O tabu e a sombra
Homoerotismo, futebol e invisibilidade no jornalismo esportivo
Matéria de Carol Abreu e Victor Guimarães
Edição de texto:
Igor Lage
Edição de mídia: Marina Morais
Em junho de 2007, a coluna Zapping, do diário paulistano Agora, publicou uma
especulação de que um jogador de futebol de um grande clube paulista assumiria publicamente sua homossexualidade. Na mesma semana, durante uma mesa redonda em um programa esportivo na TV Record, um dirigente do Palmeiras
insinuou que esse jogador seria Richarlyson, do São Paulo. O são-paulino, que é alvo de piadas em relação à sua orientação sexual desde o início da carreira, entrou com uma queixa-crime contra o cartola. Como resposta, recebeu uma inusitada peça do anedotário jurídico nacional, que rendeu ao magistrado responsável um afastamento de suas funções. Mesmo com algum espaço na mídia, o caso relatado neste nariz-de-cera desapareceu dos holofotes sem maiores desdobramentos.
Afora o que ficou conhecido como “caso Richarlyson” e
uma ou
outra história semelhante, a temática homoerótica no mundo do futebol parece completamente ausente da cobertura esportiva. Essa invisibilidade de temas relacionados ao homoerotismo – para além da exposição pública da orientação sexual de jogadores, que não só parece irrelevante, como pode ser bastante prejudicial aos próprios atletas – revela não somente a faceta homofóbica do jornalismo, mas também a inaptidão de nossas sociedades para lidar com temas “tabu” – desconfortáveis, polêmicos e sobre os quais não se fala com facilidade.
No texto “A informação ou a parte da sombra”
1, o teórico francês Maurice Mouillaud afirma que essa ausência de algumas questões no jornalismo ocorre porque toda produção de visibilidade é, ao mesmo tempo, a fabricação de uma invisibilidade. Como os faróis que guiam as embarcações
2, a informação, para Mouillaud, é uma das figuras da visibilidade. Entretanto, ao tornar algo visível, o jornalismo necessariamente impõe a muitas outras coisas um lugar à sombra.
O teórico chama a atenção para o caráter imperativo desse processo: “a informação é o que é possível e o que é legítimo mostrar, mas também o que devemos saber, o que está marcado para ser percebido”
3 .Na escolha do jornalista iluminar uma parte da realidade estão envolvidos diversos processos sociais que deslegitimam outras dimensões dessa mesma realidade. Muito daquilo que não aparece na notícia faz parte de um pacote de coisas que é socialmente indesejável, intolerável ou simplesmente “complicado demais” para aparecer.
Para o pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Cidadania LGBT da UFMG, Carlos Alberto Carvalho, a ausência de questões relacionadas ao homoerotismo na mídia é uma “espécie esquizofrênica de presença”. Segundo Carlos, “não falar abertamente ou apenas simplesmente insinuar é uma maneira de dizer, uma forma de posicionamento”.
Confira as vicissitudes dos repórteres ao tentar entrevistar assessores de imprensa do Cruzeiro e do Atlético.
Quando o assunto é futebol, o problema é ainda mais complexo. Para Carlos, não se poderia nem falar de uma cobertura do homoerotismo no futebol: “o tema aparece enviesado, atravessado por outras questões”. O caso Richarlyson aponta para essa dificuldade de enquadrar a temática homoerótica. “Se ele é ou não gay não é a discussão fundamental, e pode até ser equivocada. A imprensa se omitiu do debate, deixou a coisa fluir. Esse episódio poderia ter contribuído enormemente para uma discussão mais franca do tema, uma discussão não atravessada pelo preconceito”, opina o pesquisador.
Ouça trechos da entrevista com Carlos Alberto Carvalho.
Para a jornalista Marina Torres, que cobriu o Atlético-MG pela rádio Inconfidência, “existe um certo preconceito que é revestido em forma de brincadeiras, de uma coisa jocosa”. A idéia de que “futebol é coisa de macho” faz com que o tema, quando aparece, seja permeado pela homofobia – dentro ou fora do jornalismo. Segundo Marina, “às vezes, a justificativa nas redações é de que isso não seria bem-vindo pelo público, mas também pode ser um preconceito dos próprios jornalistas e editores”. Esse processo, segundo Mouillaud, não é uma exclusividade midiática. “Esta [a mídia] representa apenas o fim de um trabalho social, uma formação que começa a montante dos aparelhos propriamente da mídia”
4 .
Leia a
sentença do juiz que indeferiu a queixa-crime de Richarlyson.
Assista ao flagrante
mais recente de homofobia no futebol.
Referências
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1 “A informação ou a parte da sombra”. In: MOUILLAUD, M.; PORTO, S. D. (Org.). O jornal – Da forma ao sentido. Brasília: Paralelo 15, 1997, p. 37-47. |
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2 DOURADO, A. ; JÁCOME, P.. “Jornal Nacional e os 12 segundos de escuridão”. In: Intercom, 2008, Natal. Anais do XXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. São Paulo : Intercom, 2008. v. 1. |
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3 MOUILLAUD, 1997: 38 |
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4 MOUILLAUD, 1997: 42 |