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Religiosidade e convivência universitária

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Religiosidade e convivência universitária

A Fafich e a Universidade em geral são espaço para o debate de ideias e das mais variadas formas de ver o mundo. Neste ambiente, a religiosidade também encontra espaço para se manifestar, assim como a crítica à religião. Diferentes grupos universitários promovem encontros acerca do tema na UFMG.

 Religiosidade e convivência universitária

Encontros ligados ao debate da religião acontecem no espaço da Universidade



Texto:

Glauber Guimarães

Foto:
ABU-BH


O debate de questões de cunho social, político e filosófico faz parte da busca da sociedade humana por um maior entendimento sobre si mesma. A Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG, abrigando cursos de Ciências Sociais, Filosofia e História, por exemplo, sempre foi um berço para este tipo de discussão, seja nas aulas, nos corredores ou em grupos organizados. Como se pode imaginar, nestes debates, diferentes ideias sobre o mundo, sobre a sociedade e variados temas que tangem o desenvolvimento dos seres humanos são questionados e colocados em conflito. Um destes grandes temas, por muitos considerado um tabu, é a religião.

Presente sob várias formas em todas as esferas sociais, a religiosidade é assunto para inúmeras discussões e se manifesta também no ambiente acadêmico, com toda sua diversidade. Esta manifestação pode se dar através de atos individuais, como a utilização de determinados símbolos, por exemplo, ou mesmo através de grupos organizados, que buscam construir, dentro da Universidade, espaços de convivência e troca de ideias entre pessoas que compartilham uma crença. Este é o caso da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABU), grupo de discussão ligado ao Cristianismo que se espalha por todo o país.

Na UFMG, são realizados encontros semanais na Fafich e em diversas outras unidades. Segundo a secretária de comunicação da ABU em Belo Horizonte, Andrea Souza, o objetivo é permitir a reflexão sobre determinados temas à luz da bíblia, reunindo jovens que professam a fé cristã, “mas principalmente compartilhar essa visão com outros jovens, que possuem outras crenças ou filosofias de vida”. As reuniões do grupo são norteadas por textos bíblicos, científicos, músicas, tirinhas ou outras obras que permitam o levantamento de um tema ou questão sobre o qual será realizado o debate. A ABU realiza ainda, desde o segundo semestre de 2009, a Semana do Cristianismo. Andrea esclarece que o evento “tem como proposta discutir e apresentar as contribuições do pensamento cristão para a produção científica e cultural, e ainda possibilitar a alunos e professores, momentos de interação, debate e lazer”.

A estudante da Fafich, Racquel Tomaz, é cristã e já participou de encontros da ABU. Para ela, “a iniciativa é fantástica, principalmente quando se trata de reunir cristãos de diversas denominações ou pessoas curiosas quanto ao estudo da bíblia, para falar sobre esse assunto mais abertamente”. Porém, Racquel também afirma que as reuniões acabam servindo como refúgio para as pressões sofridas contra a religiosidade na Universidade. Mesmo num ambiente plural, a estudante diz perceber muitos preconceitos. “Na Fafich, o preconceito contra ateus é pequeno, pois, creio eu, são maioria. Já contra religiosos, principalmente cristãos, vejo com grande frequência”. Além de sentir discriminação na convivência entre os frequentadores do prédio, a estudante também percebe esta tensão nas temáticas das aulas. “Nas ciências humanas, tem tensão, sim. Essa tensão se dá, em grande parte, pelo questionamento sobre a existência de uma verdade absoluta, questionamento esse que vai de encontro ao princípio monoteísta das religiões ocidentais”, explica.

Já o estudante Décius Diniz, que também se declara cristão e afirma já ter participado de palestras da ABU, percebe a Fafich como um ambiente bastante secularizado e acredita em uma tensão velada em relação às religiões. Para ele, a convivência saudável entre o conhecimento produzido na Universidade e o conhecimento religioso deve “partir da premissa de que ambos são formas de conhecimento distintas, porém, válidas da mesma forma, ou seja, nem o conhecimento científico deve ter prevalência sobre o religioso, nem o contrário”. O aluno também afirma já ter se inscrito em um evento de outro grupo presente na universidade, que busca uma discussão diferente da religiosa, a Aliança Estudantil Secularista (AES), “mais para conhecer do que para me envolver de fato. Não sou secularista, mas acho importante entender a forma como eles veem a nós, cristãos, e que tipo de entendimento formulam sobre nossa religião”.

A Aliança Estudantil Secularista também promove encontros semanais, em diferentes unidades da UFMG, com o intuito de discutir diferentes temáticas. Sua abordagem, porém, é diferente da adotada pela ABU. De acordo com Daniela Halley, coordenadora da AES na UFMG, um dos objetivos é “abrir um espaço para o pensamento crítico sobre a religião, de um ponto de vista secular e racional”. Para Daniela, em um país em que mais de 80% da população se denomina cristã, aqueles que não acreditam em divindades se sentem hostilizados e sozinhos. As discussões da Aliança abrangem temas como filosofia, ciência, teologia, política e sociedade. Além disso, o grupo também se propõe a ter um papel ativista. “Queremos ter voz na sociedade, não podemos deixar que a democracia vire uma ditadura da maioria e, por consequência, nosso estado laico vire uma teocracia, como já vem acontecendo. O Brasil nunca foi um país laico, e hoje, decisões políticas ainda são tomadas baseadas em dogmas religiosos arbitrários de uma parcela majoritária da sociedade.”

Daniela ainda esclarece que o relacionamento da AES com os grupos religiosos, como a ABU, é enriquecedor para todas as partes, até mesmo por permitir um ponto de vista crítico mais embasado. “Alguns membros da ABU têm participado de alguns de nossos encontros, e eu mesma participo das reuniões da ABU no ICB (Instituto de Ciências Biológicas). Nossa relação é de concordar em discordar em alguns aspectos, e a partir daí ter discussões interessantes sobre certos tópicos, mas partindo de visões de mundo diferentes.” Em relação ao ambiente da Fafich, Daniela afirma perceber que, entre os estudantes da área das ciências humanas, existe a tendência a procurar posições políticas alternativas. “Esse ambiente de questionamento de dogmas e autoridades me parece muito importante para a desconstrução de algumas formas de religiosidade”, esclarece.

O estudante de Comunicação Social, Caio Couto, que se declara agnóstico, afirma não perceber preconceito explícito ou um “combate à fé” no ambiente acadêmico, justamente por ver a Fafich como um lugar aberto a diferentes concepções. “Pelo menos dentro do meu curso, e com os alunos e professores que convivo, eu considero a relação com a fé algo muito respeitado, tanto de um lado quanto do outro.” Ele ainda afirma não conhecer a ABU e a AES, mas vê como benéfica a iniciativa de criação de grupos de discussão como estes, de pessoas com interesses comuns.

Mais informações sobre a Aliança Estudantil Secularista podem ser encontradas em seu blog. A Associação Bíblica Universitária de Belo Horizonte também mantém um endereço na internet, que pode ser acessado clicando aqui.
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