Bem sucedido, mas pouco reconhecido
Centro Pedagógico possui 180 alunos matriculados em turmas do quinto ao nono ano da Educação de Jovens e Adultos. Mas, apesar de funcionar bem há 25 anos, o projeto conta com pouco reconhecimento dentro da Universidade e na própria Unidade.
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Texto e fotos:
Isadora Marques
No Centro Pedagógico (CP), cerca de 650 alunos entre 6 e 14 anos têm aulas durante todo o dia. Eles chegam à s 8h da manhã e permanecem até as 16h30, quando vão embora e o Centro fica repentinamente vazio. Mas a quietude do lugar não dura muito. À noite chegam mais pessoas e a atividade continua, com outros alunos e outros professores: é a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Essa é uma modalidade de ensino voltada para jovens e adultos que não puderam completar a educação básica em idade apropriada. Só no CP são 180 alunos matriculados, com idade entre 18 e 75 anos. A vice-diretora do Centro, professora Selma Moura, destaca que eles fazem parte do conjunto de alunos da escola, assim como as crianças do perÃodo diurno.
De segunda a quinta-feira, a rotina é a mesma: ao chegar ao Centro Pedagógico, os alunos da EJA vão para o refeitório, onde é servido um jantar, e seguem para as aulas. Eles estão distribuÃdos em oito turmas com aproximadamente 34 alunos cada. As aulas são ministradas pelos 29 monitores professores do projeto, em módulos de uma hora. Os monitores são alunos de diversos cursos de licenciatura da UFMG e trabalham sob a orientação de professores da Universidade, que acontece em reuniões nas noites de sexta-feira. “A sexta é esse momento de formação em que coordenadores e monitores professores se reúnem para discutir questões relativas a projetos de ensino; propostas de interdisciplinaridade, de trabalhos de campo e de atividades mais interessantes; e o enfrentamento de problemas em sala de aula, por exemplo”, explica a coordenadora do projeto de Educação de Jovens e Adultos no Centro Pedagógico, Edna Magalhães.
Começo
Segundo ela, o projeto existe desde 1986 e nasceu com uma demanda dos funcionários da UFMG que queriam fazer o ensino fundamental 2, que correspondia à s quinta, sexta, sétima e oitava séries. Atualmente, o ensino fundamental termina no nono ano. Eles procuraram a Associação de Servidores da UFMG, que entrou em contato com o professor Daniel Avarenga, da área de LÃngua Portuguesa da Faculdade de Letras. E ele implantou o projeto no Centro Pedagógico, que atendia basicamente aos funcionários da Universidade que não tinham o ensino fundamental.
Após a morte de Daniel, professores da Faculdade de Educação (Fae) – que era a unidade “responsável” pelo CP – convidaram o Centro Pedagógico a assumir a coordenação do projeto, que começou com poucas turmas. “Então entramos com um pedido ao Ministério da Educação (MEC) para certificar os alunos da Educação de Jovens e Adultos. E, desde 1988, nós os certificamos em nÃvel de ensino fundamental”, conta a coordenadora. Ela lembra que a EJA é uma modalidade de ensino muito importante em nossa sociedade, principalmente naquela época, em que havia muito analfabetismo.
O curso é feito em três anos: há duas turmas de alunos concluintes – que já estão no terceiro ano –, duas turmas de continuidade – alunos do segundo ano – e quatro turmas que estão no primeiro ano. Ao se inscrever no projeto, o aluno faz uma prova de admissão, por meio da qual os professores podem identificar suas habilidades básicas de leitura, escrita e matemática. “Essa não é uma prova de seleção, é apenas para ver se a base dos alunos permite desenvolver com eles os conteúdos de quinto ao nono ano. Os que não conseguem são encaminhados para o curso de alfabetização da Faculdade de Educação, mas são poucos”, esclarece Edna. Ela explica que não há um número determinado de vagas e que todos os alunos inscritos normalmente conseguem ser alocados em uma turma do Proef-2, como também é chamado o projeto.

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Embora a Educação de Jovens e Adultos tenha surgido no Centro Pedagógico a partir de uma demanda dos funcionários da Universidade, hoje em dia os alunos da comunidade externa já são maioria em relação a eles. “Temos poucos funcionários da Universidade, mas temos muitos funcionários das empresas terceirizadas e do Campus 2000”, diz a coordenadora.
Tripé
Nos anos 90, uma lei do governo federal passou a obrigar todos os funcionários públicos a terem, no mÃnimo, o ensino fundamental. Com isso, surgiu a necessidade de um curso no nÃvel de alfabetização, o qual foi criado sob a coordenação dos professores do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita, da Faculdade de Educação. Desde então, o projeto – também chamado de Proef (Projeto de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos) 1 – funciona na Fae, com mais de cem alunos. Além disso, desde o final dos anos 90, a Universidade oferece também um projeto de ensino médio e técnico dentro da modalidade da EJA, a pedido dos alunos que concluÃram o ensino fundamental no CP. O Projeto do Ensino Médio para Jovens e Adultos (Pemja) é desenvolvido no Colégio Técnico da UFMG (Coltec), sob a coordenação da professora Rosilene Bicalho.
A coordenadora Edna Magalhães conta que, em geral, os alunos do Proef-1 concluem o ensino fundamental no Proef-2 e então vão para o Pemja, no Coltec, onde se formam no ensino médio e aprendem um curso profissionalizante. Ela observa que esses projetos não são voltados apenas para a formação de alunos, mas também para a formação de professores da Educação de Jovens e Adultos. O Centro Pedagógico ainda oferta às turmas do Proef-1 e Proef-2, às sextas-feiras, um curso semestral e opcional para o aprendizado de informática básica e uso da internet. São duas turmas com 15 alunos. Uma aula acontece às 18h e a outra às 19h, com duração de uma hora cada. Parte dos alunos também participa de um projeto de coral da Escola de Música da Universidade.
Proef-2
Segundo Edna, no inÃcio da EJA no CP, a principal finalidade era melhorar o desempenho dos alunos em suas funções de trabalho. Depois, começou a surgir nos alunos o interesse pelo ensino médio, pela continuidade de estudos. Hoje, eles tentam se preparar para fazer cursos técnicos e profissionalizantes. “São pessoas que estão lutando para se colocar ou se manter no mercado de trabalho. Uns querem se dar ao direito de construir algo que não puderam antes porque tiveram de trabalhar ou criar filhos. Outros vêm para acompanhar seus filhos ou netos nas atividades escolares porque acham muito difÃcil ensiná-los. Então as razões e demandas porque as pessoas voltam a estudar são inúmeras, mas todas muito válidas.”
A coordenadora explica que, embora a faixa etária média dos alunos seja de 40 a 60 anos, o Centro Pedagógico prioriza o atendimento aos alunos idosos, que normalmente são os que ficaram mais tempo sem estudar. “Não faltam vagas no noturno da rede municipal e estadual, a demanda é suprida em Belo Horizonte. Mas o grande problema é que os mais idosos sempre apresentaram mais dificuldade no trato com a leitura, a escrita e a matemática. Então, achamos que o diferencial da EJA na Universidade deveria ser priorizar esse público. Quando chegou o ponto em que essa demanda especÃfica passou a ser suprida, começamos a receber uma demanda bem variada, em termos de idade.”

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São os professores do CP que produzem o material didático utilizado e disponibilizado gratuitamente aos alunos. “Existe muito pouco material para a Educação de Jovens e Adultos. Fazemos nosso próprio material e por isso a importância dos momentos de formação que temos”, ressalta Edna. Ela explica que, apesar de os alunos do Proef-1 não terem aulas no prédio do CP, eles têm os mesmos direitos que os alunos do Proef-2 e podem se alimentar no Centro e também tirar xerox de seu material didático. De acordo com a coordenadora, o projeto do Centro Pedagógico participa de distintos programas do MEC voltados para a melhoria da escola pública no Brasil, mas a grande parte de seus recursos vem da própria Universidade.
Segundo ela, o projeto tem dado bons resultados. Exemplo disso foi o evento realizado na Faculdade de Educação nos dias 7 e 8 de novembro. Os alunos das turmas de continuidade – 2º ano do projeto – apresentaram trabalhos no Seminário Regional do projeto “Nossa Escola Pesquisa sua Opinião” (Nepso), patrocinado e promovido pelo Instituto Paulo Montenegro e pelo Ibope. O Seminário foi o encerramento de um projeto multidisciplinar em que os alunos vivenciaram todo o processo da pesquisa de opinião. “Participamos do Nepso e essa é uma oportunidade em que desenvolvemos a pesquisa de opinião como uma estratégia pedagógica. A Faculdade de Educação é inclusive uma sede regional do Nepso em Minas Gerais, por meio do programa de Educação de Jovens e Adultos”, diz Edna.

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Ela lembra, ainda, que o projeto também tem histórias bem sucedidas de formação de professores, além da produção acadêmica. “Já foram publicados várias teses e artigos, temos a participação de professores em eventos sobre a EJA e divulgação de material didático e de aulas no portal do professor. Esse projeto é reconhecido nacionalmente e em alguns paÃses. Só falta a Universidade reconhecer.” Ela conta que o motorista do CP, por exemplo, passou pelo Pemja e fez um curso universitário voltado para a área de museus. “E assim vai, tem advogados, psicólogos e outros profissionais de nÃvel superior formados pela Educação de Jovens e Adultos. Essas pessoas vão contribuindo para aprimorar a discussão sobre a EJA no Brasil.”
Desafios
Edna é a presidente de uma comissão que vem elaborando uma proposta de institucionalização da EJA, que será apresentada ao Centro Pedagógico e à Universidade. “Os projetos de EJA na UFMG mostram como a Universidade pode extrapolar seus próprios limites porque nasceram de um público que não era de alunos ou professores, mas de servidores. E cumprimos bem essa demanda”, defende. O primeiro grande desafio, para ela, é institucionalização do Proef-2 dentro da Universidade e do Centro Pedagógico. “Deveria ser assumido pela Universidade como um projeto de ensino e pesquisa tal qual o ensino fundamental diurno do CP. Não temos reconhecimento dentro da Universidade ou mesmo no Centro Pedagógico. Estou aqui como coordenadora, mas isso é porque eu quero, participamos como voluntários. Tenho o mesmo número de funções que os outros professores da escola, mas esse é um encargo a mais.”
Para acontecer essa institucionalização é necessário haver uma reestruturação na escola, para dar condições para que a Educação de Jovens e Adultos tenha também todo o suporte técnico-administrativo que a escola do dia tem. “Se ocorrer qualquer problema com qualquer equipamento à noite, a gente não tem assistência. À noite, temos idosos e precisamos de um enfermeiro, mas o serviço de saúde só funciona na escola durante a manhã e à tarde. Também temos outras questões aqui, como o alcoolismo e situações de desemprego. Então precisaria ter uma assistência social, como os alunos do dia têm”, argumenta a coordenadora do Proef-2.
Edna destaca outro desafio: fazer da EJA uma modalidade de ensino, pesquisa e extensão da UFMG, uma vez que atender à Educação de Jovens e Adultos complementa a função da Universidade de formar professores. Edna acredita que a Istituição e as unidades que fazem a Educação de Jovens e Adultos no campus não valorizam o projeto como um trabalho tão importante quanto o de dar aulas na graduação. “É um grande desafio que essa Universidade se reconheça como responsável pela formação de educadores e alunos de todos os nÃveis de educação, inclusive pela Educação de Jovens e Adultos. Precisamos desse reconhecimento.”