nesta edição:
Dossiê:
Vestígios do real
Algumas notas em torno da montagem
Jean-Louis Comolli
Resumo:
O texto apresenta e comenta a jornada da oficina organizada por
Marie-Pierre Duhamel-Muller e Jean-Louis Comolli no evento États
Généraux du Documentaire de Lussas, em 2007, intitulada
“Corta!”. Contrapondo os recursos expressivos utilizados
na montagem de alguns clássicos da história do cinema
àqueles postos em jogo nas atuais montagens espetaculares,
como o jump cut e outras formas de abreviação
do tempo, este texto coloca em evidência os efeitos políticos
e as conseqüências de sentidos ligados a tais procedimentos
(sobretudo, mas não apenas, no que diz respeito aos filmes
documentários).
Os signos do real no cinema de Eduardo Coutinho
Fernando Andacht
Resumo:
O trabalho aborda um paradoxo tão antigo como o próprio
gênero documentário: é real a realidade depois
de ser registrada em imagens e sons, e, mais ainda, depois de
ser interpretada pelo realizador? Um profundo ceticismo sobre
o sucesso do projeto estético cuja razão de ser
é capturar de modo fiel a evidência material do “real
afílmico” (Souriau) já virou lugar-comum entre
críticos e diretores. Para ilustrar minha abordagem desse
dilema, vou considerar em detalhes um exemplo da obra do respeitado
diretor Eduardo Coutinho, Edifício Master (Brasil,
2002). Em seu filme, e na poética que pode ser construída
a partir dele e dos comentários perspicazes do cineasta
sobre os limites e possibilidades do gênero documentário,
há uma tensão entre o que eu descrevo como index
appeal dos encontros filmados e a certeza da impossibilidade de
captar o real. Por meio da análise semiótica procuro
demonstrar o efeito estético dos signos de existência
ou índices no gênero, sem minimizar a subjetividade
do olhar criativo.
Corpos exemplares: a reencenação
no neo-realismo
Ivone Margulies
Resumo:
Este ensaio aborda um gênero realista, o filme de reencenação,
por meio da análise de dois episódios clássicos
do neo-realismo italiano, integrantes do filme L’amore
in città (O amor na cidade, 1953): A história
de Caterina (Cesare Zavattini, Francesco Maselli) e Tentativa
de suicídio (Michelangelo Antonioni). Em filmes de
reencenação, protagonistas reais representam acontecimentos
de sua própria história para a câmera. Estes
filmes têm como função conferir caráter
exemplar à revisão do passado, através de
uma representação de fundo ritualístico,
psicodramático e moral.
Virtualidade e referência: um breve
olhar sobre Ulisses
Luiz Augusto Rezende Filho
Resumo:
Este artigo discute questões relativas ao problema da referência
no documentário por meio de alguns conceitos de Bergson
e Deleuze. A partir da análise do curta-metragem Ulisses
(Varda, 1982), procuramos mostrar como a virtualização
é um processo constitutivo da criação documentária
tanto quanto dos seus “objetos”, como mistos de dimensões
reais e virtuais. Sugerimos que a compreensão dessa dualidade
nos permitiria adotar uma perspectiva de análise do problema
da referência como fundamentalmente uma questão de
recepção e reconhecimento.
Viagens na fronteira do Brasil e do cinema
Andréa França
Resumo:
Análise do projeto Viagens na Fronteira, realizado pelo
Itaú Cultural (1998), com ênfase nos trabalhos em
vídeo de Carlos Nader, Sandra Kogut, Roberto Moreira, Marcello
Dantas e Lucas Bambozzi. Entre o Brasil e a América Latina,
entre cinema e vídeo, entre campo do documentário
e arte contemporânea, as imagens da série, no seu
inacabamento, assumem o Brasil e o cinema como domínios
a serem reinventados e liberados do espectro identitário.
Tempo e dispositivo no documentário
de Cao Guimarães
Consuelo Lins
Resumo:
O trabalho
do artista Cao Guimarães é marcado por um hibridismo
estético produzido por elementos retomados de vários
campos artísticos. Este artigo se atém aos cinco
filmes de longa-metragem do cineasta mineiro e identifica nessas
obras misturas e contaminações de procedimentos
caros à tradição do documentário com
instrumentos de práticas artísticas contemporâneas.
É particularmente por meio desses instrumentos que o artista
se confronta com estéticas e éticas do documentário
para extrair diferentes métodos de filmar o “outro”,
um dos pilares da tradição documental.
Fora-de-campo
Fotograma comentado - Olhem para ela: a
primavera chegou (Notas sobre Mônica e o desejo,
de Ingmar Bergman)
Lucia Castello Branco
Entrevista - Eduardo Escorel e a montagem
da história
Oswaldo Teixeira e Pedro Aspahan
Leni Riefenstahl: O monumental como imagem
da ruína
Liliane Heynemann
Resumo:
O ensaio aborda as relações entre cinema e política
com base no exame das imagens da propaganda nazista nos filmes
realizados por Leni Riefenstahl, detém-se sobre o documentário
de Ray Müller sobre a cineasta e comenta o revisionismo histórico
contemporâneo. O esforço central do texto consiste
em articular as operações fílmicas de Riefenstahl,
notadamente as que resultam em uma monumentalidade das imagens,
ao projeto nazista: sua arquitetura, sua estética antimodernista
e, sobretudo, o Holocausto. Nesse sentido, a análise busca
objetivar a relação entre arte e história,
voltando-se para uma noção de ética ancorada
nas concepções radicais do filósofo Emmanuel
Lévinas.