Discussão não tem hora nem lugar
Transição do Centro de Estudos Comunicacionais para ComuniC.A. revela que, apesar de cenário e contexto diferentes, o estudante de comunicação ainda defende espaço próprio para debate na universidade.
Matéria de
Ana Cláudia Paschoal
Edição de
Lucas Pavanelli
O nome e o endereço mudaram. De Centro de Estudos da Comunicação, CEC, instalado na Fafich da rua Carangola, no bairro Santo Antônio, a instituição representante dos alunos do curso de Comunicação Social da UFMG passou a se chamar ComuniC.A, após um tempo de instalação na Fafich do campus Pampulha. Mas os anseios, as discussões e a luta pela melhoria do curso parecem trilhar um mesmo caminho, ou, ao menos, parecido.
Elton Antunes, atual coordenador do curso, e Rogério Tavares, hoje assessor do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, foram estudantes do curso de Comunicação Social da UFMG na década de 1980, quando o CEC dava seus primeiros passos. Criado para suprir o esvaziamento que o Diretório Acadêmico da Fafich deixou, após um longo perÃodo sem sequer realizar eleições, o CEC é lembrado pelos ex-alunos como um local de discussão. “Era onde acontecia o movimento estudantil na Faculdade. Já que não tinha o D.A., o CEC era o local onde os alunos se reuniam para conversar sobre os problemas do curso”, afirma Elton. Com almofadas e tapetes, que hoje ganharam companhia da TV e vÃdeo-game, o Centro tornou-se também espaço de lazer e descanso para os alunos transformando o ambiente, antes dominado por discussões e debates sobre a situação do curso e do paÃs. “Quando acabava a aula, a gente não ia embora pra casa. TÃnhamos uma inserção na vida acadêmica diferenciada que acabava nos aproximando mais dos professores e fazendo com que tivéssemos uma dedicação maior à Universidade”, relembra Rogério Tavares.
E a história do CEC revela questões não tão incomuns aos alunos de hoje. Na época, como aconteceu recentemente, o curso também passava por um processo de reestruturação e implantação de novo currÃculo, que envolvia muitas modificações em relação ao vigente naquele momento. Como lembra o coordenador: “O fato demandava uma discussão muito grande entre os alunos. Entramos no curso já sendo convidados a discutir sobre esses assuntos, e o CEC era o lugar natural para fazermos isso”.
Da mesma forma, Mariana Andrade, estudante do quinto perÃodo do curso e membro do ComuniC.A há iguais cinco semestres, afirma que o Centro Acadêmico ainda hoje se mostra como um espaço de reflexão e discussão dos assuntos referentes ao curso. “O papel do ComuniC.A hoje é promover um diálogo entre os coordenadores, professores e alunos, além de ser um centro formador de opinião que está sempre discutindo a situação do curso e da Comunicação no paÃs”.
Em 1968, preocupação com o curso e com a profissão
Mas se o objetivo permanece o mesmo, não há como negligenciar o fato de que os contextos em que o CEC e o Comunica atuam são muitos diferentes. Se na época de Elton e Rogério o ideal polÃtico e a esperança na democracia alimentavam as expectativas quanto ao futuro do Brasil e do próprio curso, atualmente as desilusões têm papel mais forte. “VÃamos a polÃtica como algo positivo. O perÃodo favoreceu esse perfil dos estudantes da época”, reflete Rogério. E Elton completa: “acho a comparação complicada. Não tenho nenhum sentimento nostálgico em relação a minha época, mas acho que os estudantes tinham um sentido de avaliação mais conectado entre as questões mais gerais da Universidade e as do curso. Não digo que isso seja pior, mas quando vejo a representação estudantil hoje, não encontro muita relação entre a vida no curso, na Universidade e no paÃs”. Mariana confirma a diferença: “acho que há um problema de alienação. Não sei se é do curso ou da própria geração, mas isso acaba refletindo aqui dentro também”, completa.