Os dÃngous
De artistas frustrados a produtores teatrais. A história da banda que surgiu no curso de Comunicação Social na década de 90 e chegou até mesmo a ser comparada aos Mamonas Assassinas.
Matéria de
Stéphanie Bollmann e
Gabriela Garcia
Edição de
Lucas Pavanelli e
Ana Cláudia Paschoal
O ano é 1990 e os corredores da Fafich, pasmem, eram limpos, brancos e vazios. No primeiro ano dos faficheiros no Campus Pampulha, alunos do Curso de Comunicação Social se reuniam em torno da nobre causa de administrar o ComuniC.A.. Que nem era ComuniC.A. ainda. Era o CEC – Centro de Estudos de Comunicação. As horas ali passadas serviram para o surgimento de uma nova onda musical que iria ocupar aquele espaço até então desconhecido. Versos como,
“requeijão não é catupiry” , dominariam a mente dos estudantes anos após o inÃcio daquela década.
Um dos movimentos que compõem a história da Comunicação da UFMG começou assim. The Jingles é o nome do grupo que veio para quebrar com o perfil militante dos faficheiros pós ditadura militar. Em vez de se associarem a partidos polÃticos, compunham jingles de mercadorias reais e fictÃcias. Segundo Marcelo Henrique, integrante da banda, os
jingles tinham o intuito de criticar a sociedade de consumo, a publicidade e eles mesmos, futuros publicitários. Mas tudo, com muito humor. E era a parte do humor, sempre exagerado, que desagradava aos outros alunos do prédio. “Nós éramos hostilizados”, afirma Marcelo.
Banda não é bem o termo certo para se referir ao The Jingles. O grupo começou com uns seis alunos, pulou pra oito, chegou a ter dez e hoje conta com sete integrantes. Dos fundadores, apenas um sabia mais ou menos tocar algum instrumento. O resto era só figuração. Inclusive alguns deles foram responsáveis pela a produção musical do show de calouros Elias Sunshine. E, segundo o próprio apresentador, Elias Santos, brincavam demais: “eles mais atrapalhavam do que ajudavam porque éramos todos iniciantes e eles não sabiam tocar direito. Era uma farra, mais ou menos o tom do programa mesmo”.
A figuração deu à banda um caráter mais teatral enquanto, ao longo dos anos, músicos de verdade, que não eram da Comunicação, foram incorporados ao grupo. Apresentaram-se em várias casas de show de Belo Horizonte, participaram de festivais – até ganharam um, quando deixaram a banda Tianástacia no chinelo. E, por causa da parte figurativa, retomaram fôlego 12 anos após a conclusão do curso de Comunicação, com a produção da peça “Meninas de The Jingles”, a partir de recursos da Lei de Incentivo à Cultura de 2006.
Raridade: o clássico "Camisinhas Tropical", primeiro vÃdeo clip produzido por alunos do Curso (1990).
As manifestações artÃsticas na Comunicação Social
A forte ligação que a Comunicação Social estabelece com a produção artÃstica em geral é um dos fatores que, segundo Elias, justifica as diferentes formas de expressão dos alunos do curso. “Esse tipo de movimento é comum no curso de Comunicação. Depois do The Jingles, já tivemos o Revertério e novos movimentos surgem, como o A.H.A. Acho que isso faz parte de uma veia de artista um pouco frustrada que os alunos de comunicação costumam ter”, diverte-se.
O novo estilo musical, lançado na UFMG pelo The Jingles, chegou até mesmo a ser comparado ao do Mamonas Assassinas, na época do lançamento da banda, em 1994. A comparação, no entanto, incomodou os integrantes já que a banda havia sido criada cinco anos antes e com outra proposta. “Eles faziam uma coisa parecida, mas o nosso humor era mais crÃtico. Não era só a piada pela piada”, relembra Marcelo.
Com toda a força que a banda conquistou ao longo dos primeiros quatro anos de existência, ela se tornou um projeto secundário para os integrantes após a conclusão do curso, que não viam ali a possibilidade de uma atividade rentável. O cenário musical de Belo Horizonte não estava ainda preparado para receber apresentações alternativas e o grupo limitava suas apresentações ao cinema Belas Artes, onde o público era mais velho, careta, ou na A obra, onde o público esperava apresentações de “rock pauleira”,o que não era o caso. Todo este cenário colaborou para que os ensaios e apresentações se tornassem esporádicos no perÃodo de 1994 a 2006.
The Jingles hoje
Mesmo quebrando padrões dentro do curso e apesar do relativo sucesso da peça teatral de 2006, que deu um gás para o conjunto, eles esfriaram novamente. Uma briga dentro da banda fez com que os integrantes desanimassem e passassem a fazer shows quase que uma vez por ano só, no bar Utópica Marcenaria, no bairro Santa Lúcia. Segunda Toninha, sócia do bar, o público deles é bem variado: “tem pessoas de 60 anos, 40, 45 anos, mas não é um grupo muito jovem não”. E não é todo mundo que gosta. “Já tomamos vaias homéricas, de desistir da carreira”, admite Marcelo. Toninha diz que o público mais careta não gosta porque eles mexem muito com a platéia. Fazem brincadeiras, pulam, jogam água.
Aliás, se você ficou curioso para ver as performances do The Jingles, eles vão se apresentar no final do mês, dia 28, lá no Utópica. Assista e depois conte pra gente o que você achou!