Tragédia e alegria. A tragédia grega como uma obra poética jubilatória
A Profª. Drª. Tereza VirgÃnia Ribeiro Barbosa é entrevista pelos alunos Peter Souza Lima e Paulo Rocha.
Tema: Tragédia e alegria. A tragédia grega como uma obra poética jubilatória
Primeiro bloco: a professora VirgÃnia afirma que existem várias teorias para definir tragédia grega, dentre elas, a de Aristóteles (a tragédia é preciosa porque leva o espectador ao conhecimento), a de Nietzsche (quando a tragédia se preocupa com o conhecimento, com o pensamento filosófico, ela morre) A professora argumenta que a tragédia busca atingir o corpo todo. É necessário pensar a tragédia numa totalidade fÃsica. Nesse sentido, a tragédia é conhecimento sim, como disse Aristóteles, mas um conhecimento mais visceral do que cerebral, como o afirma Nietzsche. A arte não pode ser depressiva, ao contrário, tem que expressar uma presença de Dioniso. A tragédia é assim exultante.
Se pensamos a matéria da tragédia, objetivando teorizá-la através das questões de moral e da ética, tal gênero é pensado como a forma que veicula a ação dos viventes vibrantes, mas destinados a morrer que são os homem em sua fragilidade mas com vibração. Mas a tragédia é também a encenação dos homens que vivem assustados pela morte. A tragédia é o gênero dos mortais. Mortal é o significado para esses dois tipos de homens. Materialização sonora da sofÃstica: a sutileza de sentido entre essas duas palavras. Esses dois tipos de homens veiculam uma visão de mundo que nos escapa. Assim, duas posturas dentro da tragédia: uma mais vibrante e uma mais abatida, mais sofrida. Elas se imiscuem uma na outra e falam do humano.
Música: Primeira parte da AntÃgona de Sófocles.
Segundo Bloco:
Peter Souza Lima entrevista a professora: a tragédia tende a contemplar uma desmedida, um excesso. Como que isso funciona para aquele que vivencia a tragédia? A hybris é posta em cena por si mesma ou objetiva outra coisa?
Tereza: a tragédia tende sim a contemplar o exagero e é isto que a torna emocionante. A desmedida, mas de um homem que tem medida, daquele que tem como medida a morte. O ser que vai morrer realiza um ato que o eterniza, que o faz passar para o ciclo da perenidade, quando ele pratica uma ação que o aproxima dos deuses. Um exemplo desse tipo de ação é concretizado pela personagem Medéia. Esta realiza uma ação que ultrapassa os limites do humano. Em EurÃpedes, Medéia é traÃda, contudo, “dá a volta por cima”: mata os filhos e ri do marido que a traiu.
Nós que olhamos para a Medéia em cena temos horror a sua ação (matar uma criança, seu próprio filho), mas gostamos de ver a vitória de Medéia, seu riso sarcástico em frente à quele humano frágil que ficou para trás. Essa sensação de vitória faz bem para quem assiste. Ficamos divididos, então, entre a compaixão e o horror jubilatório. Divididos nesses dois afetos somos dilacerados. Esse dilaceramento que experimentamos é uma experiência dionisÃaca. Dioniso foi dilacerado pelos Titãs. Portanto, quando somos dilacerados, entramos em comunhão com deus. Perceber-se dividido é perceber-se humano. É entender que o humano tem duas matérias: uma que atende ao fugaz e outra que almeja o perene, o eterno.
O excesso é colocado em cena na tragédia grega não pelo prazer de ver o transgressor, mas para fazer da contemplação do ato um teste: o excesso nos leva a perguntar: até onde eu posso ir? Qual é o meu limite?
Por outros termos, não se busca a hybris por ela mesma, mas sim, o ponto extremo do limite, o ponto último de um provável movimento, o qual por descuido pode vir a converter-se em hybris que leva ao fracasso, no caso do trágico, ou ao sucesso, se pensamos no épico.
Por isso aquele que vivencia a tragédia alcança a conivência equilibradora de paixões e de tendência contrárias. Esse jogo estético de movimentos dilacerantes na alma permite-nos afirmar que não há tragédia sem júbilo, sem riso, em todas as suas formas. Ao vivenciar uma tragédia, vemos nossas experiências passadas vividas e assim podemos entendê-las melhor.
Peter: qual é o papel do riso na tragédia grega? É possÃvel que se cometa hybris através do riso?
O riso na sociedade grega no perÃodo clássico oscila entre a celebração da vida e a ostentação do culto ao antagonismo. A função do riso na tragédia é a de expressão de liberação e de alegria e ao mesmo tempo de manifestação de ódio e de execração. A tragédia no mundo grego permite que os homens sejam politicamente incorretos.
A atitude de rir envolve, no mundo grego, um vocabulário amplo desde o riso simples pueril até o riso virulento e perigoso. Os verbos com a semântica do riso tangem ao conceito de hybris.
Música: Segunda Parte de AntÃgona de Sófocles.
Terceiro bloco:
Peter: No Banquete, Sócrates investiga se o mesmo poeta poderia compor tragédia e comédia. Esses gêneros são similares a esse ponto? Se não, quais diferenças podem ser marcadas entre tragédia e comédia? Como o drama satÃrico se posiciona nessa relação?
VirgÃnia: o drama satÃrico inverte a situação que antes estava sendo ensinada na tragédia, ou seja, a situação encenada passa a ter dimensão de brincadeira. Portanto, o mesmo poeta que escrevia sobre um drama doloroso, fazia do conteúdo deste uma brincadeira, para expurgar a dor da sua plateia.
Tragédia e comédia são diferentes. No entanto, Ésquilo, Sófocles e EurÃpedes, escritores de tragédia, escreveram também dramas satÃricos. Nestes misturavam os conteúdos da tragédia e do drama, as linguagens elevada e baixa, personagens reis e deuses com personagens meio homens e meio bichos. Isto não fazia desses poetas ousados porque a mistura era conscientemente programada, na própria estrutura do drama satÃrico. Portanto, a mistura de gêneros é muito ao gosto da polis do século V.
Peter: E Mormó? Como essa figura se manifesta na tragédia?
VirgÃnia: Mormolique (Mormoluquéia) é uma divindade do mundo infernal, que assustava as crianças. Seu nome era utilizado também como uma interjeição para expressar o medo. Uma espécie de “Cuca” do Monteiro Lobato, ou um “Bicho Papão” que pega as crianças. A cultura grega considerou essa prática de fazer medo em crianças e essas figuras mitológicas como profiláticas , pois seriam capazes de conter as crianças não permitindo, pelo medo, que ultrapassassem os limites de um comportamento social e religioso desagradável.
Mormó é sÃmbolo do que fazem os poetas trágicos: uma brincadeira saudável de fazer medo nas pessoas. Brincadeira saudável, purificável para assustar. Portanto, assistir tragédia é brincar com Mormós.
Música: Terceira parte de AntÃgona de Sófocles.
Quarto bloco:
Peter: O que faz das Eumênides uma peça tão singular entre as outras da trilogia de Orestes? Como o mal é retratado nessa obra?
VirgÃnia: As Eumênides são uma brincadeira de Mormós, que provoca medo a cada instante. A peça como um todo é um jogo dramático muito extravagante.
A transformação do mal em bem nessa peça é realizada pela vontade dos deuses. Neste ponto, entra o trabalho da sofÃstica: Atenas simplesmente muda o nome das personagens e elas se tornam boas. Assim, Eumênides é um texto teatral capaz de provocar mal estar com muito bom humor e inteligência. A estratégia de abrandar o nome das erÃnias evidencia que só o discurso acaba com o mal, a palavra acaba com o mal. Portanto, esta é uma peça muito singular, que valoriza a palavra, que valoriza também o susto, o corpo, a ação.
Música: Quarta parte da AntÃgona de Sófocles.
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