Licença para conversar
E se alguém chegasse para você na mesa do bar e do nada engatasse um assunto? Ou pior, do nada intrometesse na sua conversa? Ou ainda, te chamasse para sentar na mesa e compartilhar a Brahma?
Texto: Igor Lage e Mariana Garcia
Edição: Carla Pedrosa e Marina Motta
A ideia surgiu meio que de repente: entrevistar pessoas que nós não conhecemos para falar sobre qualquer coisa. Até mesmo da morte da bezerra. Talvez "entrevistar" não seja a melhor definição para o que nos propomos a fazer. "Conversar" soa melhor. A proposta era não existir uma grande roteirização prévia, apurar sem o tão confortável escudo jornalÃstico (o que se mostrou um pouco complicado no começo). Precisávamos só de um lugar cuja "fauna" fosse interessante... Foi pensando nisso que nos postamos à s 16 horas em frente ao
EdfÃcio Maletta, atraÃdos por seus bares, lugares potencialmente bons para puxar assunto de forma despretenciosa.
Olhamos ao redor, analisamos algumas pessoas, discutimos e não fizemos nada. Travamos. Como abordar uma pessoa que você não conhece e pedir para ela falar sobre qualquer coisa? Em uma entrevista tradicional, vestirÃamos a carapuça de jornalistas e ficarÃamos protegidos do constrangimento (e dos prováveis olhares tortos). Mas a gente queria vestir a carapuça de gente "normal". Subimos pro segundo andar e avistamos uma senhora de cabelo aparentemente roxo e um rapaz alto com uma touquinha rastafári sentados no bar Lua Nova. Pareciam ser boas fontes. Respiramos fundo, abordamos os dois e puxamos duas cadeiras (sem que nos convidassem mesmo). Para a nossa surpresa, eles eram...
Comunistas Anarquistas
E como bons membros da esquerda, nos receberam um tanto quanto na defensiva. A pergunta mais óbvia para engatar a conversa só poderia ser: "E aÃ? O que estão fazendo aqui?". "Descansando", respondeu HeloÃsa, que realmente tinha os cabelos tingidos de um lilás bem claro. Ela explicou, entre um gole de cerveja e outro, que estava pregando cartazes com André, o moço da touquinha, para um evento do
Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania. Helena é a mãe de HeloÃsa e militou contra a ditadura militar. O cartaz que nos deram denunciava bem o espÃrito da coisa: vermelho e preto, com os sÃmbolos do comunismo e do anarquismo.
André estava longe de ser tão verborrágico quanto sua "companheira", mas logo tratou de adiantar qual é a tendência com a qual se alinham: "somos comunistas anarquistas". Essa foi a deixa para que a conversa tomasse um rumo mais politizado: Trótski, Stálin, PCdoB, PCB, UNE, burguesia... Perguntamos se comunismo e anarquismo poderiam andar juntos. HeloÃsa se diz trotskista desde os tempos em que cursou História na UFMG, mas se identifica também com o pensamento de Malatesta, o que justifica sua veia anarquista. "O próprio Malatesta acreditava numa forma de organização". Mudando subitamente de assunto, ela pergunta: "Vocês fazem o quê?". Respondemos: "Comunicação Social na Fafich". É provável que tenhamos sublinhado bem o Fafich só pra ver se eles se simpatizavam mais conosco. "Ah, conheço o Paulo Bernando e a Vera. Fala que eu mandei um beijo". Recado dado.
Casa na praia
Voltamos ao primeiro andar do Maletta satisfeitos com nossa primeira abordagem. Pessoas desconhecidas nem pareciam mais tão assustadoras. Decidimos "descansar" também e tomar a nossa cervejinha (já que os comunistas não compartilharam a deles). Sentamos ao lado de uma mesa com quatro jovens que aparentavam ter entre 20 e 25 anos e ficamos quietinhos para tentar ouvir o que eles estavam falando. "Pois é! Alugar casa na praia já foi bem mais barato!" Opa, era a nossa deixa:
_Err... Licença... É que eu ouvi vocês falando sobre casas na praia... Eu e minha amiga aqui estamos pensando em viajar no final do ano com outros amigos nossos e a gente está procurando uma casa para ficar. Vocês conhecem alguma boa ali na região de Vitória, Guarapari...?
_Não, só ali em Nova Viçosa, Mucuri...
Estava estabelecido o diálogo. Falamos de praias, cigarros, das cidades onde nascemos, sotaques, Santa Luzia e telemarketing. Eles eram bem mais simpáticos do que pareciam. No fim das contas, só descobrimos o nome do menino: Felipe, que coincidentemente mora no Maletta. A conversa acabou porque um conhecido chegou, olhou para nossos copos cheios e sentou com a gente. Papo vai, papo vem, e uma coisa estava nos incomodando.
Qual é o nome dele mesmo?
Juan? Estava difÃcil lembrar. Isso poderia ser um grande problema se nossa cara-de-pau já não estivesse tão exercitada por conta das empreitadas anteriores. Começamos a comparar o curso de Economia, que ele fez, com o nosso de Comunicação. Nosso amigo misterioso havia acabado de passar no mestrado na PUC-RJ. Reclamou como alguns estudantes de Economia são arrogantes, principalmente os da Fudação Getúlio Vargas (a "inimiga" da PUC carioca). Falamos ainda de Veja, Folha de São Paulo, Estado de Minas e sua péssima qualidade... Ele resolveu nos deixar antes que os sebos fechassem.
Quinze minutos se passaram e Juan(?) voltou carregando um exemplar novinho do Manifesto Comunista e um livro qualquer do Platão um pouco gasto. Já estava se despedindo quando perguntou:
_Vocês conhecem algum filme do Fellini pra me indicar?
_Nossa. Você realmente perguntou para as pessoas erradas...
Ele foi embora parecendo satisfeito com a resposta. E nós ficamos com a conta e com a nota mental “lembrar de descobrir o nome dele e de pesquisar
um filme do Fellini para indicarmos numa próxima conversa de bar”.