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O punk não morreu, modificou-se

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O punk não morreu, modificou-se

Pouco mais de três décadas se passaram desde o surgimento do punk e já se especula sobre a morte deste gênero musical

O punk não morreu, modificou-se

Punk: música, política e estética

Reportagem: Fernanda Radicchi / Foto: Blog Dainty Darlings


Ainda que o punk tenha se originado há mais de 30 anos, existem poucas obras e trabalhos acadêmicos dedicados a este gênero musical, à sua estética e ideologia. Na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFMG, por exemplo, onde estão disponíveis textos produzidos a partir de 2005, não há sequer a menção do termo “punk”. Os escassos trabalhos na área apresentam, seja por falta de material bibliográfico, seja por opção dos próprios autores, abordagens bastante convencionais, em que é dado excessivo enfoque às “lendárias” bandas inglesas e americanas quando se fala da história do gênero.

Uma das poucas produções acadêmicas dedicadas ao assunto, a dissertação de mestrado Música e imagem: o movimento punk e seus desdobramentos – década de 1990, segue essa linha. Segundo o autor, Jefferson Alves de Barcellos, o punk originou-se do rock and roll, que, por sua vez, foi o produto da combinação entre o blues e o country. Estes possuíam, em comum, o fato de terem se desenvolvido no seio de comunidades rurais norte-americanas, pobres e pouco escolarizadas. Porém, o blues iniciou-se em igrejas e era som típico dos negros, enquanto o country caracterizava-se como a música da parcela branca da população.

Apesar de contextualizar a história do punk e de suas bandas e gêneros precursores, o estudo de Jefferson restringe-se a uma parte pequena do que corresponde à “cena brasileira”. Afinal, “se você não afunila sua pesquisa e parte das mais conhecidas para grupos que existiram no fundo do quintal de Varginha, fica complicado fazer um mapeamento do ponto de vista acadêmico”, explica o pesquisador.

Antes, porém, Jefferson descreve as “raízes mais profundas” (Robert Johnson, Muddy Waters, Jimmie Rodges, Hank Williams, Chuck Berry e Little Richard) e as mais “superficiais” (Elvis Presley, The Beatles, Rolling Stones e The Who)  do punk. Contudo, à medida que se aproximam os anos 1970, essa divisão – entre o que pertence ou não ao estilo – torna-se mais difícil e parece ser delimitada por uma linha muito tênue, o que, muitas vezes, suscita dúvidas.

Na visão desta repórter, que está acostumada a ouvir os tradicionais berros, palavrões e guitarras distorcidas do punk, a banda Blondie, por exemplo, parece “recatada” demais para fazer parte do grupo. Entretanto, os critérios de Jefferson são um tanto menos rígidos e bastante abrangentes. Para o autor do estudo, toda banda que se apoiou nos três acordes básicos, e surgiu na mesma época, flertou com o punk. “E não se excetua o contexto histórico. Debbie Harry [vocalista do Blondie] estava no CBGB´s [famoso pub americano e um dos celeiros do punk] na mesma época em que os Ramones e de playmate [espécie de coelhinha da Playboy] passou a se apresentar com um bando de garotos em lugares imundos”, argumenta.

Contudo, o contexto histórico é só mais uma das variáveis, além, é claro, do estilo sonoro. A linguagem visual que se exprime, principalmente, através da forma de vestir, e a ideologia política, transmitida, sobretudo, por meio das letras das canções, são critérios que precisam ser levados em conta na delimitação do universo punk. Mas então, como defini-lo? A resposta, certamente, vai variar de acordo com as percepções, conhecimentos e vivências do interlocutor.

Eu defino o punk como uma “filosofia de vida”, pois não se resume à música e ao visual. Por agregar práticas políticas, é também uma forma de militância. Jefferson, por sua vez, caracteriza-o como “um turbilhão estético, social e sonoro que reverbera até os dias de hoje”. O pesquisador sustenta a concepção de que o punk consiste em um movimento de transgressão/rebeldia juvenil e, desta forma, o restringe a um único grupo: os adolescentes.

Com base nesta concepção, Jefferson descreve o surgimento e a evolução do punk, destacando o pioneirismo inglês e a existência de um “maior desenvolvimento sonoro” nos EUA. Como expoentes do período, o pesquisador cita as bandas americanas The MC5, New York Dolls, The Television, The Ramones, The Dead Boys, e as britânicas The Damned, The Sex Pistols, The Clash e The Exploited. Esta última, de acordo com Jefferson, faz parte da segunda geração do punk, marcada por um verdadeiro engajamento político.

A verdade é que, quando surgiu, no final da década de 1970, o punk apresentava, na maioria dos casos, um forte viés midiático e, ainda que fosse agressivo e conseguisse incomodar a sociedade com seus discursos e posturas políticas, o engajamento era mais uma jogada de marketing do que uma preocupação real. Dessa forma, diversas bandas saíram do anonimato, conseguiram contratos com gravadoras e conquistaram fama, sucesso e, às vezes, dinheiro.

Porém, uma nova leva de bandas mais interessadas em propagar idéias do que em alcançar reconhecimento, incapazes de compactuar com a indústria musical e o sistema capitalista, reorganizaram o que seriam as bases do punk daí em diante. Jefferson parece apontar essa tendência em sua tese, quando escreve que “se nos primórdios transgredir era conquistar, superar, alterar valores, hoje significa mais se opor, recusar-se, mesmo que não se tenha nenhuma proposta para de fato alterar aquilo com o qual se rebela."
 
O punk no Brasil parece surgir com base nesses novos princípios. Jefferson analisa a cena musical de Ribeirão Preto, onde atuou como baterista em algumas bandas. Apesar disso, o pesquisador não deixa de destacar algumas das principais referências nacionais: Restos de Nada; Cólera; Inocentes; Lixomania; Olho Seco e Ratos de Porão. Ainda que em cada lugar o punk assuma especificidades e se modifique ao longo do tempo, o pesquisador enxerga um ponto em comum entre as diversas vertentes e gerações: “No cerne de tudo, está uma música simples e direta, que acaba falando à cabeça e aos corações. Isso é para sempre.” 
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