobre os valores como ponto de desequilíbrio, de perturbação - ao atribuirmos às coisas valores naturalmente positivos ou negativos, estamos enganados, é uma imposição dogmática, fonte de desconforto. Em Dom Casmurro, se no primeiro plano se percebe o exercício de evidências a favor e contra o adultério, mais profundamente vê-se a construção das crenças fundamentais que são determinantes na vida de cada individuo, e que são absolutamente gratuitas. Existe um diagnóstico de que os homens se movem pelas suas crenças ou pelas paixões, e não pela verdade, pela avaliação racional. Outro ponto que mostra o aperfeiçoamento do ceticismo dos personagens é que enquanto o Brás Cubas revela uma precariedade das coisas (onde tudo morre, desde os planos, os amores e até a própria vida do narrador), Dom Casmurro revela a precariedade das crenças, num ambiente em que nada morre, e as mudanças são promovidas pelo movimento da perspectiva, das crenças.

Com relação ao contraponto Filosofia e Literatura, e na diferença da forma, como esta interfere ou pode interferir na reflexão filosófica ou na construção de um pensamento filosófico?
José Raimundo: Machado é um autor literário, apesar de em um grau que se nota de reflexão filosófica em suas obras. A literatura é a forma de discurso que ele encara como a mais adequada de apresentar a sua proposta. A expressão literária da filosofia é uma posição problemática porque a literatura não se envolve em um compromisso epistemológico com a verdade, por exemplo. É um problema muito presente na Filosofia. Montaigne inventou o ensaio, por crer ser a melhor forma de veicular suas idéias, por exemplo. Machado de Assis em seus textos se contrapõe a uma postura dogmática da ideologia presente no Brasil durante o Segundo Reinado: o cristianismo de visão escolástica (apesar de certa simpatia em sua primeira fase); a filosofia iluminista, que confia profundamente na ciência. Seria, portanto, difícil fazer filosofia fora da literatura, pois é nesse espaço que se encontra o lugar possível para essas perspectivas irônicas, céticas e filosóficas. Ao todo, a própria escritura é parte da associação da atitude filosófica com a própria escrita.

Música: “Ele e Ela na cidade sem fim”, Vanessa da Mata

Ceticismo na obra de Machado de Assis - Parte IV

Leitura de trechos de Machado de Assis:
Espinosa
Esaú e Jacó, capítulo 41 – O Caso do Burro



3 pessoas comentaram o programa de “Ceticismo na obra de Machado de Assis”

  1. Denilson Cajazeiro disse:

    Parabéns pela iniciativa!

    É muito bom podermos recuperar as discussões (excelentes, por sinal) pela internet.

  2. Bianca disse:

    muito bom mesmo, estou iniciando um projeto sobre Machado de Assis.
    é muito importante que haja discussoes sobre esse autor maravilhoso.

  3. Jussara Lacerda disse:

    Estou cada vez mais anciosa para poder presenciar o minicurso sobre o tema que sera promovido pela FAJE,aguardo com euforia os dias 10 e 11 de setembro

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