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A doença da desigualdade

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A doença da desigualdade

De acordo com discussão realizada na Face, o imenso fosso que separa ricos e pobres é o principal responsável pela situação precária em que se encontram a saúde em países como o Brasil e a Índia.

A doença da desigualdade

Desigualdade marca sociedade brasileira

Reportagem: Danilo Borges / Foto: Tuca Vieira (Livro As cidades do Brasil: São Paulo)

Como a desigualdade social afeta o acesso e a qualidade dos serviços de saúde nos países em desenvolvimento? Essa foi a preocupação dos participantes do seminário Desigualdades em saúde no Brasil e na Índia: questões substantivas e metodológicas, realizado na Faculdade de Ciências Econômicas nos dias 29 e 30 de junho. O evento faz parte do projeto trilateral Inequalities in Access to Health Care in Brazil and India: closing the gap for the poorest-poor (Desigualdades no Acesso à Atenção em Saúde no Brasil e Índia: desafios para a inclusão dos mais pobres), financiado pela instituição Economic & Social Research Council (ESRC), do Reino Unido.

No segundo dia do evento, na sessão intitulada Desigualdade em saúde: fatores e perspectivas, três palestrantes tiveram a oportunidade de apresentar e discutir variáveis fundamentais à compreensão do problema. O primeiro a falar foi o indiano Sassendran Pallikadavath, da Universidade de Portsmouth (Reino Unido), que mostrou um amplo estudo sobre cuidado pré-natal entre mulheres de seu país, particularmente nos segmentos mais pobres da população. De acordo com o pesquisador, a procura ou não por acompanhamento médico durante a gestação não pode ser explicada unicamente pela existência de unidades de saúde próximas às gestantes. Em um país onde a desigualdade – expressa de forma direta, num rígido e hierárquico sistema de castas – é inerente à sociedade, fatores como o nível de instrução, a religião, o tamanho das famílias e a renda per capta, entre muitos outros, devem ser levados em conta. “Mesmo em distritos onde possuem amplo acesso ao sistema de saúde, as mulheres mais pobres e menos instruídas têm 30% menos chance de buscarem atendimento”, constatou Pallikadavath. Assim, para o pesquisador, as políticas públicas de saúde devem, principalmente, buscar reduzir os abismos que separam ricos e pobres. “Somente Aumentar o acesso não irá reduzir essa lacuna. Temos que pensar também em outras variáveis, como a educação”, afirmou.

Opinião com a qual concordou Sandhi Barreto, do Departamento de Saúde Pública da UFMG. Baseando-se em um vasto leque de dados e pesquisas, a professora defendeu que doenças crônicas – as que afetam o sistema cardiovascular, a diabetes, a obesidade mórbida, entre outras – estão associadas à condição social na qual encontra-se o indivíduo. Partindo de indicadores como gênero, idade, escolaridade e taxas de desemprego, Barreto mostrou que hábitos e práticas que podem levar ao desenvolvimento de doenças crônicas ( tabagismo, obesidade, sedentarismo etc), são mais encontrados nas camadas mais pobres e menos instruídas da população, fazendo com que estas tornem-se as principais vítimas de problemas cardíacos, diabetes entre outras enfermidades que, juntas, são responsáveis por 60% das mortes no mundo. “A saúde não é apenas uma questão do indivíduo e seus genes, mas do contexto social no qual este se insere. Os processos sociais podem ser tão responsáveis por doenças quanto os biológicos”, explicou a professora.

Por fim, a sessão contou com a participação de Telma Menicucci, do Departamento de Ciência Política da UFMG, que tratou dos conceitos e dimensões da desigualdade em saúde na perspectiva das políticas públicas. Sob essa ótica, a professora defendeu que ações direcionadas ao setor devem se focar na equidade social, mais do que na preocupação em ampliar o acesso a unidades de tratamento. Menicucci chamou a atenção para a importância de se reduzir o que chamou de “iniqüidades injustas”, isto é, diminuir as “condições não saudáveis” às quais o indivíduo encontra-se exposto devido ao contexto em que vive. Entre os exemplos, a professora citou as precárias condições de trabalho e moradia a que está sujeita uma ampla parcela da população brasileira, além dos altos índices de violência encontrados em determinadas regiões. De acordo com a professora, essas adversidades são responsáveis por muitos dos problemas de saúde em regiões economicamente menos favorecidas.

Por fim, a pesquisadora sustentou que, para que se faça uma política pública de saúde eficiente, é necessário compreender a magnitude do problema e, só então, passar à ação. “É mais fácil fazer políticas de atendimento, em nível individual, do que políticas efetivas de redistribuição. A atenção à saúde está mais relacionada às condições de vida dos indivíduos. As pessoas não adoecem aleatoriamente. Só a equidade de acesso ao sistema não reduz a mortalidade”, disse.
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