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Uma Alice aos pedaços

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Uma Alice aos pedaços

Dois críticos compartilham as experiências vividas em um espetáculo teatral. Agora eles aguardam a participação dos leitores para contarem o epílogo.



Críticos: Ethel Braga
e Pedro Igor

Editora:
Adriana Costa





CENA 1
Marcenaria Espaço de Criação Cênica, São Lucas, Belo Horizonte. Domingo; 7 e meia da noite. O espaço é mal sinalizado, uma rua escura, calçada mal-feita. Algumas pessoas estão esperando do lado de fora. Uma moça na porta recebe os ingressos.
    - Que lugar estranho.
    - É porque não é um lugar para receber público. Eu costumava dançar aqui.

Ouvem-se os atores nos seus últimos aquecimentos (o que não é muito agradável, a não ser que seja proposital). As portas se abrem. Corredor. No local onde a peça é encenada (espécie de palco), as atrizes já se encontram em seus lugares. Ao fundo, a trilha sonora do filme O Fabuloso Destino de Amelie Poulain. A luz permanece baixa até que a vinheta de apresentação do espetáculo acabe. Luz em cena.
    - Nossa, que cenário lindo!

Começa o espetáculo. No palco, cinco meninas tentam encontrar a menina Alice através delas mesmas. Cada personagem traz para o enredo partes de uma protagonista efêmera, que, ao mesmo tempo em que é única, pode ser todas. A vida familiar da menina Alice, a opressão de sua mãe, o início do contato com Lewis Carroll, através de cartas.
    - Viu as fitas amarradas nos braços delas? São as cartas!

Cenas curtas, enredo não-linear, intervenções sonoras, movimentos corporais rápidos e repetitivos. A menina Alice brinca, sente medo, se questiona. Em xeque, não está só Alice, mas todos os corpos em cena. Corpos esses, que, em alguns momentos, deixam a desejar. Das cinco meninas, apenas três se destacam como Alices; as duas outras atuações não convencem. São algumas vezes exageradas, outras desajeitadas. O cenário, belo, mas pesado e tortuoso, contribui para construir ora uma Alice, ora outra. E de tão bonito, é fácil se perder ou se distrair por ele.

A menina cresce. Mergulhamos na sua adolescência, a descoberta do seu corpo, o amadurecimento. Os vestidos se modificam conforme Alice se transforma, se define mulher. A forma como os panos se retorcem e re-constroem o figurino é muito bem feita. A trilha sonora, com uma grande variedade de instrumentos e sonoridades, compõe, mas incomoda: as transições são rápidas demais, brutas demais. É quase como se levássemos sustos quando a música começa e termina.

Em meio a tantos questionamentos, constroem-se as mil possibilidades de ser Alice. As mil Alices que existem dentro de uma possibilidade: o teatro.

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CENA 2
As luzes se acendem. O público, percebendo o fim, aplaude. É difícil saber se os aplausos são sinceros ou por obrigação. As atrizes dão-se as mãos e agradecem, sorrindo ainda um pouco tensas. A mais doce delas fala o que deve ser dito, agradece, faz propaganda e nos conquista um pouco mais.
    - Gostou?
    - Menos do que pensei que gostaria.

Atrizes e público se encontram em abraços, parabéns, olhares, sorrisos. Após criar coragem, a jornalista finalmente aborda o diretor e lhe pede uma palavra. Questionamentos feitos, dúvidas esclarecidas, hora de falar com as atrizes. A jornalista em formação fica um pouco sem graça, questiona (como sempre) o por que de ter escolhido essa profissão, e enfim pede para filmá-las. Todas simpáticas, olhares amigos: suspiro, alívio.

Os dois jornalistas saem com a imagem da menina Alice ainda um pouco turva. E ao que parece, a imagem de Alice ainda está confusa também para a própria companhia Faminta. Caminhando para o portão, um último espectador comenta:
    - Ah, eu queria ser Alice!

É mais uma das nuances do teatro: as diferentes histórias que cada um leva pra casa.

EPÍLOGO
O final dessa história fica a cargo de você, leitor. Assista à peça e conte pra gente a sua opinião!

O espetáculo ‘Eu sou Alice’, da Companhia Faminta de Teatro, está em cartaz até 25 de outubro. Todos os sábados às 20h30 e domingos às 19h30, na Marcenaria Espaço de Criação Cênica: rua Mica, 79, bairro São Lucas.
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