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Universidade e resistência na terra do sol

“Quem não era cangaceiro, soldado, ou beato, padecia na seca, ou sofria de fome, ou de violência”. A descrição que o escritor paraibano José Lins do Rêgo fez do cenário social onde surgiu o cangaço não é muito diferente do enfrentado ainda hoje por muitos grupos no Brasil. No sertão, na aldeia, no quilombo e nos terreiros, os povos tradicionais seguem enfrentando ameaças cotidianas aos seus modos de vida.

É o caso dos Guarani-Kaiowá, que dominavam o cultivo de várias espécies na agricultura e hoje a maior parte das famílias depende de cestas básicas dadas pelo governo. “Desde 1500, com o contato, houve um rompimento com toda a estrutura que os indígenas viviam. Em 1850 houve as Leis de Terras, onde os colonos passaram a ocupar o estado de Mato Grosso do Sul, onde vive o meu povo. Vim para a Universidade para divulgar a luta do meu povo que é contra os governos que são anti-indígenas e pela nossa sobrevivência” conta Daniel Lemes Vasques, Kaiowá que ministra aulas dentro do programa de formação em saberes tradicionais da UFMG.

O contato com essa realidade denunciada pelos Guarani-Kaiowá, junto com as experiências da professora Luciana Oliveira, do Departamento de Comunicação Social, no Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade da UFMG (GRIS) fomentaram a criação do Coletivo de Estudos, Pesquisas Etnográficas e Ação Comunicacional em Contextos de Risco, o Corisco. “O coletivo nasce do movimento de conjugação entre as discussões que aconteciam no GRIS, como as sobre o acontecimento e as representações na mídia, com as questões políticas que me interessam, como as ligadas à produção cultural mais vanguardista de hoje, que é a produção da própria vida de alguns grupos sociais, que em um contexto de extrema opressão e de ameaças físicas e simbólicas à sua existência tem conseguido sobreviver. Mais do que isso, se afirmar como um modo de vida”, explica Luciana.

O nome do Coletivo faz referência ao cangaceiro e chefe do último bando famoso que se desmembrou do bando de Lampião. “Antes de uma reunião em que parte da pauta era decidir o nome do grupo, me veio à cabeça a imagem do Corisco. Depois me veio a cena final de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, em que o Corisco vinha sendo perseguido e a trilha era ‘se entrega Corisco, eu não me entrego não’. A escolha do coletivo no lugar de grupo de pesquisa é uma escolha inspirada nos coletivos que vem fazendo luta política no país”, conta a professora.

Criado em março deste ano o Coletivo aposta na heterotopia como lugar, na etnografia como método e na extensão como ação política, além de não fugir do risco de se pesquisar fora dos modelos tradicionais. “Nós estamos dispostos a correr risco epistemológico, olhar para os grupos a partir de outro ponto que a Universidade não costuma olhar justamente para alargar a base epistêmica da Universidade”. Atualmente o grupo pesquisa populações indígenas, comunidades de terreiro e quilombolas, ocupações urbanas e trabalha ainda com experiências de gênero e conhecimentos tradicionais.

Para 2017, o Corisco projeta uma publicação que se atente também na forma às discussões políticas que atravessam sua atuação. “A linguagem e a forma precisam dizer também dessas inquietações que nos movem e das cosmologias dos grupos que estudamos. Queremos também que algumas sessões de encontro do coletivo sejam aulas públicas, abertas e com grande publicidade, com coletivos de fora da Universidade como convidados” diz Luciana.

Quem se interessar em participar do coletivo Corisco pode mandar um e-mail para emailcorisco@gmail.com. O site está em construção e em breve reunirá as pesquisas e a memória que o coletivo, apesar de novo, já vem criando.

Por Victor Maia

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