Até o fim

Nossa! Já se passaram doze anos e nada! Quatro tentativas de mandatos e ainda não foi possível alcançar o posto de vereador municipal de Contagem. Acredito que tudo aconteceu porque os eleitores são muito de levar vantagem. Eles não olham para seu trabalho. Eu fui presidente da associação de moradores do bairro por cinco mandatos, cobrei da Copasa para trazer rede de esgoto, da Prefeitura para trazer asfalto e outras coisas. Só que as pessoas só olham o status.

Se você chega em um lugar para comprar, se você chega engravatado, você é atendido de um jeito, se você chega de chinelo de dedo, você é discriminado. Na política é a mesma coisa. Os eleitores querem ganhar vantagem. Se chega um candidato fulano de tal e tem diploma, a grande maioria fala que vai votar porque é doutor, ou porque fulano é bonito. Quando você chega para pedir um voto, o eleitor diz "se você me der uma cesta básica eu voto em você". Eu não faço isso porque se fizer para um, tenho que fazer para todos, por isso que eu não faço. Então eu não venci até hoje as eleições porque as pessoas não reconheceram meu trabalho e porque os eleitores querem tirar vantagem de alguma coisa ou por causa do cara ser doutor, ou ser bonito, ou porque o cara ofereceu um emprego... Eles preferem votar nessas pessoas do que votar em mim, mas hoje eles estão vendo que quando o cara consegue o poder passa para o lado de lá e depois vem atrás de mim.

            Eu me interessei por política porque neste mundo é política que está na sua casa, na igreja, na escola e no esposo com a esposa. As pessoas veem a política como um mau, mas se não houvesse a política não sei se o mundo seria o que é hoje. É coisa publica, tratar o direito publico. Lidar com o povo, lidar com mandato que o povo te deu. Trabalhar com o poder dos outros. Faltou preparo político, por não saber lidar com o povo, investir no povo, saber das necessidades do povo, deve ser por isso que ele não foi eleito. Eu o vejo como mais um aproveitador. Que tenta tirar proveito próprio das situações como representante do bairro. Quando era presidente da associação ele fez algumas coisas, mas sempre tirando proveito próprio. Ele tinha condições de fazer mais se quisesse ser um representante do povo, mas ele sempre visou tirar proveito próprio.

            O que me prejudicou nas eleições foi o fato das pessoas não transferirem o titulo para o bairro. Não participam, votam em qualquer um que promete qualquer coisa, vota pelo interesse econômico do candidato. Eu procuro me informar como eleitor sobre o candidato. Mas infelizmente não temos muitas opções boas de escolha. Mesmo que um candidato tenha boas intenções, ele se corrompe, pois há muitos interesses particulares. Para você se eleger você acaba se corrompendo e não representando o povo.

            A minha formação é até o segundo grau, mas para você ser político não precisa ser doutor. Pode ser uma pessoa comum. Você tem que ser inteligente conhecer as coisas e procurar se informar. Porque nem sempre os caras que são formados são criativos. Tem muitos caras que são formados que é pior do que o cara que não sabe nada. Você pode fazer certos trabalhos sem ser formado. Interfere e muito uma pessoa não ter tido curso superior. Não descarto a importância da experiência de vida de um candidato, mas os aspectos culturais devem ser levados em conta. A política sempre exigiu investimento pesado. Para uma pessoa sair do povo e chegar a algum cargo público é muito difícil. A maior faculdade é a do banco da vida, porque ela tem dois caminhos: o certo e o errado. Para mim, formar na faculdade do mundo é mais importante do que a faculdade tradicional.

            Há nove anos abro minha quadra com valores reduzidos. Não faço de graça, pois pra tudo que é de graça as pessoas não dão valor. Deveria ser um representante do povo. Oferecer dignidade ao povo. As pessoas se elegem e esquecem dos eleitores. Autorizamos que o candidato nos represente mas ele não o faz. O João tem uma campanha aos sábados de manhã em sua quadra esportiva, onde o futebol infantil é cobrado a um preço reduzido. Mas acredito que não seja sem interesses. Poderia aproveitar melhor a quadra, mas por falta de competência não aproveita.

            Por interesse próprio, João Batista pede que as pessoas transfiram o titulo de eleitor. Não pela comodidade do eleitor, mas sim por interesses políticos. Sou muito descrente com os políticos. Gosto muito daquele personagem do Chico Anísio, o Justo Veríssimo, que dizia o bordão "o povo que se exploda, eu quero é me arrumar". Quando ganham a eleição se esquecem do povo.

            João é uma pessoa que saiu de Salinas, era um João ninguém, sem cultura, ele veio do nada, pelo seu empenho conseguiu ser alguém. Tinha um depósito de construção, não sabia fazer conta. Uma pessoa que não sabe usar sua popularidade para se eleger. É uma pessoa totalmente bronca, se ele fosse um pouco lapidado, se talvez tivesse um pouco de cultura... Se não me engano, ele tem nível primário. Ele tem uma dificuldade de lidar com outro. Quando se tem um conhecimento cultural maior é mais fácil de lidar com outro. O presidente Lula se gabava em não ter curso superior. Eu acho que isso é um demérito do candidato. Porque tudo é feito de relações e o vocabulário é importante. Deve ter uma cultura necessária para enfrentar o poder. O João Batista vem batalhando há vários anos. Obelino já venceu a eleição, tem nível superior, uma cultura maior. O eleitor está bem consciente de suas escolhas. Ouço casos de pessoas que ganhavam antigamente um pé de sapato e, se o candidato ganhasse, dava o outro par. Hoje, isso já não existe mais. Temos muito que crescer, mas já estamos evoluindo. Hoje uma pessoa tão bronca não consegue se arrumar. É uma pessoa que passa anos sem olhar para você, quando chega a época da política te cumprimenta, pede voto seu, de seus filhos e amigos. Talvez essa seja a maior falha dele.

            A mãe dele mora em um casebre, não tem assistência médica e o João tem condições financeiras para ajudá-la. Como eu sou uma pessoa muito família, em primeiro lugar vem a nossa mãe. Ele tem condições financeiras suficientes para ajudar e não fez. Imagine então para nós, o povo. Minha mãe é uma pessoa simples, sem muito luxo. Ela leva uma vida que ela pediu. Não posso fazer mais do que faço, afinal não sou o único filho. Se as pessoas acham que faço pouco, por que elas mesmas não tomam frente da situação?

            Já fui servente, encarregado, pedreiro e hoje pego empreitada de obras. Eu combino o preço de fazer uma casa. Eu fui também trabalhador rural, dono de microempresa, motorista e pintor. Eu critico a pessoa dele, mas mesmo assim voto nele. Porque é um candidato que está próximo a mim, então tenho mais chance de cobrá-lo se for eleito. O fato dele morar aqui na rua, de eu ter conhecimento da vida dele... Se amanhã ele for eleito eu posso cobrar alguma coisa dele.

            A coisa boa que vejo no João é a força de vontade. Mesmo sendo uma pessoa bronca, sem cultura, sem conhecimento ele tem vontade de crescer. É uma pessoa que veio do nada de Salinas e hoje se tornou alguém, uma pessoa conhecida aqui no bairro. Muita gente conhece o João do Depósito.

Alessandra Dantas

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A memória é fundamental para todo indivíduo e instituição, qualquer que seja a sua natureza. É através dela que as instituições, assim como os indivíduos, conseguem se contextualizar historicamente, analisar sua trajetória, construir sua identidade e assim compreender o ambiente em que se inserem e como se posicionam ou desejam se posicionar.  

Com essa preocupação, e tendo em vista que a comemoração do cinqüentenário poderia se tornar um marco de mudança na relação do curso com sua memória, um grupo formado por docentes e técnicos decidiu iniciar um trabalho de preservação da memória institucional. No projeto que estamos construindo, interessa-nos abordar o trabalho de resgate da memória como processo relacional e coletivo. Não se pensa apenas em colecionar fatos, objetos e relatos acerca da trajetória institucional, mas, sobretudo, instaurar um processo de conversação com o passado.

O Projeto Memória, como foi entitulado, através da recuperação de alguns documentos oficiais e de uma série de entrevistas com os fundadores e alguns ex-alunos do curso de graduação, conseguiu apresentar resultados importantes para o início desse resgate. Paralelamente, outro projeto, o Acervo 50, desenvolveu uma nova metodologia e iniciou o processo de recuperação, tratamento e indexação do material audiovisual produzido e utilizado por alunos, técnicos e docentes ao longo da trajetória da instituição.

A estratégia adotada por ocasião da comemoração dos 50 anos do Curso dá ênfase para os recursos disponíveis na internet, que têm apresentado boas e dinâmicas possibilidades com relação aos aspectos constitutivos da memória, uma vez que as novas tecnologias possibilitam o resgate e o compartilhamento do passado. Nesse sentido, as mídias sociais, os blogs e os sites de compartilhamento de arquivos (youtube, soundcloud e flickr) têm permitido o diálogo com os públicos, para a difusão das informações e para a construção em rede da memória.

Conheça o hotsite www2.fafich.ufmg.br/com50anos

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Um veículo com formato de revista, com diversidade de gêneros textuais e padrões de linguagem jornalística; uma peça gráfica que possibilita o exercício de práticas de jornalismo especializado, abordando temas específicos, a cada edição, sob diversos aspectos.


Um outro sentido
É exatamente isso que pretendemos com esta publicação do curso de Comunicação Social da UFMG: explorar sentidos novos e múltiplos do jornal laboratório e do jornalismo especializado, exercitando narrativas e técnicas de apuração, investigação, construção da pauta e demais procedimentos da reportagem.

A proposta desse “híbrido” se tornou possível a partir do currículo do curso de Comunicação Social da UFMG, implantado em 2000, que tem como característica forte a flexibilização e a inovação nas práticas laboratoriais. O objetivo é permitir a aprendizagem do trabalho cooperativo, de forma que o aluno possa reconhecer suas potencialidades e limites. Nessa nova concepção, os participantes vivenciam múltiplas práticas, não estando restritos a uma habilitação, mas sim à experiência integrada da comunicação.

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