Filosofia e Alimentação: Míriam Campolina
A professora Miriam Campolina Diniz Peixoto possui graduação em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985), graduação em Filosofia na UFMG e na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (1989-1991, nao concluido), mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995) e doutorado em Philosophie - Université Strasbourg II - Marc Bloch (2000). Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Filosofia Antiga, atuando principalmente nos seguintes temas: Pré-Socráticos, Atomismo antigo, Ética antiga, Problema do Corpo e da Alma, Medicina Antiga.
Filosofia e Alimentação - Parte I
Há uma relação entre o modo de lidar com os alimentos e nosso modo de pensar e fazer nossas escolhas na vida.
Sistemas contemporâneos de alimentação como o fast-food e a comida a quilo privam o homem da experiência de convivialidade, o levam à pressa para comer, à compulsão e a provar de tudo que há disponível.
A reflexão sobre a alimentação é um terreno frutífero para o pensamento filosófico, sobretudo no campo da ética. Desde a antiguidade, muitos filósofos trataram diretamente dessa questão.
Filosofia e Alimentação - Parte II
“Como comemos somos” oferece uma dupla reflexão sobre a alimentação: 1. O modo como nos alimentamos é demonstrativo daquilo que somos; 2. Comer junto instaura uma comunidade entre os comensais.
No fast food, por comermos solitariamente, o homem se priva de uma condição quase que inata do homem de se constituir enquanto ser social no ato de comer.
Filosofia e Alimentação - Parte III
Como pensar os distúrbios alimentares da bulimia ou anorexia a partir de uma reflexão filosófica sobre o alimento? Etimologicamente, esses termos vêm do grego e indicam, um por excesso (bulimia) e outro por falta (anorexia), uma incapacidade de lidar com os próprios impulsos e desejos.
Narração do texto de Xenofonte sobre o exemplo socrático da moderação. Sócrates, diz-se, agia em harmonia com o próprio apetite e fazia das refeições e de sua moderação uma fonte de prazer.
Filosofia e Alimentação - Parte IV
A professora Miriam apresenta a idéia da “cosmofagia”, enquanto comemos, comemos o próprio mundo, participamos dele. O ato de comer reintegra o homem ao macrocosmo. Aquilo que está fora de nós, também, pela ingestão dos alimentos, se apresenta dentro de nós.
Como pensar o ato de alimentar e as relações quanto aos modos de produção e a influência da mídia? É interessante que muitas vezes deixamos de consumir o alimento nele mesmo para buscar esta ou aquela marca. Um exemplo interessante sobre o debate quanto a alimentação é o movimento slow-food cuja proposta é divulgar um modo de alimentação mais voltado ao homem.
Sugestão de livros: “A razão gulosa: a filosofia do gosto” e “Ventre dos filósofos” de Michel Onfray, ambos publicados no Brasil pela editora Rocco. “A história da alimentação” de Jean Luis Flandrin e Massimo Montanari publicado pela Ed. Estação Liberdade. Sobre o movimento do slow-food, visitar o site da organização: www.slowfoodfoundation.com
Setembro 29th, 2008: 6:09 pm
tive as repostas de todas as perguntas adorei!
Abril 20th, 2009: 4:33 pm
Professora Mirian, tudo bem?
Sou acadêmico de serviço social em Brasília e há muitos anos estudioso da nutrição humana. Gostaria de compartilhar com a senhora estes pontos comuns!
Saudações fraternas!
Alexandre Pimentel
Abril 20th, 2009: 4:33 pm
A Comida do Filósofo
Qual seria a alimentação ideal para os
genuínos buscadores da sabedoria?
Por Alexandre Pimentel
É muito comum ouvirmos a expressão “nutrição esportiva”, mas, certamente, nunca ouvimos falar em “nutrição filosófica”! Será que os atletas têm direito a uma organização dietética que lhes garanta bom desempenho nas atividades físicas e os filósofos não fazem jus a um cardápio que lhes potencialize a capacidade de pensar um mundo melhor?
Diz um antigo preceito que nós, seres humanos, “somos o que comemos”. Certamente esta máxima é exagerada, pois, na verdade, somos muito mais do que os hábitos materiais que adotamos. Talvez, entretanto, seja correto afirmar que nos tornamos momentaneamente semelhantes às opções alimentares que historicamente escolhemos.
Um filósofo, no sentido amplo da palavra, é alguém que busca a sabedoria traduzida pela melhor forma de viver tanto no sentido individual quanto coletivo e, assim, seria difícil entender este buscador causando sofrimento a criaturas sensíveis, degradação natural ou destruição ambiental em vários níveis.
Quando olhamos para as vidas da maioria dos antigos filósofos da humanidade, podemos verificar que seus hábitos dietéticos primavam não apenas pela saúde física e intelectual, mas pela justiça quanto à ordem natural.
O sábio Pitágoras (1) aconselhava uma dieta isenta de produtos animais, condição sinequanon para acesso à escola de filosofia de Crothona, na Grécia. A dieta “pitagórica” que, em sua forma mais estrita era quase vegana, é conseqüência dessa teoria. É evidente que havia distintos graus de adoção da dieta pitagórica. Pitágoras tinha dois tipos de seguidores, o círculo interno de neófitos e “cientistas” que seguiam a dieta mais restrita (composta de pão, mel, cereais, frutas e alguns legumes) e o círculo externo que ouvia os ensinamentos espirituais e tinham permissão para comer carne e algum vinho, mas de quem era exigido abster-se desses itens em alguns dias. Assim, desde cedo a dieta vegetariana foi associada a “intelectuais” e a dieta mais rígida era vista como a mais valiosa. A dieta pitagórica foi banida em Roma, onde o imenso Império encontrava-se inseguro, enquanto que nos estados gregos menores, essa dieta foi mais aceita.
Hipócrates, considerado o pai da medicina ocidental, sugeria que os hábitos alimentares são oriundos de uma “forte dieta animal” (de frutas, ervas daninhas e capim) como a adotada por animais herbívoros, fortes e vigorosos.
Também encontramos esta prerrogativa em pensadores como Platão, Plutarco e Leon Tolstoy. Todos sugeriam, mesmo ao ser humano comum, ainda não atingido pela reflexão filosófica, uma rotina o mais vegetariana possível.
A russa Helena Blavatsky (2), autora de vasta obra e especialista naquilo que alguns antigos chamavam de “teofilosofia”, em seu livro “A Chave para a Teosofia”, comenta filosoficamente a necessidade de uma alimentação mais humanizada e adequada aos novos tempos:
“O vegetariano puro é aquele que se nutre exclusivamente de vegetais. Alguns partidários deste sistema ingerem os produtos animais obtidos sem que haja destruição da vida do animal, tais como o leite e seus derivados; outros se limitam a ingerir apenas frutas etc. O ocultismo (filosofia oculta ou filosofia interior) considera muito favorável o regime vegetariano por numerosas razões: umas de ordem física ou comum e as outras de ordem oculta. Este regime é muito mais apropriado à natureza do homem do que o carnívoro; é consideravelmente mais puro e são e, por sua vez, mais nutritivo e fortificante. Graças a ele muitas enfermidades são evitadas, tais como a gota, o reumatismo, a apoplexia, o câncer e várias outras. Segundo o Dr. Milner Fothergill: “Todas as vítimas causadas pelas disposições belicosas de Napoleão são nada em comparação com as miríadas de pessoas que morreram por causa de sua confiança cega no suposto valor nutritivo da carne de vaca.” E acrescenta sir Eduard Sanders: “Creio que atualmente o mundo tende para a alimentação vegetal, porque, finalmente, se compreenderá que é a melhor e mais racional e creio que não está longe o momento em que a idéia da alimentação carnívora será coisa detestável e repugnante para o homem civilizado”. Um dos grandes sábios alemães demonstrou que cada tecido animal, seja qual for o modo de prepará-lo, conserva sempre certas qualidades características do animal de que fazia parte. Quando a carne é assimilada como alimento pelo homem, transmite a ele algumas dessas qualidades. Além disso, a ciência oculta ensina e prova que este efeito de “animalização” do homem é maior quando a carne provém de animais maiores, menor quando se trata de aves, menor ainda quando se trata de pescado e outros animais de sangue frio, e mínimo quando se utiliza apenas vegetais.Assim, aconselha-se aos estudantes zelosos (filósofos) que ingiram o alimento que tenha a influência mais leve sobre seu cérebro e seu corpo e cujo efeito de estorvar e atrasar o desenvolvimento de sua intuição e das faculdades internas e poderes seja o menor possível. Outro grave inconveniente do uso da carne é que incita poderosamente à bebida, à intemperança e às paixões animais e é sabido que o álcool, em todas as suas formas, tem influência direta, marcada e bastante deletéria na condição psíquica do homem e impede o desenvolvimento de seus poderes internos.”
Além da velha HPB, muito conhecida e respeitada nos meios filosóficos, temos outra importante pensadora chamada Anna Bonus Kingsford (3), nem tão conhecida, mas tão profunda quanto a autora de “A Doutrina Secreta”. Anna Kingsford foi a primeira médica mulher da história da Inglaterra, tendo se formado na França numa época em que a poder patriarcal era soberano. Conhecida como a “mãe do vegetarianismo”, recentemente teve sua obra quase que integralmente resgatada pelo pesquisador brasileiro Arnaldo Sisson Filho.
A Dra. Anna não é apenas uma incondicional defensora de hábitos não cruéis, mas uma profunda conhecedora do cristianismo gnóstico, primitivo, associado à mitologia mundial de todas as eras e regiões, além de porta-voz dos direitos da mulher.
A própria Madame Blavatsky reconhecia as grandes capacidades psíquico-espirituais de Anna Kingsford quando afirmava:
“Poucas mulheres trabalharam mais intensamente do que ela, ou em causas mais nobre; nenhuma com mais sucesso na causa do humanitarismo. Poucas mulheres escreveram de forma mais gráfica, mais cativante, ou possuíram em estilo mais fascinante. O campo de atividades da Sra. Anna Kingsford, entretanto, não estava limitado a um plano meramente físico, ou mundano, da vida. Ela era uma teósofa, uma verdadeira teósofa de coração; uma líder de pensamento espiritual e filosófico, dotada com os mais excepcionais atributos psíquicos…Foi alguém cujas aspirações da vida inteira estiveram sempre voltadas para o eterno e para o verdadeiro.”
Fato é que Anna Kingsford enfatizava mais os aspectos “cristianismo” e “vegetarianismo” do que HPB. Ela ensinava que a prática vegetariana é o “primeiro mistério” das grandes religiões, ou seja, a atitude de não mais matar seres sensíveis para comer seria o marco inicial de uma vida verdadeiramente religiosa (no amplo sentido da palavra), independente da tradição filosófica. Além disso acreditava que o movimento vegetariano teria um papel vital na construção de uma nova cultura humana:
“Considero o movimento vegetariano o mais importante movimento de nossa época. Acredito nisso porque vejo nele o começo da verdadeira civilização. Minha opinião é que até o presente momento não sabemos o que significa civilização. Quando olhamos para os cadáveres dos animais, sejam inteiros ou cortados – que com molhos e condimentos são servidos em nossas mesas – não pensamos no horrível fato que precedeu esses pratos; e, não obstante, é algo terrível saber que a cada refeição que fazemos foi a custo de uma vida. Sustento que devemos à civilização a elevação de toda aquela classe profundamente desmoralizada e barbarizada de pessoas – açougueiros, boiadeiros e todos os outros envolvidos nesse negócio deplorável. Milhares de pessoas são degradadas pela presença de abatedouros em suas vizinhanças, o que condena classes inteiras a uma ocupação aviltante e desumana. Aguardo pelo tempo em que a consumação do movimento vegetariano tenha criado homens perfeitos, pois vejo nesse movimento o alicerce da perfeição. Quando percebo as possibilidades do vegetarianismo e as alturas a que ele pode nos elevar, me sinto convencida de que ele se provará o redentor do mundo.”
Já que estamos tratando de nutrição e filosofia, talvez o mito grego de Prometeu consiga ampliar nossa compreensão. No caso, aqui, quanto à alimentação ideal para aqueles que desejam refletir profundamente sobre a felicidade humana, sem desdenhar do pragmatismo no que diz respeito à ecologia animal, humana e social.
A lenda de Prometeu ilustra um dos mais antigos mitos, comum a todas as mitologias: o do rapto do fogo por um deus ou um herói. O Prometeu grego rouba o fogo de Zeus e leva-o para os homens, permitindo-lhes, assim, que desenvolvam a arte e a civilização. Ele aparece como um verdadeiro herói civilizador, já que o fogo está na origem do desenvolvimento da metalurgia e, por conseguinte, da vida civilizada.
Numa interessante experiência onírica, que a Dra. Anna Kingsford nos conta no texto “O Banquete dos Deuses” (4), podemos ampliar o significado do mito de Prometeu dentro do contexto da nutrição humana:
Eu vi em meu sono uma grande mesa posta em uma bela montanha, cujos distantes picos estavam cobertos de neve, e brilhavam com uma intensa luz. Ao redor da mesa estavam doze pessoas, seis homens e seis mulheres, alguns dos quais eu reconheci de imediato, outros apenas mais tarde. Aqueles que reconheci de imediato eram Zeus, Hera, Palas Atena, Apolo e Ártemis. Os reconheci pelos símbolos que usavam. A mesa estava coberta com muitas variedades de frutas, de grande tamanho, incluindo nozes, amêndoas e olivas, com tortas finas de pão, e taças de ouro nas quais, antes de beber, cada divindade colocava dois tipos de líquido, um dos quais era vinho, e o outro água. Enquanto eu olhava, de pé sobre um degrau um pouco abaixo do piso que conduzia até a mesa, eu fui surpreendida ao ver Hera que me olhava fixamente e que disse:
“O que vês lá no final da mesa?” Eu olhei e respondi: “Vejo dois lugares vazios.” Então, ela falou novamente, dizendo: “Quando forem capazes de comer de nosso alimento e beber de nossa taça, também poderão sentar e comer em nossa companhia.” Ela mal tinha terminado de dizer essas palavras quando Atena, que estava sentada a minha frente, acrescentou: “Quando forem capazes de comer de nosso alimento e beber de nossa taça, então poderão conhecer como vocês são conhecidos.” E imediatamente Ártemis, a quem reconheci pela lua sobre sua cabeça, continuou: “Quando forem capazes de comer de nosso alimento e beber de nossa taça, todas as coisas se tornarão puras, e vocês se tornarão virgens.”
Eu disse, então: “Ó imortais, qual é o vosso alimento e qual a vossa bebida, e como as vossas refeições diferem das nossas, uma vez que nós também não comemos carne, e o sangue também não tem lugar em nossos repastos?”
Então, um dos Deuses, que no momento não conheci, mas que logo depois reconheci como sendo Hermes, levantou-se da mesa, e vindo em minha direção colocou em minhas mãos um ramo de figueira com um fruto maduro, e disse: “Se quiserem se tornar perfeitos, e serem capazes de conhecer todas as coisas, abandonem a heresia de Prometeu.( o grifo é nosso) Deixem que o fogo lhes aqueça e lhes dê conforto externamente – isso é uma dádiva dos céus. Mas não pervertam o seu justo propósito, como o fez aquele traidor da vossa raça, para encher as veias da humanidade com seu contágio, e para consumir o vosso ser interior com seu sopro. Todos vocês são homens de barro, como era a imagem que foi feita por Prometeu. Vocês são alimentados com fogo roubado, e ele os consome. De todas as más utilizações das boas dádivas dos céus, nenhuma é tão má como o uso interno do fogo. Pois os seus alimentos e bebidas quentes têm consumido e ressecado o poder magnético dos seus nervos, selado os seus sentidos, e encurtado as suas vidas. Vocês, desse modo, não vêem nem ouvem; pois o fogo em seus órgãos consome os seus sentidos. Vocês são todos cegos e surdos, criaturas de barro. Nós lhes enviamos um livro para ser lido. Pratiquem os seus preceitos, e seus sentidos se abrirão.”
Então, ainda não o reconhecendo, eu disse: “Diga-me seu nome, Senhor.” Nesse momento ele riu e respondeu: “Tenho estado contigo desde o começo. Sou a nuvem branca no céu do meio dia.” “Então”, perguntei, “desejais que todo o mundo abandone o uso do fogo na preparação dos alimentos e das bebidas?”
Ao invés de responder minha pergunta, ele disse: “Nós mostramos a vocês o caminho excelente. Dois lugares estão vagos em nossa mesa. Nós lhes mostramos tudo o que poderia ser mostrado no nível em que se encontram. Mas nossas dádivas perfeitas, os frutos da Árvore da Vida, estão além do seu alcance nesse momento. Não podemos dar essas dádivas a vocês até que estejam purificados e tenham alcançado um nível mais alto. As condições são de Deus, a vontade é com vocês.”
Essas últimas palavras pareciam ser repetidas vindas do céu acima da cabeça, e também debaixo de meus pés. E naquele momento caí de uma vasta altura, como se tivesse sido atingida por um meteoro; e com a velocidade e o choque acordei.
No artigo “A Filosofia do Descaso”(5), o filósofo vegano Leon Deni, professor de Ensino Médio da Rede Pública do Estado de São Paulo, co-autor do projeto “Mens Sana in Corpori Sano” nesse Estado, critica o ensino moderno de filosofia, apontando para o fato de termos, na rede de ensino, muitos professores de filosofia e pouquíssimos filósofos genuínos. Ele cobra dos colegas uma ética maior onde o vegetarianismo ou o veganismo possam ser apresentados aos alunos fora de uma interpretação exótica:
O tratamento dado às questões que envolvem a ética ambiental pelos professores de filosofia nas redes públicas de ensino é praticamente nulo. Quando abordam questões éticas em sala de aulas, poucos põem os Direitos Animais, o Veganismo e a Ética Ambiental em pauta. Temas intimamente relacionados. Quando falamos de ética-política, é senso-comum girarmos em torno da necessidade de estendermos a todas as minorias da espécie humana o devido respeito moral que, há até poucos anos, era exclusivo dos homens brancos.
Para os professores de Filosofia, em geral, discutir ética é promover debates em sala de aula sobre aborto, eutanásia, legalização de entorpecentes, clonagem humana ou corrupção política quando um desses temas está em destaque na mídia ou quando é usado para apresentar o que alguns filósofos considerados clássicos disseram a respeito. Pôr o veganismo como assunto a ser discutido nas aulas de Ética é indispensável.
A professora Miriam Campolina Peixoto, assistente social e filósofa graduada pela Université Strasbourg II – Marc Bloch, especialista em vários temas filosóficos, entre eles, “problemas do corpo e da alma” e “medicina antiga”, defende existir uma relação entre o modo de lidar com o alimento, nosso modo de pensar e fazer escolhas na vida (6). Miriam trabalha a tese da “cosmofagia” que diz que quando comemos, ingerimos o próprio mundo. Segundo a cosmofagia, o ato de comer reintegra o homem ao macrocosmo. Aquilo que está fora de nós, também em forma de alimento, representa o que está dentro de nós.
Esta reflexão é muito interessante porque sugere que buscamos do lado de fora, também em forma de comida, coisas semelhantes as de nosso universo interno, ou seja, se buscamos alimentos de origem violenta, eles se identificariam com nossa violência potencial, se buscamos alimentos artificiais eles se identificariam com nosso sistema de crenças, talvez, também artificial. Nesse sentido, a professora critica o fast food e indica o slow food, apresentando literaturas e sugestões. É claro que isso se aplica de forma muito geral e devemos levar em consideração as possibilidades econômico-sociais de indivíduos ou comunidades:
“Há uma relação entre o modo de lidar com os alimentos, nosso modo de pensar e fazer as próprias escolhas na vida. Sistemas contemporâneos de alimentação como o fast-food e a comida a quilo, privam o homem da experiência da convivialidade, o levam à pressa para comer, à compulsão e a provar tudo que há disponível. A reflexão sobre alimentação é um terreno frutífero para o pensamento filosófico, sobretudo no campo da ética. Desde a antiguidade, muitos filósofos trataram diretamente desta questão”.
Pensador e filósofo contemporâneo, recém falecido, o professor Pierre Wail (7), fundador da Universidade da Paz, reconhecia a necessidade de um regime harmônico com as leis naturais. Durante décadas ele trabalhou pela construção de um mundo mais pleno, pregando uma nova possibilidade de relação entre os seres humanos e a natureza. O professor Pierre nos deixou também uma série de obras holístico-filosóficas. Sobre a questão alimentar ele dizia:
“Não comer carne significa muito mais para mim que uma simples defesa do meu organismo; é um gesto simbólico da minha vontade de viver em harmonia com a natureza. O homem precisa de um novo tipo de relação com a natureza, uma relação que seja de integração em vez de domínio, uma relação de pertencer a ela em vez de possuí-la. Não comer carne simboliza respeito à vida universal”.
Conhecemos pessoalmente a professora Sonia Felipe(8), doutora em filosofia, professora de ética e filosofia política na UFSC e na UL de Lisboa, Portugal. Assistimos em Brasília, promovida pela Sociedade Vegetariana Brasileira – SVB – sua palestra “Ética na Alimentação”,também transformada em artigo, onde Sonia aprofunda a investigação sobre hábitos alimentares, comparando a dieta centrada nos produtos de origem animal com a escravidão de africanos e outros eventos históricos baseados na exploração e afronta contra a vida. Destacamos da palestra/artigo a seguinte passagem:
“A inocência moral do costume de escravizar africanos nas lavouras e negócios euro-americanos acabou na segunda metade do século XIX. Do mesmo modo, acabou a inocência no uso do trabalho das mulheres para agregar poder econômico, moral e político aos homens. Nossa era é a do fim da inocência moral no ato de comer animais e seus derivados. Embora continue a ser “natural” comer, já não há nada de natural no conteúdo de qualquer refeição que resulta de processamento industrial. O argumento de que a abolição da moral onívora é uma utopia, porque todos estamos enraizados em práticas cotidianas que a sustentam, segue a mesma lógica de defesa da escravização de africanos e exploração das mulheres.
Há um século e meio atrás também dizia-se que a escravidão não poderia ser abolida porque representaria a ruína da economia e da política internacional. Na verdade, escreve Fox, “houve um tempo não muito longe, no entanto, no qual muitas pessoas não apenas pensavam que a escravidão fosse algo justificável e mesmo sancionada por Deus, e estavam seguras de que elas – e a sociedade – não poderiam sobreviver sem ela. O que isso significava era que seu estilo de vida, bem-estar econômico, e posição de poder e privilégio não poderiam sobreviver sem ela, o que é algo bem diferente. […] Mas ninguém afirma que a utilidade social da escravidão foi maior no tempo em que existiu. […] Quando todos os benefícios e danos relevantes são levados em conta, fica evidente que a escravidão era uma instituição viciada e irremediavelmente cruel. […] Mas somente há pouco tempo alguns ousaram sugerir que os animais são rotineiramente tratados como escravos e que há nisso um grau comparável ao da escravização humana.”
Recentemente participamos de uma bela “feira de filosofia”, organizada em Brasília por uma conhecida instituição filosófica, existente em vários países. Ficamos deslumbrados com as apresentações didáticas que, em rápidas palavras, demonstravam as bases dos pensamentos de grandes vultos como Lado Tsé, Budha, Giordano Bruno e Blavatsky. Houve também várias palestras inspiradoras onde, inclusive, o tema saúde foi abordado à luz do pensamento filosófico por competente expositor. Entre essas várias conferências, foi citada a velha máxima da Tábua de Esmeralda: “Aquilo que está embaixo é como aquilo que está em cima e aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo para fazer milagres com uma só coisa” do mitológico sacerdote egípcio Hermes Trimegisto que, por algum motivo inconsciente, ficou pairando em nosso ser.
Em determinado momento sentimos fome e perguntamos onde ficava a lanchonete. Recebemos a indicação de que deveríamos subir uma escada que ficava à direita. Agradecemos e fomos direto a um local cheio de mesas e cadeiras onde muitas pessoas se movimentavam e eis que uma senhora, de forma sorridente, pergunta:
- Os senhores desejam uma refeição? Ainda temos bife acebolado!
Ficamos horrorizados. Não pelo bife em si, mas pelo fato de uma instituição sinceramente dedicada à causa humana estar ainda atrelada a prerrogativas especistas. Perguntamos se haveria alguma opção vegetariana e tristemente constatamos que a resposta era não.
Neste momento percebemos o porquê da fixação no conceito hermético, aquele que compara o “lado” de cima com o “lado” de baixo. Na verdade, naquele local, a filosofia fraterna que estava em baixo era completamente diferente da lanchonete cruel que estava em cima!
Sites consultados:
www.vegatarianismo.com.br
www.sociedadeteosofica.org.br
www.anna-kingsford.com
www.novaacropole.org.br
www.humanitarismo21.com
www.unipaz.org.br
www.unipazsul.org.br
www.slowfoodfoundation.com
www.helenablavatsky.com.br
www.pitagorico.org.br
www.saudecidadania.blogspot.com
Bibliografia consultada:
ALMEIDA, Júlia Aschermann Mendes de – Artigo “ A Ética Ambiental de Tom Regan: Crítica, Conceitos, Argumentos e Propostas.“
BLAVATSKY, Helena Petrovna – Glossário Teosófico, Ground Editora, 3ª edição, São Paulo, 1995.
BLAVATSKY, Helena Petrovna – A Chave para a Teosofia
JULIEN, Nadia – Minidicionário Compacto de Mitologia, Editora Rideel, 1ª edição, São Paulo, 2002.
SISSON, Marina Cesar – A Esfinge Blavatsky, Edição da Autora, 1ª edição, Brasília, 2003.
SINGER, Peter. Libertação Animal, Porto Alegre-RS: Editora Lugano, 2004
Notas:
(1) An Historical Perspective on Being Vegetarian. Centre for Consumer Education and Research, Liverpool John Moores University.
(2) www.helenablavatsky.com.br
(3) www.anna-kingsford.com
(4) [Dreams and Dream-Stories (Sonhos e Estórias de Sonhos). Anna Bonus Kingsford. Editado por Edward Maitland. Segunda Edição: George Redway, Londres, 1888. 281 pp. (36-38)]
(5) A Filosofia do Descaso
(6)Filosofia da Alimentação
(7) www.unipaz.org.br
(8) O Banquete dos Deuses
Maio 7th, 2009: 4:08 pm
Muito bem!!!! são maravilhosos os artigos, esse trabalho de conscientização é indispensável.
Setembro 22nd, 2009: 11:06 pm
Estava fazendo um trabalho sobre este assunto…Muito Bem!!!!!!!!!!
Setembro 29th, 2009: 10:20 pm
[…] Segunda Edição: George Redway, Londres, 1888. 281 pp. (36-38)](5) A Filosofia do Descaso(6)Filosofia da Alimentação(7) www.unipaz.org.br(8) O Banquete dos […]
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