Popozuda ou requintada?
Entenda como a escolha da garota da capa de Playboy pode afetar o contrato de leitura entre revista e público.
Matéria de
Carol Abreu e
Igor Lage
Edição de texto:
Victor Guimarães
Edição de mÃdia:
Mariana Garcia
Mulher Melancia ou Maitê Proença? Cada uma delas possui uma imagem social bem distinta: Maitê é a mulher madura e independente, enquanto a Mulher Melancia é a dançarina de funk gostosona. Ainda assim, as duas já foram estrelas (inclusive, mais de uma vez) da edição nacional da Playboy – revista fundada nos Estados Unidos em 1953 por Hugh Hefner – e seus ensaios conseguiram vendas expressivas. Mas será que existe um conceito único de “garota da capa” para a Playboy? A resposta passa por uma discussão de identidade e contrato de leitura.
A identidade de uma revista é constituÃda na relação que busca construir com seus leitores: no contrato de leitura que propõe. É o que Eliseo Verón retoma no texto “Quando ler é fazer: a enunciação no discurso da imprensa escrita”
1 . Verón afirma que o contrato de leitura é um “dispositivo de enunciação”, conformado pelos modos de dizer que são próprios dos produtos da imprensa e que propõem uma relação aos leitores. Ao estabelecer um lugar para si, o produto propõe também um lugar de leitura, criando um vÃnculo entre o veÃculo e o seu leitor.
A capa é o primeiro contato com o leitor, é o que fica exposto na banca, o que faz vender a revista. Por isso, é de interesse de qualquer publicação que sua identidade esteja bem definida na capa, marcando o contrato que se propõe. Como na Playboy o principal elemento da capa é a garota, as escolhas que envolvem a protagonista do ensaio principal precisam relacionar-se à identidade da revista. Escolhas que passam não só pela garota em si, mas por todas as modalidades que a revista emprega para apresentá-la.
A jornalista SÃlvia Amélia de Araújo, ex-professora da UFMG e leitora assÃdua de revistas, acredita que “independentemente da mulher da capa, a Playboy busca encenar uma sofisticação”. Essa “encenação” é direcionada a um grupo de leitores, que a revista acredita ser seu público fiel. Mas esse público não é tão bem determinado. SÃlvia explica que, além desses leitores fiéis, há o público casual – que pode ser até dez vezes maior. “Eu acho que o publico padrão, aquele que é o ‘homem Playboy’, prefere ver mulheres como a
Maitê Proença e a
Flávia Alessandra . Mas não dá para pagar uma Flávia Alessandra todo mês, sem contar que as capas com conotação sexual mais explÃcita vendem mais”, explica SÃlvia.
Rubens VinÃcius Rocha, 53 anos, assinante da revista há mais de vinte, diz que
mulheres-fruta e
ex-BBBs , por exemplo, não o interessam muito, mas que são capas que vendem bem e podem até render bons ensaios. “O objetivo da Playboy é matar a curiosidade do leitor. Se a mulher estiver em evidência na mÃdia, mesmo não sendo tão bonita, é ela que eles vão colocar na capa”, afirma. O conceito de “mulher do momento” também é levantado pelo designer Thiago Muniz, um dos responsáveis pelo
blog dasBancas e leitor de Playboy, que retoma a questão da sofisticação. Para ele, “Playboy sempre foi sinônimo de requinte e exclusividade. Existe até um mito sobre a revista, de que mulheres que foram capa da Sexy não podem ser capa da Playboy”.
Segundo Verón, a capa da revista é uma manifestação condensada do contrato, buscando sempre ser coerente com a proposta do veÃculo. SÃlvia Amélia lembra que, quando a Playboy traz uma mulher mais “vulgar” como ensaio principal, procura dar a ela um “verniz de glamour”, para inseri-la na idéia de identidade que atribui a si mesma. Se é Maitê Proença ou Mulher Melancia, não parece importar tanto: o contrato se constrói no âmbito da enunciação, e não do enunciado. Para a relação que a revista busca estabelecer com seu público, a forma como a garota é apresentada pode ser muito mais importante do que quem ela é.
Referência
VERÓN, Eliseo. “Quando ler é fazer: a enunciação no
discurso da imprensa escrita”, em Fragmentos de um
tecido. Editora Unisinos, São Leopoldo: 2004