Sem fórmula mágica
Entre uma pauta e outra, jornalistas e pesquisadores tentam superar tensões e mal-entendidos. Maior desafio é alcançar o entendimento recÃproco entre ambas as áreas.
Foto: www.fabeni.net
Matéria de
Andrea Souza e
Eduardo P.A. Júnior
Edição de
Danilo Couto
Na quÃmica, a solução sobressaturada é aquela que apresenta em sua composição, a quantidade máxima de soluto (sal, por exemlplo) dissolvida em solvente sem que haja precipitação, aqueles ‘montinhos’ que sobram no fundo dos tubos de ensaio. Assim, ao olhar para ela, tudo parece simples e homogêneo até que um pequeno barulho ou leve movimento interfira sobre esse sistema e resulte no desequilÃbrio total de seus elementos. A metáfora serve para explicar, em certa medida, a relação firmada entre jornalistas e cientistas, marcada muitas vezes pela instabilidade.
Para a professora e doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Audre Cristina Alberguini, a tensão existe muitas vezes porque a expectativa dos pesquisadores sobre a produção jornalÃstica nem sempre é correspondida. “O cientista prima pela precisão e se o texto jornalÃstico sobre ciência for tão preciso quanto o texto cientÃfico, deixará de ser jornalÃstico e não será compreendido pelo grande público”, pontua.
Em seu trabalho “Sociologia do Jornalismo”, Érik Neveu desmistifica o mal-entendido que coloca o jornalista como o único agente no processo de abordagem da fonte, erroneamente encarada como a parte passiva e sempre disponÃvel. “Esse jogo de conotações combina com as imagens do jornalista curioso e investigador. Ele induz ao erro, não porque os jornalistas sejam desprovidos de espÃrito de iniciativa e habilidades para acessar a informação escondida, mas porque as fontes são fundamentalmente ativas.”
É necessário então que o jornalista não subestime suas fontes e desenvolva habilidades para lidar com seus entrevistados. Segundo o editor do
Boletim UFMG , Flávio de Almeida, o vÃnculo entre os profissionais da comunicação e os pesquisadores se baseia em uma relação de confiança. “Me parece que no caso do jornalismo cientÃfico, essa confiança precisa ser estabelecida o mais rápido possÃvel: durante o processo de interlocução, durante a entrevista, na abordagem do pesquisador e até mesmo antes de marcar a entrevista, pedindo para ele algum resumo ou material para que o jornalista possa se preparar para a conversa”. Flávio aponta a credibilidade como outro fator importante nessa relação: sempre que possÃvel, ele envia os textos para os pesquisadores. Assim, eles podem corrigir informações ou propriedades mais técnicas concernentes ao estudo.
Boa saÃda
Segundo FabÃola de Oliveira, em seu livro “Jornalismo CientÃfico”, as primeiras divulgações objetivas e claras acerca dos meandros da ciência são datadas do século XVII. Curiosamente, um dos primeiros a colocar em palavras acessÃveis suas descobertas foi o astrônomo italiano Galileu Galilei. Atualmente, um dos desafios dos jornalistas é apresentar as pesquisas de uma forma clara para a população. Para a pesquisadora Audre Alberguini, apesar dos desentendimentos, os jornalistas tem se qualificado cada vez mais para tratar de assuntos na área cientÃfica. “Ao entender melhor como a ciência foi e é produzida, o jornalista desmistifica o trabalho do cientista e entende as dificuldades, o timing de se produzir ciência, que são diferentes do fazer jornalÃstico.”
Da mesma forma, alguns pesquisadores também se envolvem com a divulgação midiática. Débora Reis é professora associada do departamento de Morfologia e tem um programa na Rádio UFMG Educativa chamado Universo das Crianças. O objetivo é tirar dúvida de alunos sobre temas variados. Segundo ela, “o retorno é positivo, inclusive no sentido de alertar quanto à linguagem utilizada no programa”, pontua.
Referências:
NEVEU, Érik. Sociologia do jornalismo. São Paulo:
Edições Loyola, 2006.
OLIVEIRA, FabÃola de. Jornalismo CientÃfico. São
Paulo: Contexto, 2002