Tadeu Schmidt: Bola cheia!
Matéria de
Leandro Aguiar
Esqueça, da maneira como você viu até hoje, jargões como “faltou o cacoete de atacante”, “esse jogador sabe o caminho do gol” e “o jogo foi de tirar o fôlego”. Deixe de lado também a maneira quase científica como alguns comentaristas de futebol tratam o esporte, nas análises convencionais dos jogos, e diga tchau à revolta dos cronistas ao falar dos lances polêmicos da arbitragem. É isso que faz o jornalista Tadeu Schmidt, da Rede Globo, todos os domingos no fantástico, na sua análise da rodada do Brasileirão.
O irmão do famoso jogador de basquete, Oscar Schmidt, completa dois anos como chefe da editoria de futebol no
programa dominical da Globo. O seu estilo de reportagem, que combina uma análise bem humorada dos jogos, com frases que fazem referência ao velho jornalismo esportivo, exposto no primeiro parágrafo, é muito bem recebido pelos telespectadores do canal. O sucesso do quadro é tamanho, que alguns jogadores de futebol, após marcarem gols, citam os bordões de Tadeu Schmited, como fez o atacante do Galo Diego Tardelli: “e ai Tadeu, esse sua mãe faria?”.
Não que bom humor, futebol e crítica aos clichês da crônica esportiva nunca tenham sido colocados juntos antes pelos jornalistas. O programa
Rock Gol, da MTV, por exemplo, faz isso há 6 anos. A originalidade do quadro de Tadeu Schmited está, além da edição de vídeo muito bem trabalhada, em tratar o futebol com leveza sem, no entanto, perder totalmente a seriedade.
Essa leveza cômica e irônica do comentarista já conquistou, inclusive, seguidores no meio jornalístico. O repórter Rafael Martins da TV Alterosa, por exemplo, tenta todos os dias, as 11h40 da manhã, copiar o estilo de Tadeu Schmited. Alex Escobar, do SporTv, também é um adepto do bom humor na confecção de suas matérias, saindo-se um pouco melhor na empreitada que seu colega mineiro Rafael Martins.
Além desses jornalistas, alguns alunos da comunicação também se renderam ao jeito Tadeu Schmidt de falar sobre futebol. A seguir, você lerá alguns textos escritos por eles. Se você não estiver fazendo nada, não seja um “bola murcha”, escreva um também, e poste aqui. Boa leitura, e bom trabalho!
A capital fluminense dormiu eufórica. Era a primeira vez no ano em que todos os times cariocas haviam vencido na mesma rodada. O Flamengo vinha bem, era o 4º colocado no campeonato. Mas e o Botafogo e o Fluminense? Apanharam o ano inteiro e acabavam de ganhar de dois aspirantes ao título, ainda por cima, fora de casa. Tinha alguma coisa errada.
O dia seguinte era uma segunda-feira, que amanheceu com cara de domingo. Trânsito tranqüilo, comércio quase todo fechado e o Copacabana lotada de banhistas. Estranhamente, botafoguenses e tricolores checaram seus e-mails e visualizaram mensagens parabenizando-os por suas equipes. Juntamente da mensagem, era possível ler no final: “Você está dispensado do serviço por hoje. Aproveite seu dia”.
Só se via algumas pessoas trabalhando, na grande maioria vestidos com a camisa do Flamengo. Nas praças, pais levavam seus filhos para passear. Quase todos trajados com a camisa de Fluminense e Botafogo. Era a primeira vez que adultos e crianças sentiam orgulho de usar tais vestimentas simultaneamente no ano em questão.
Lá pelas 8 da noite, uma estranha movimentação de torcedores flamenguistas chamou a atenção. Iam todos na mesma direção. Na hora, alguns desavisados chegaram a pensar que se dirigiam ao Maracanã, mas tal fato era impossível – estávamos em plena segunda-feira. Alguns dizem ter visto até mesmo Galvão Bueno saindo de sua garagem na Barra da Tijuca com um carrão importado. A curiosidade das torcidas rivais era clara. Podíamos ver incontáveis cabeças saindo às janelas para observar o comboio. Então, alguns tricolores, botafoguenses e até vascaínos pegaram seus carros e saíram disfarçados com roupas neutras. Outros optaram por usar a camisa dos pequenos Madureira ou Americano. Foi então que descobriram o destino da carreata: os estúdios da Rede Globo, mais especificamente os do SporTV.
Às 10 horas da noite, entrava no ar o Arena SporTV, comandado por Galvão Bueno e com a produção de mais de uma centena de flamenguistas. O convidado da noite era Adriano, o autor do gol que havia dado a vitória aos rubro-negros no dia anterior. Naquele momento, um torcedor do Fluminense que seguia o comboio soltou uma pergunta: porque somente os torcedores do Flamengo estavam trabalhando naquele dia? Foi aí que todos olharam seus celulares e descobriram o dia em que estavam. Era 2 de novembro, dia de Finados, feriado nacional. Não se sabe o porquê, mas naquele ano somente os mortos tiveram folga. Só assim entenderam a notícia de que fenômeno parecido havia ocorrido em Recife com a torcida do Sport e Náutico. No mais, só restava aos botafoguenses, tricolores e alguns curiosos vascaínos voltar para casa e descansar. Deveriam estar bem vivos para o dia seguinte.