nesta edição:

Dossiê: Pedro Costa

A recusa do esquecimento inevitável
Jair Tadeu da Fonseca

Resumo: Neste ensaio, os filmes do cineasta português Pedro Costa são considerados em suas inter-relações temáticas (no trato de grupos familiares e comunitários) e estruturais: certos elementos disseminam-se pelos diferentes filmes. Junto a isso, observa-se, entre outras coisas, que os filmes tendem à concatenação coordenativa (paratática) dos planos que os compõem e criam, a partir da metáfora familiar, o que chamo de uma distância íntima do espectador. A maior parte dos filmes é considerada, também, em suas relações fantasmagóricas (alegóricas) com a história social, política e cultural de Portugal e Cabo Verde, uma de suas ex-colônias africanas.

Pedro Costa e sua Poética da Pobreza
Mateus Araújo Silva

Resumo: O ensaio discute a poética da pobreza elaborada por Pedro Costa ao longo do seu itinerário de cineasta, mais precisamente entre Casa de lava (1994) e Tarrafal (2007). Esse trajeto é dividido em dois momentos, que se distinguem do ponto de vista da relação entre a filmagem e a ficção, das figuras dramatúrgicas, dos espaços privilegiados pelo cineasta e da sua interação com os pobres que ele filma. O primeiro, de Casa de lava a Ossos, é caracterizado como uma aproximação à pobreza, e o segundo, de Vanda a Tarrafal, como uma imersão na pobreza.

Terra a terra: Portugal e Cabo Verde no cinema de Pedro Costa
Jacques Lemière

Resumo: O artigo discute a problemática das relações entre Portugal e Cabo Verde no cinema de Pedro Costa, de Casa de lava (1994) a No quarto da Vanda (2000). Invocando declarações do próprio cineasta e atentando para o modo como seus filmes interrogam a identidade portuguesa, o autor se concentra em Casa de lava e conclui com um comentário mais breve sobre Ossos e No quarto da Vanda.

O trabalho do cinema
Oswaldo Teixeira

Resumo: Dois filmes contemporâneos (No quarto da Vanda, 2000, de Pedro Costa e Além dos trilhos, 2002, de Wang Bing) marcam uma ruptura com os modos tradicionais de produção cinematográfica e abrem, no início deste século, novas perspectivas políticas e estéticas para o cinema. Isso porque relançam uma questão que toca no cerne de uma inquietação cinematográfica: como um filme pode, ainda hoje, abrigar o tempo e nos restituir a sua experiência? Este ensaio aborda a pergunta através da problematização mesma que esses filmes colocam em relação à nossa época, inserindo-se de forma radical na crise que afeta atualmente a noção de história e que reconfigura as práticas envolvidas no processo cinematográfico.

Genciana amarela, genciana azul
Stella Senra

Resumo: O texto propõe uma abordagem de Tarrafal, de Pedro Costa, com o objetivo de focalizar o estatuto da palavra no cinema do diretor. A análise considera que a partir de No quarto da Vanda, quando passa a trabalhar com os imigrantes caboverdianos em Lisboa, a palavra passa a ter um papel central na obra de Pedro Costa. Esse papel ganha maior complexidade e mais definição em Juventude em marcha, cujos diálogos mesclam passado e presente, e onde relato do cotidiano, memórias e lendas se equivalem; Tarrafal dá continuidade a esse procedimento, sendo o estatuto da palavra enriquecido ainda com a integração da palavra escrita.

A carta de Ventura
Jacques Rancière

Resumo: O ensaio discute a dimensão trágica presente em Juventude em marcha (Pedro Costa, 2004) como uma novidade em relação aos dois primeiros filmes da trilogia das Fontaínhas (Ossos e No quarto da Vanda). O autor se concentra na figura mítica de Ventura e no novo tratamento dado à palavra neste filme de Costa, que ele compara, no final, com o cinema dos Straub.

Passo de Gigante
Cyril Neyrat

Resumo: O artigo faz um elogio enfático a Juventude em marcha (Pedro Costa, 2004), salientando os “passos de gigante” dados pelo filme ao mesmo tempo em relação aos dois primeiros da trilogia das Fontaínhas (Ossos e No quarto da Vanda) e aos dois primeiros da trilogia do vídeo digital (No quarto da Vanda e Onde jaz o teu sorriso?). O primeiro passo se revela na mudança de postura do cineasta diante dos personagens e dos lugares mostrados. O segundo, no domínio total dos seus meios de expressão.

Contracosta
Maurício Salles Vasconcellos

Resumo: O artigo analisa a filmografia de Pedro Costa focalizando a abertura de sua concepção documental no interior de um projeto cinematográfico ficcional.

No cinema português
Bárbara Barroso e Daniel Ribas

Resumo: O cânone do cinema português, que se constrói a partir do Cinema Novo, nos anos 1960, assenta sobre uma diversidade notável de olhares. Pedro Costa, que estreou no início da década de 1990, continua em muitos aspectos, seja em termos produtivos, estéticos ou éticos, a construção desse cânone. Este artigo pretende, por isso, fazer um historial cronológico da “Escola Portuguesa” e contrastá-lo com a obra decisiva de Pedro Costa.

Fotograma comentado - Uma imagem, uma escolha
Francesca Azzi

 

Fora-de-campo

Louis Malle e a paixão do incesto: notas sobre Le Souffle au Coeur & Damage
Débora Breder

Resumo: Este artigo analisa as representações sobre o incesto e sua proibição na obra de Louis Malle – cineasta francês nascido em 1932 e falecido em 1995 – a partir do enquadramento de dois longas-metragens: Le Souffle au coeur (1971), cuja trama está centrada na relação incestuosa, consciente e consentida, entre mãe e filho; e Damage (1992), que retrata a relação de um homem casado com a namorada de seu filho.

Por uma política da voz: Tomás Gutiérrez Alea e as memórias do subdesenvolvimento
Elen Döppenschmitt

Resumo: Um exame cuidadoso da tradução fílmica de Memórias do subdesenvolvimento (1968) de Tomás Gutiérrez Alea, baseado no romance homônimo (1965) de Edmundo Desnoes, contribuirá para o alargamento dos estudos da voz no cinema. Ao evidenciar o registro, a manipulação e a veiculação de sistemas orais, bem como os processos retóricos utilizados na concepção de foco narrativo, estamos diante de um cinema poético-pedagógico de cunho político.