Brincadeiras à parte, a credibilidade continua a mesma?
Informalidade nos telejornais brasileiros é bem recebida por jornalistas, ainda que gere estranhamento no telespectador.
Matéria de Ana Cláudia Paschoal e Gabriela Garcia
Edição de texto: Pedro Alvarenga
Edição de mÃdia: Adriana Costa
A informalidade tem marcado cada vez mais os telejornais brasileiros. Assim como Sandra e Evaristo, outros apresentadores passaram a adotar a linguagem cotidiana, através de narrativa que se aproxima do telespectador. A mudança, identificada principalmente a partir da década de 90, foi motivada pela tendência de se investir em um jornalismo mais popular. Para a jornalista e professora de Comunicação Social da UFMG, Regiane Lucas, essa aproximação é natural com a evolução dos meios e da cultura comunicativa. "A televisão está dentro de casa, há uma proximidade fÃsica com a pessoa. Ela interfere na prática cotidiana e, por isso, a necessidade de se falar cada vez mais a lÃngua do telespectador", explica.
Para o chefe de Jornalismo da TV Globo Minas, Clecio de Oliveira, a coloquialidade é uma forma de conversar com o público, cada vez mais amplo e diversificado. “A linguagem precisa ser entendida de forma clara e eficiente. Quanto mais espontânea for, mais fácil será esse entendimento”, afirma.
No entanto, a informalidade ainda gera apreensão ou, ao menos, curiosidade no telespectador, que muitas vezes a trata de forma cômica e ridicularizada. Marcela Ferreira, aluna do curso de Psicologia da UFMG, não concorda com esse tipo de jornalismo. “Acho que fica tendencioso quando eles colocam a opinião na apresentação. Não acho que esse é o papel do jornalismo nesse caso”, opina.
Credibilidade
A nova tendência do jornalismo parece marcar uma linha tênue entre objetividade e entretenimento e, assim, ameaçar a credibilidade na transmissão das notÃcias, que por tanto tempo foi associada a um modelo rÃgido e impositivo. Para Regiane, esta credibilidade não é abalada porque o padrão jornalÃstico se mantém. "Algumas coisas não foram abolidas: a linguagem ainda é objetiva, existe uma pretensão à imparcialidade e os critérios de noticiabilidade permanecem”, explica.
Esses fatores, segundo ela, são responsáveis por emitir sinais de reconhecimento ao público de que aquele ainda é um produto jornalÃstico, mesmo que os apresentadores estejam mais humanizados. Em "O Contrato de informação mediático", Patrick Charaudeau, teórico que se dedica à análise do discurso, explica essa relação de reconhecimento dos sinais através de um contrato entre telespectador e apresentador. “O necessário reconhecimento recÃproco das restrições da situação pelos parceiros da troca linguageira nos leva a dizer que estes estão ligados por uma espécie de acordo prévio sobre os dados desse quadro de referências” (p.68).
Mais entretenimento, mais audiência
O fator econômico também é relevante na tendência à informalidade, como atenta Regiane: “não podemos ser ingênuos. Se essa tendência atrai os consumidores, ela também se traduz em números”. Para Charaudeau, diante da concorrência dos veÃculos de informação pela audiência, a mÃdia recorre a meios afetivos, dentro de um contrato de informação midiático contraditório. Além da finalidade de satisfazer o princÃpio de seriedade ao produzir efeitos de credibilidade, ela também busca emocionar e conquistar o seu público com um “fazer sentir”, com “escolhas estratégicas apropriadas à encenação da informação (...)” (p.92).
Ainda que recebido com apreensão no inÃcio, o novo papel dos apresentadores parece se firmar como uma tendência bem aceita pelo telespectador. Além de trazer o apresentador para uma realidade social mais próxima do público, a mudança já começa a ditar novas práticas cotidianas, como costuma acontecer com os produtos televisivos. É o que ressalta Regiane: “As pessoas não só gostam dessa coloquialidade, mas também são responsáveis por emplacá-la e levá-la para o cotidiano. É um sentido circular”.
Referências
CHARAUDEAU, P. Discurso das mÃdias. São Paulo:
Contexto, 2006.