L’image
n’a pas d’autorité épistémique.
Elle incarne la réalité d’un désir
qu’elle n’a pas pour mission de combler, mais de réanimer
sans fin.
Marie-José Mondzain, Le commerce des regards
Em entrevista
publicada no número anterior da Devires, solicitamos ao
cineasta Jean-Louis Comolli que comentasse a seguinte frase do
antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: “Não
há mundo pronto para ser visto, um mundo antes da visão,
ou antes, da divisão entre o visível (ou pensável)
e o invisível (ou pressuposto) que institui o horizonte
de um pensamento”. Indagado sobre como o cinema, ao criar
seus blocos de movimento/duração (segundo a expressão
de Deleuze), inaugura também o pensamento, o cineasta respondeu:
“O invisível no cinema é o que, fora do campo,
se articula de maneira aleatória com o visível do
quadro, mas é, também, ao mesmo tempo, dentro do
próprio quadro, aquilo que é ocultado de maneira
aleatória pelo desejo do sujeito que olha”.¹
Entre o visível
e o invisível, entre o já pensado e o impensável,
entre o mundo filmado e o mundo projetado na tela, se situam as
potências estéticas e políticas do cinema,
na medida que a mise en scène do filme é objeto
de um duplo investimento: por um lado, ela aparece publicamente
para o corpo social em um espaço público; por outro,
os recursos expressivos do filme afetam o corpo individual do
espectador, solicitando tanto os sentidos quanto o desejo... É
justamente em torno do dispositivo complexo das telas (em suas
diversas formas) que hoje se redistribuem os poderes do visível
e do invisível, como nota Marie-José Mondzain:
Toda recepção visual diante de uma tela acontece
em uma espécie de atopia fugidia, o tempo da visão
ou da projeção. Esse não-lugar situa-se no
espaço social. É a partir dele que se organiza o
espaço dos espectadores, seu lugar a uma distância
adequada, mas na escuridão relativa que tende a abolir
a distância real dos corpos em relação à
tela e dos corpos espectadores entre eles.²
Esse espaço
coletivo que abriga simultaneamente a comunidade do espetáculo
e a solidão da visão é tanto estético
quanto político. É por isso que Giorgio Agamben
pôde afirmar que hoje em dia a exposição (o
aparecer, a visibilidade) da verdade e do rosto tornou-se o local
por excelência da política, de tal modo que a vida
social inteira surge como um campo de batalha no qual as tropas
de choque são representadas pela mídia e as vítimas,
por todos os povos da terra.³
Com essa
abertura, não pretendemos apresentar – em tom de
alarde ou de catástrofe – um diagnóstico sombrio
sobre o destino atual do cinema, mas tão-somente indicar
de que maneira os filmes e o pensamento que eles criam prosseguem
em meio às condições mais adversas na contemporaneidade.
Ao propormos esta aliança entre o cinema e as humanidades
(subtítulo de nossa revista), o que pretendemos é
insistir na fórmula criada por Godard: o cinema é
uma forma que pensa, e não um mero objeto de pensamento
para outros saberes. O cinema não apenas pensa, como também,
ao fazê-lo, afeta-nos pela intermediação de
uma máquina que se coloca entre os corpos projetados na
tela e os outros corpos, o dos espectadores, que, por sua vez,
se projetarão naqueles. Essa experiência fundamental
dos filmes foi reavivada mais uma vez por ocasião do seminário
oferecido por Jean-Louis Comolli no âmbito da cátedra
Humanidades e Artes do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares
(Ieat) da UFMG, que ocorreu no espaço do Cineclube da UFMG,
na Escola de Belas Artes, de 24 de outubro a 27 de novembro de
2005. Como uma amostra significativa das muitas preocupações
que animaram o seminário, abrimos este número da
Devires com o texto da palestra que o teórico e cineasta
dedicou ao documentário Memory of the camps.
Nesse seminário,
a projeção de filmes de diferentes autores (Luis
Buñuel, Pier Paolo Pasolini, Robert Kramer, Pedro Costa,
Arnaud Despallières, Ginette Lavigne, Abbas Kiarostami,
além de alguns do próprio Comolli), seguida do comentário
do cineasta e da discussão com um público formado
por pesquisadores de origem variada e com alunos da Pós-Graduação
e da Graduação, levou-nos a prosseguir com a edição
impressa da Devires, depois de termos cogitado transformá-la
em uma publicação on-line (de produção
menos onerosa e mais prática). Resistindo à virtualização
crescente que conquista a maioria dos periódicos científicos
em outros domínios, que encontraram um abrigo seguro nos
portais na Internet, arriscamo-nos a sustentar o projeto editorial
e gráfico da Devires. Para tanto, realizamos algumas modificações
na dinâmica da revista e buscamos novas formas de apoio
institucional no âmbito da UFMG, em especial junto à
Pró-reitoria de Pós-Graduação.
A partir
do próximo número, apoiada pela Pró-Reitoria
de Pós-Graduação e pela Faculdade de Filosofia
e Ciências Humanas da UFMG, a revista será vinculada
institucionalmente ao Mestrado em Antropologia e ao Programa de
Pós-Graduação em Comunicação
(Mestrado e Doutorado), o que reforçará seu caráter
transdisciplinar e renovará sua inserção
acadêmica, pois contaremos com um novo Conselho Editorial,
ampliado pela participação de outros pesquisadores,
vinculados prioritariamente ao campo da Antropologia Visual e
da Comunicação. Uma outra mudança significativa
é que a revista terá, a cada número, um dossiê
temático dedicado a um problema relevante para a sua linha
editorial, acompanhado de um conjunto de artigos de tema livre,
selecionados pelos pareceristas. Para definir a pertinência
dos temas e a organização dos dossiês que
guiarão os dois próximos números, planejamos
uma jornada de discussões para outubro deste ano, que contará
com a presença de alguns integrantes do novo Conselho Editorial
e, em especial, com a contribuição de Ismail Xavier,
que tem sido um interlocutor inestimável.
Com tais
transformações, damos um passo decisivo para firmar
a Devires no nosso cenário intelectual, consolidando-a
como um meio criativo de promover a interlocução
entre os múltiplos saberes voltados para a compreensão
das dimensões sociais, políticas e estéticas
da experiência cinematográfica. Este novo número
– de passagem ou de transição – materializa
um duplo gesto: permanece fiel aos propósitos iniciais
da revista e também já exibe os novos rumos por
vir. Prova disso é o conjunto dos artigos selecionados:
em sua diversidade de temas e de pontos de vista, e para além
das caracterizações (muitas vezes simplificadoras)
em torno da materialidade dos formatos e das divisões de
gênero, eles testemunham como a escritura singular de cada
obra reescreve e reinventa a potência sempre em aberto do
cinema.
¹ COMOLLI,
Jean-Louis. “Não pensar o outro, mas pensar que o
outro me pensa”. Devires. Cinema e Humanidades.
Belo Horizonte: UFMG/FAFICH, v. 2, n. 1, jan.-dez. 2004, p. 166-167.
²
MONDZAIN, Marie-José. L’image peut-elle tuer? Paris:
Bayard Éditions, 2002, p. 49.
³
AGAMBEN, Giorgio. Moyens sans fins. Notes sur la politique. Paris:
Payot & Rivages, 2002, p. 107.