NotÃcia ou piada?
Abusar do humor como estratégia jornalÃstica. Esse o objetivo do programa de TV Custe o que Custar, da Band. Mas isso afeta de alguma forma a credibilidade do que é noticiado?
Foto: divulgação
Matéria de
Ethel Braga e
Pedro Alvarenga
Edição:
Ana Cláudia Paschoal e
Stéphanie Bollmann
“As pessoas têm que entender que a gente faz humor, mas a gente faz jornalismo e a gente trata de assuntos sérios.” A frase é do apresentador Rafinha Bastos, dita no programa
Custe o Que Custar, da emissora Band de Televisão, no dia 12 de maio do ano passado. De forma consciente ou não, o jornalista toca numa questão, no mÃnimo, polêmica sobre o CQC: é possÃvel tratar jornalismo com humor? Ou ainda, o programa reforça uma nova forma de se fazer jornalismo?
Combinando entrevistas com celebridades, reportagens polÃticas, análise de coberturas da grande mÃdia, e até matérias sobre o processo de construção de uma notÃcia, o CQC faz uso do riso – inclusive o da platéia que se encontra no estúdio – para acrescentar um sentido próprio a tudo que é transmitido.
É possÃvel questionar, usando o padrão jornalÃstico como referência, até mesmo quem está por trás da bancada. Tradicionalmente, um apresentador de jornal televisivo usa terno e gravata, tem gestos contidos e expressividade serena. Os apresentadores do CQC usam o mesmo terno e gravata, porém, acrescentam à figura do repórter uma caracterização própria, aproximando-se da performance. Para o jornalista do Estado de São Paulo, Carlos Lordelo, a notÃcia fica em segundo plano. “O programa não é famoso pela pauta, mas por seus apresentadores. Se tirarem o Marcelo Tas, por exemplo, o CQC perde sua alma”.
Dentro dessa
performance, o humor é mote principal. Os repórteres satirizam os entrevistados, interferem nas respostas e acrescentam sons e efeitos nas imagens, deturpando-as, ora para reforçar, ora para contradizê-las. De acordo com Itânia Gomes, professora do Departamento de Comunicação na UFBA, em
texto publicado na revista E-Compós
1, “o CQC se utiliza largamente de elementos do audiovisual como ferramenta para a promoção de um curioso efeito de sentido, em que o riso, a piada, a diversão são explorados com fins bem especÃficos. Não parece ser simplesmente o humor pelo o humor, mas o humor, curiosamente, como elemento de afirmação de uma suposta atuação jornalÃstica”.
Para Lordelo, o modelo pode dar certo. “Depende da forma como o humor é trabalhado. Em alguns momentos, o deboche é fundamental. No quadro ‘Proteste Já’, com Rafinha Bastos, ele encontra problemas urbanos e expõe à s autoridades, utilizando o humor como ferramenta de denúncia. É uma outra forma de apresentar os problemas da comunidade.”
Segundo Juliana Gutmann, mestre em comunicação e cultura contemporâneas pela UFBA, no
artigo “Aspectos audiovisuais do
Infotainmeint: o CQC como propósito de análise”
2, diante de algumas produções midiáticas contemporâneas, como o CQC, pode ser considerado que, do ponto de vista da configuração da esfera pública, a cultura visual e o uso do humor, por exemplo, podem ser ferramentas importantes para a conversação polÃtica.
Apesar do humor ter o seu lugar como ferramenta de construção de um programa de caráter informativo, a disparidade entre humor e informação parece persistir dentro da comunidade jornalÃstica. Lordelo acredita que o CQC funciona melhor como provocação. “O humor não atrapalha a credibilidade jornalÃstica com o público, mas, como jornalista, eu não usaria o programa como fonte primária”.
Uma coisa é certa. Em termos de audiência, o programa funciona. Isso mostra, no mÃnimo, a aceitação do público em relação à essa nova forma de se relacionar com a noticia: através do riso. Para Itânia, “o CQC consegue aliar jornalismo a humor sem perder de vista premissas e valores que constituem o jornalismo como instituição social – ainda que essas premissas e valores sejam reconfigurados”. Existe um novo jornalismo sendo construÃdo, que depende muito menos dos formatos tradicionais do que do funcionamento com o público.
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Referências |
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GOMES, Itânia - Eles estão à solta, mas nós estamos
correndo atrás. Jornalismo e entretenimento no Custe
o que Custar – Revista da Associação Nacional dos
Programas de Pós-Graduação em Comunicação
E-compós, BrasÃlia, v.11, n.2. Mai/Ago. 2008. |
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2
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GUTMANN, Juliana - Aspectos audiovisuais do
infotainment: o CQC como propósito de análise –
Artigo para o Colóquio Internacional Televisão e
Realidade – 21 a 24 de outubro de 2008. |
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