As memórias do livro
Textos disponibilizados em aparelhos eletrônicos alavancam discussão sobre fim do livro convencional. Afinal, nada mais polêmico do que objetos com propósitos semelhantes, mas caracterÃsticas diferentes...
Foto: divulgação Amazon
Matéria de
Eduardo P.A. Júnior
Edição de
Flávia Morais e
Eduardo P.A. Júnior
Amantes das leituras e curiosos das novidades tecnológicas; alegrai-vos! Uma leva de livros eletrônicos, conhecidos também como e-books, está chegando ao mercado brasileiro, e a ponta de lança dessa invasão chama-se Kindle. Vendido pela maior livraria virtual do mundo, a Amazon, ele é portátil, pouco menor que um livro convencional, e representa a digitalização de um velho companheiro da humanidade: o papel.
Diante essas caracterÃsticas, um questionamento é comum. O novo suporte pode ser chamado de livro? Ele não tem o volume caracterÃstico, por exemplo. O cheiro, se há, é diferente do das folhas de papel, e passar as páginas já não envolve a umidificação dos dedos. No texto Da forma ao sentido¹, Maurice Mouillaud diz que o “dispositivo (...) não é uma simples entidade técnica, estranha ao sentido”. Logo, não se trata apenas de uma mudança de suporte, onde o papel é substituÃdo por um objeto de plástico. Segundo o professor de Comunicação Social da UFMG, Filipe Freitas, todo dispositivo midiático sofre transformações em sua história, para se adaptar a mudanças técnicas, culturais ou econômicas. “O livro gozou de uma longa estabilidade, que é ameaçada pelo desenvolvimento das mÃdias digitais. Mas isso não significa que irão desaparecer. Ao invés disso, irão se adaptar, ocupando certos nichos”, analisa.
Para explicitar caracterÃsticas próprias de cada suporte, Mouillaud traça um paralelo. “À primeira vista, a embalagem e o objeto podem ser separados sem que o objeto perca a sua identidade; entretanto, um perfume continua a ser perfume sem seu frasco? O limite material está evidente, e o limite simbólico?” Isso nos revela que “o dispositivo não é um “suporte”, mas uma “matriz” que impõe suas formas aos textos.”
E é justamente o e-book, uma nova forma de dispositivo, que vem ganhando adeptos no mundo inteiro. Para a socióloga e vice-diretora da Editora UFMG, Silvana Cóser (link para áudio), a portabilidade é um dos pontos fortes do produto. Mas, até pelo caráter de novidade que o rodeia, limitações estão presentes. “Como qualquer equipamento eletrônico, eles estão sujeitos à disponibilidade de energia elétrica e à s constantes atualizações”, explica. Por isso, ele não pode e “nem pretende substituir o livro convencional”. Silvana participou da última
Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, onde conheceu diversos tipos de livros eletrônicos.
Silvana Cóser fala um pouco mais sobre os e-books.
Novas maneiras de leitura podem emergir desse dispositivo. A psicóloga e mestre em Ciência da Informação, Vera Frossard escreve no artigo Tipos e Bits: a Trajetória do Livro,² que “a impressão tipográfica mudou a “cara” do livro e, sobretudo, a relação do homem com o conhecimento: permitiu que o conhecimento se popularizasse, incentivou a criação das bibliotecas públicas, afrouxou o papel da Igreja como "guardiã" exclusiva do conhecimento, ofereceu ao autor um novo status e, praticamente, criou a figura do leitor, enfim, foi o abre-alas para o renascimento das artes e da ciência. (...). A informação eletrônica aponta mudança da mesma magnitude ao introduzir novas formas de acesso à informação”.
O fato é que os e-books ganham espaço em um mundo cada vez mais interconectado. Para o professor Filipe Freitas, a sociedade tem passado gradualmente de uma sociedade da posse para a sociedade do acesso. “Hoje ainda nos preocupamos em ter um livro na nossa estante, uma cópia que possamos segurar nas mãos, e que tenha existência fÃsica. As próximas gerações talvez não liguem tanto para isso”.
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Referências: |
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¹ MOUILLAUD, M.; PORTO,S. D. (Org.). O jornal – Da
forma ao sentido, BrasÃlia: Paralelo 15, 1997,
p. 29-35 |
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² FROSSARD, Vera CecÃlia. Tipos e Bits: a
Trajetória do Livro.
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