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Tragédia e alegria. A tragédia grega como uma obra poética jubilatória

Exibido em 19 de Outubro de 2010 | Resumo por: admin - Categorias: Filosofia


A Profª. Drª. Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa é entrevista pelos alunos Peter Souza Lima e Paulo Rocha.

Tema: Tragédia e alegria. A tragédia grega como uma obra poética jubilatória

Primeiro bloco: a professora Virgínia afirma que existem várias teorias para definir tragédia grega, dentre elas, a de Aristóteles (a tragédia é preciosa porque leva o espectador ao conhecimento), a de Nietzsche (quando a tragédia se preocupa com o conhecimento, com o pensamento filosófico, ela morre) A professora argumenta que a tragédia busca atingir o corpo todo. É necessário pensar a tragédia numa totalidade física. Nesse sentido, a tragédia é conhecimento sim, como disse Aristóteles, mas um conhecimento mais visceral do que cerebral, como o afirma Nietzsche. A arte não pode ser depressiva, ao contrário, tem que expressar uma presença de Dioniso. A tragédia é assim exultante.

Se pensamos a matéria da tragédia, objetivando teorizá-la através das questões de moral e da ética, tal gênero é pensado como a forma que veicula a ação dos viventes vibrantes, mas destinados a morrer que são os homem em sua fragilidade mas com vibração. Mas a tragédia é também a encenação dos homens que vivem assustados pela morte. A tragédia é o gênero dos mortais. Mortal é o significado para esses dois tipos de homens. Materialização sonora da sofística: a sutileza de sentido entre essas duas palavras. Esses dois tipos de homens veiculam uma visão de mundo que nos escapa. Assim, duas posturas dentro da tragédia: uma mais vibrante e uma mais abatida, mais sofrida. Elas se imiscuem uma na outra e falam do humano.

Música: Primeira parte da Antígona de Sófocles.

Segundo Bloco:

Peter Souza Lima entrevista a professora: a tragédia tende a contemplar uma desmedida, um excesso. Como que isso funciona para aquele que vivencia a tragédia? A hybris é posta em cena por si mesma ou objetiva outra coisa?

Tereza: a tragédia tende sim a contemplar o exagero e é isto que a torna emocionante. A desmedida, mas de um  homem que tem medida, daquele que tem como medida a morte.  O ser que vai morrer realiza um ato que o eterniza, que o faz passar para o ciclo da perenidade, quando ele pratica uma ação que o aproxima dos deuses. Um exemplo desse tipo de ação é concretizado pela personagem Medéia.  Esta realiza uma ação que ultrapassa os limites do humano. Em Eurípedes, Medéia é traída, contudo, “dá a volta por cima”: mata os filhos e ri do marido que a traiu.

Nós que olhamos para a Medéia em cena temos horror a sua ação (matar uma criança, seu próprio filho), mas gostamos de ver a vitória de Medéia, seu riso sarcástico em frente àquele humano frágil que ficou para trás. Essa sensação de vitória faz bem para quem assiste.  Ficamos divididos, então, entre a compaixão e o horror jubilatório. Divididos nesses dois afetos somos dilacerados. Esse dilaceramento que experimentamos é uma experiência dionisíaca. Dioniso foi dilacerado pelos Titãs. Portanto, quando somos dilacerados, entramos em comunhão com deus. Perceber-se dividido é perceber-se humano.  É entender que o humano tem duas matérias: uma que atende ao fugaz e outra que almeja o perene, o eterno.

O excesso é colocado em cena na tragédia grega não pelo prazer de ver o transgressor, mas para fazer da contemplação do ato um teste: o excesso nos leva a perguntar: até onde eu posso ir? Qual é o meu limite?

Por outros termos, não se busca a hybris por ela mesma, mas sim, o ponto extremo do limite, o ponto último de um provável movimento, o qual por descuido pode vir a converter-se em hybris que leva ao fracasso, no caso do trágico, ou ao sucesso, se pensamos no épico.

Por isso aquele que vivencia a tragédia alcança a conivência equilibradora de paixões e de tendência contrárias. Esse jogo estético de movimentos dilacerantes na alma permite-nos afirmar que não há tragédia sem júbilo, sem riso, em todas as suas formas. Ao vivenciar uma tragédia, vemos nossas experiências passadas vividas e assim podemos entendê-las melhor.

Peter: qual é o papel do riso na tragédia grega? É possível que se cometa hybris através do riso?

O riso na sociedade grega no período clássico oscila entre a celebração da vida e a ostentação do culto ao antagonismo.  A função do riso na tragédia é a de expressão de liberação e de alegria e ao mesmo tempo de manifestação de ódio e de execração. A tragédia no mundo grego permite que os homens sejam politicamente incorretos.

A atitude de rir envolve, no mundo grego, um vocabulário amplo desde o riso simples pueril até o riso virulento e perigoso. Os verbos com a semântica do riso tangem ao conceito de hybris.

Música: Segunda Parte de Antígona de Sófocles.

Terceiro bloco:

Peter: No Banquete, Sócrates investiga se o mesmo poeta poderia compor tragédia e comédia. Esses gêneros são similares a esse ponto? Se não, quais diferenças podem ser marcadas entre tragédia e comédia? Como o drama satírico se posiciona nessa relação?

Virgínia: o drama satírico inverte a situação que antes estava sendo ensinada na tragédia, ou seja, a situação encenada passa a ter dimensão de brincadeira. Portanto, o mesmo poeta que escrevia sobre um drama doloroso, fazia do conteúdo deste uma brincadeira, para expurgar a dor da sua plateia.

Tragédia e comédia são diferentes. No entanto, Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, escritores de tragédia, escreveram também dramas satíricos. Nestes misturavam os conteúdos da tragédia e do drama, as linguagens elevada e baixa, personagens reis e deuses com personagens meio homens e meio bichos. Isto não fazia desses poetas ousados porque a mistura era conscientemente programada, na própria estrutura do drama satírico. Portanto, a mistura de gêneros é muito ao gosto da polis do século V.

Peter: E Mormó? Como essa figura se manifesta na tragédia?

Virgínia: Mormolique  (Mormoluquéia) é uma divindade do mundo infernal, que assustava as crianças. Seu nome era utilizado também como uma interjeição para expressar o medo. Uma espécie de “Cuca” do Monteiro Lobato, ou um “Bicho Papão” que pega as crianças. A cultura grega considerou essa prática de fazer medo em crianças e essas figuras mitológicas como profiláticas , pois seriam capazes de conter as crianças não permitindo, pelo medo, que ultrapassassem os limites de um comportamento social e religioso desagradável.

Mormó é símbolo do que fazem os poetas trágicos: uma brincadeira saudável de fazer medo nas pessoas. Brincadeira saudável, purificável para assustar. Portanto, assistir tragédia é brincar com Mormós.

Música: Terceira parte de Antígona de Sófocles.

Quarto bloco:

Peter: O que faz das Eumênides uma peça tão singular entre as outras da trilogia de Orestes? Como o mal é retratado nessa obra?

Virgínia: As Eumênides são uma brincadeira de Mormós, que provoca medo a cada instante. A peça como um todo é um jogo dramático muito extravagante.

A transformação do mal em bem nessa peça é realizada pela vontade dos deuses. Neste ponto, entra o trabalho da sofística: Atenas simplesmente muda o nome das personagens e elas se tornam boas. Assim, Eumênides é um texto teatral capaz de provocar mal estar com muito bom humor e inteligência. A estratégia de abrandar o nome das erínias evidencia que só o discurso acaba com o mal, a palavra acaba com o mal. Portanto, esta é uma peça muito singular, que valoriza a palavra, que valoriza também o susto, o corpo, a ação.

Música: Quarta parte da Antígona de Sófocles.

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