De mãos dadas
Experiências no Centro Pedagógico mostram que a formação de leitores no ambiente escolar requer a atuação conjunta das bibliotecas e educadores. Incentivada pelo projeto Mala de Leitura e outras iniciativas do CP, leitura literária caminha lado a lado com o processo de alfabetização dos alunos
Projeto Mala de Leitura utiliza malas decoradas para carregar seu acervo a atrair a atenção dos alunos Créditos: Acervo Mala de Leitura
Texto e fotos:
Isadora Marques
O último dia 30 de setembro foi uma data importante para o Centro Pedagógico (CP), no que diz respeito aos avanços na formação de leitores no Centro. Nesse dia foi realizado o II Colóquio A Leitura Literária na Escola, no qual graduandos e profissionais da educação discutiram a leitura de obras literárias nas bibliotecas e outros espaços escolares. O evento foi organizado pelo Mala de Leitura, projeto de ensino e extensão do Centro Pedagógico, que completa 14 anos. Segundo a bibliotecária do CP, Flávia Filomena Rodrigues, o encontro foi muito proveitoso. “Discutimos o processo de formação dos leitores, que não é uma tarefa simples e nem só de bibliotecários ou de professores de lÃngua portuguesa, mas de toda a escola, de todas as disciplinas. É uma preocupação que deveria perpassar toda a sociedade.”
A monitora do Mala de Leitura, Flávia Cristina Pereira, também salienta a importância da integração entre os professores e as bibliotecas escolares para o incentivo à leitura literária. Nesse sentido, o Centro Pedagógico vem desenvolvendo diferentes ações em prol da formação de leitores. De momentos semanais de leitura à contação mensal de estórias em um cenário previamente preparado, a biblioteca da escola possui opções diferenciadas para grandes e pequenos. No entanto, são os alunos do primeiro ao quarto ano que leem mais. “A partir de alguns dados estatÃsticos, a gente percebe que nosso aluno é um leitor ávido durante a primeira fase do ensino fundamental. Depois a leitura diminui muito entre os alunos do quinto ao nono ano. Eu atribuiria isso à adolescência, aos outros apelos e atrativos dessa fase”, diz a bibliotecária Flávia Filomena.
Mala
O projeto Mala de Leitura é uma iniciativa de três professoras do Centro Pedagógico, atualmente aposentadas. “Elas perceberam que a leitura literária poderia auxiliar no processo de alfabetização se acontecesse de uma forma mais sistemática e em situações diversas. Além disso, havia o desejo de formar leitores de leitura literária”, conta a coordenadora do Mala de Leitura, professora Clenice Griffo. Além da atuação no CP, o projeto também desenvolve atividades em escolas e comunidades onde o acesso à leitura literária é difÃcil. “O Mala se transformou em extensão porque a equipe do projeto também atua fora do CP. Então ele é também um trabalho de formação de professores”, explica a coordenadora.

Clenice Griffo e Flávia Cristina afirmam encontrar pouca resistência ao incentivo à leitura literária entre os alunos do primeiro ciclo
No CP, o trabalho do Mala de Leitura é feito pelos professores do Núcleo Básico — responsável pela alfabetização — dentro das salas de aula e na biblioteca. Uma vez por mês a monitora Flávia Cristina lê estórias para os alunos do primeiro ciclo (primeiro ao terceiro ano). “A gente monta um cenário na biblioteca, levas as malas com os livros e conta uma história. Às vezes essa atividade é temática, por exemplo, esse mês de outubro é mês das bruxas, então a história é de bruxa. Aà a mesma estória é contada para as nove turmas do primeiro ciclo. Quando a atividade não é temática, preparamos histórias diferentes para cada ano escolar”, conta.
“O interessante é que o livro que a gente lê é o livro que eles querem levar para ler em casa”, observa Clenice. “Por isso é importante a parceria que temos com a biblioteca do CP, que procura adquirir os livros que lemos para as crianças (que pertencem ao acervo do Mala de Leitura)”, destaca Flávia Cristina. Para a coordenadora do projeto, o interesse dos alunos pelas estórias contadas e o fato de eles procurarem mais a biblioteca fora dos horários de suas turmas são indicadores de que o trabalho de incentivo à leitura é importante e tem dado bons resultados. “O Mala de Leitura é uma referência legal para eles. E a alfabetização está muito ligada à leitura literária, uma coisa puxa a outra.”
Interesse
Apesar do sucesso das atividades do Mala de Leitura entre os alunos do primeiro ciclo, o projeto não trabalha com os outros ciclos do Centro pedagógico. “Ano passado nós até tentamos estender para o segundo ciclo, a pedido de alguns professores, mas não deu muito certo. Os meninos do segundo ciclo acham que essa fase já passou, que é coisa do ciclo anterior, que é ‘coisa de criança’”, pondera Flávia Cristina. Mas as atividades na biblioteca não são exclusividade do primeiro ciclo.
Os outros ciclos também vão para lá uma vez por semana com seus professores, normalmente de português. “Nesses horários, os alunos fazem devoluções e empréstimos de livros e têm um tempo para leitura, para explorar os materiais da biblioteca. Nós, professores, acompanhamos a leitura, perguntamos o interesse deles e sugerimos livros, para incentivar”, conta Clenice Griffo. A própria biblioteca também faz sugestões de leitura, indicando aos alunos os livros recém-adquiridos.
Além disso, a biblioteca do CP recebe visitas esporádicas de autores de literatura infanto-juvenil e organiza eventos como a “Hora do Conto”, programada para o final deste mês, e o sarau de poesias, realizado no mês de setembro. As atividades variam de acordo com a faixa etária e o interesse dos alunos.

Biblioteca do Centro Pedagógico realiza este mês a “Hora do Conto”, uma das atividades de incentivo à leitura
“O resultado dessas ações é melhor entre os alunos dos primeiros anos, que vêm por conta própria à biblioteca. Aumenta o número de livros lidos por aluno e por semana. Mas aos 13, 14 anos, diminui um pouco essa vinda espontânea à biblioteca. A não ser quando há um apelo muito grande da mÃdia, como aconteceu com as coleções Harry Potter e Crepúsculo”, avalia a bibliotecária Flávia Filomena. Ela explica que os alunos do quinto ao nono ano buscam muito a literatura de ficção e suspense. “Eles são incentivados e auxiliados pelos mediadores, que são os professores, os bibliotecários, a famÃlia. Esses são os mediadores da leitura.”
Acervo
Outro fator que contribui para a leitura no CP é o acervo da escola. “Nosso acervo é atual, de ponta. Buscamos sempre comprar o que tem de novo no mercado editorial, para despertar o interesse dos alunos,” pontua a bibliotecária. Para a coordenadora do Mala de Leitura, a escola é privilegiada, com relação ao incentivo à leitura. “Temos uma biblioteca que é uma das melhores bibliotecas de infanto-juvenil do paÃs. Dentro da Universidade, ela é a segunda ou terceira com maior acervo. Tem toda uma infraestrutura favorável ao funcionamento da biblioteca: bom acervo e funcionários capacitados.”, enfatiza.

Sugestões de livros também são estratégia de incentivo à leitura
Segundo a monitora Flávia Cristina, não há muita resistência à leitura no primeiro ciclo, principalmente porque os alunos já são bombardeados de incentivos desde o primeiro ano. “A princÃpio eles têm sim uma não postura. Muitos não entendem que o momento de contação de histórias é para ouvir. Mas depois rapidinho eles vão se adaptando. Chega no terceiro ano, eles já sabem escutar. O incentivo desde o inÃcio é o que faz a diferença”, explica.
Para a bibliotecária Flávia Filomena, um dos principais desafios à formação de leitores no Centro Pedagógico, assim como em outras escolas, é a preguiça de ler. “Essa questão foi levantada no Colóquio. As pessoas — e ainda mais as crianças — têm preguiça desse formato de literatura no papel. Se uma obra vai para um outro suporte, um filme, por exemplo, se tem muito mais leitura dela. A facilidade da imagem é sedutora. O livro todo escrito e com poucas imagens seduz menos. Mas mesmo assim ainda temos um número muito bom de leitores no CP.” Ela destaca a importância da leitura literária na prática da escrita e na própria formação dos alunos: “Quem não lê não escreve. É importante ler literatura até para se fazer uma leitura do mundo. Parte da visão de mundo que temos vem das histórias literárias, de nossas experiências com o livro. Vale a pena investir”.