
O presente artigo se propõe a discutir as redes de sociabilidade estabelecidas na Galoucura, Torcida Organizada do Clube Atlético Mineiro, inscrita na cidade de Belo Horizonte. Como caminho proposto a tal discussão, contextualizamos o futebol enquanto fenômeno social contemporâneo enraizado no cotidiano da sociedade brasileira e fomentador de projetos identitários de grupos organizados de torcedores, no cenário urbano. Além disso, a descrição reflexiva de determinados símbolos compartilhados entre os torcedores da Galoucura nos oferecem o olhar comunicacional necessário acerca das práticas instauradoras de sentidos. O aporte teórico a este trabalho busca em determinados autores como Maffesoli (1984), Hall (1997) e Toledo (1996), pensamentos que trabalhem as interações sociais como processos relacionais que constrõem significados entre os sujeitos sociais.
Redes Comunicacionais; Sociabilidade; Torcidas Organizadas de Futebol;
No esforço reflexivo em torno do objeto de estudos do presente trabalho, vejo que inicialmente seja importante ressaltar que o futebol em nível mundial, e principalmente no Brasil, conhecido em termos populares como “o país do futebol”, desenvolveu-se enquanto fenômeno urbano integrado à vida cotidiana dos sujeitos. A popularização deste esporte no território brasileiro foi edificada como uma importante manifestação constituinte da cultura contemporânea, assim como outros signos nacionais de expressão popular, tais como o carnaval e as chamadas religiões afro-brasileiras (Gastaldo, 2002). Neste sentido, o amparo analítico dos contextos sociológicos e históricos pelos quais o esporte foi se desenvolvendo nacionalmente é fundamental para o estudo deste rico objeto de investigação.
A principal hipótese de chegada do futebol em território brasileiro é datada no final do século XIX, mais especificamente em 1894 com o paulista e descendente de ingleses Charles Miller (Ramos, 1984). A partir de então, o surgimento dos primeiros clubes profissionais, a organização das ligas e a configuração das primeiras federações regionais de futebol acompanharam concomitantemente os processos de crescimento e urbanização das cidades [1]. O desenvolvimento do esporte ocorreu paralelamente à própria emergência das cidades e as suas necessidades constituintes pela construção de espaços públicos destinados às manifestações coletivas. Toledo (1996) diz que,
(...) As construções dos estádios e das praças esportivas estiveram em consonância com o crescimento da popularização do futebol. Simbolicamente o futebol contaminou o imaginário urbano, recriando comportamentos, inaugurando linguagens, gírias que, como se sabe, vieram a transcender os limites das praças esportivas, enriquecendo uma linguagem popular e urbana, aproximando segmentos sociais até então separados por uma segregação espacial e étnica. (TOLEDO, 1996, p.15).
Nos anos 30, o futebol já havia se tornado uma prática comum e difundida entre os sujeitos sociais e ganhou, conseqüentemente, espaço nas produções jornalísticas veiculadas nas grandes cidades brasileiras. O radio-jornalismo esportivo foi fator fundamental para a romantização do futebol, com locuções fartas em enunciações emotivas que invadiram a maioria dos lares da cidade em dias de partidas de futebol dos clubes profissionais.
A popularização dos clubes de futebol como instituições-mito, neste sentido, é atribuída, entre outros fatores, a estes processos comunicativos veiculados nos meios de comunicação e partilhados pelos sujeitos sociais em seus mais diversos contextos de vida. A imprensa esportiva conferiu racionalidade, sentidos e explicação à força da paixão desvairada que determinados indivíduos adquirem por equipes de futebol (Sussekind,1996). O compartilhamento do futebol a partir destas construções narrativas pelos sujeitos sustentou o aparecimento das primeiras torcidas uniformizadas na década de 40, compostas por grupos de torcedores e associadas à pessoa do torcedor-símbolo (Toledo,1996).
Durante as décadas de 50 e 60, as conquistas dos primeiros títulos internacionais pelos dos clubes brasileiros, além da afirmação da Seleção Brasileira de futebol como uma potência do esporte no mundo após a conquista de três campeonatos mundiais (1958, 1962 e 1970), foram determinantes à disseminação do futebol no país como “fenômeno de massas”. As décadas de 70 e 80 marcaram novas formas de relação entre o torcedor e o futebol. Observamos que o simples desfrute deste esporte como fonte de lazer e diversão adquiriu novos contornos de sociabilidade (Toledo, 1996), ou seja, possibilitou novas possibilidades ao ato de torcer através do surgimento das torcidas organizadas de futebol. As antigas torcidas uniformizadas passaram a estruturar-se burocraticamente e a organizar-se em hierarquias, regras e composições com estatutos próprios. Os processos coletivos configurados na interação simbólica de indivíduos em torno da criação de símbolos “comuns e socialmente compartilhados (os grandes clubes de futebol, por exemplo) contribuíram para a formação de identidades coletivas entre diferentes grupos sociais” (Carvalhaes, 1995, p.26).
Nesta efervescência das torcidas organizadas, surge em 1984, a Galoucura, torcida organizada do Clube Atlético Mineiro, na cidade de Belo Horizonte. Esta torcida fundada, legitimada e firmada pelas interações entre os sujeitos na cidade, torna-se um fenômeno social ao inscrever sentidos partilhados entre os seus integrantes nos mais diversos contratos sociais do cotidiano. Belo Horizonte, assim como as grandes metrópoles, absorve esta heterogeneidade social em redes de sociabilidade, marcadas pela multiplicidade e diversidade de comportamentos, contextos, modos e estilos de vida. O centro urbano abriga tal relação disjuntiva com a Galoucura e outros grupos sociais quando cria uma rede configurada em processos comunicativos cuja recepção é “ativa e partilhada, recriadora dos sentidos circulantes, que se funda na experiência nem sempre gloriosa do vivido e que o transcende na construção permanente e coletiva dos signos da cidade” (Westlin, 1998, p.30).
Magnani (1996) descreve os complexos urbanos como o produto de práticas sociais partilhadas com o passar dos anos e que possuem permanente diálogo com as narrativas contemporâneas, sendo continuamente transformadas pelos atores sociais em ação nas práticas cotidianas. Além disso, estas experiências humanas nas cidades são entendidas pelo autor como um jogo de espelhos, cujas construções sociais dos sujeitos estão sempre refletidas no outro, constituindo desta maneira arranjos de sociabilidade distintos, diversos, múltiplos, nas dinâmicas urbanas.
A cidade, desta forma, oferece um vasto palco de compreensão às práticas sociais de indivíduos ou grupos no papel de torcedores organizados de futebol. Este estilo de vida que o torcedor organizado adapta nas malhas urbanas, expresso nos comportamentos verbais, nas vestimentas coletivas ou nas linguagens visuais, diante de outros indivíduos com vidas distintas é inscrito a partir de determinadas práticas rituais [2]. Sendo assim, o futebol como um fenômeno urbano, tem na prática comunicativa entre estes atores sociais, a produção interativa de significados na partilha intersubjetiva de sentidos. Em síntese, os interlocutores relacionam-se entre si, e esta interação sustenta-se a partir do contexto criado com os suportes de mediação, com a cultura e com a linguagem.
A idéia de construção de uma identidade coletiva, em contextos sociais distintos, emerge do sentido criado para o sujeito de pertencimento a um todo, ao grupo e/ou ainda a uma organização distinta. Para Bretas (2006), os atos comunicativos praticados no cotidiano possibilitam o desenvolvimento de “processos identitários” ao se tornarem processos compartilháveis de significações, contribuindo no reconhecimento social entre os sujeitos. A configuração identitária de grupo na Galoucura nestes espaços simbólicos, está relacionada, portanto, a estas “(...) narrativas construídas. A aferição e a análise da experiência vivida, destacando a produção e o consumo de materiais simbólicos pelos atores envolvidos, prestam-se a identificar valores e significados próprios” (Bretas, 2006, p. 32).
O importante é pensar que esta construção simbólica de sentidos não está relacionada apenas com a idéia de igualdade perante outros indivíduos, mas também da diferença, ao reconhecer o outro para a configuração do nós, sendo produzida simultaneamente em muitos locais de ação conjugada por diversos agentes com diferentes propósitos (Maia, 1989). Para melhor compreender o posicionamento social dos sujeitos – em diversos contextos, diferentes ocasiões, lugares – tendo o futebol como construtor de suas interações sociais, é necessário perceber que identidade e diferença são, portanto, inseparáveis. De acordo com Silva (2000), os sistemas de classificação dão sentidos e ordenam grupos, organizações, instituições. As construções das identidades e também das diferenças “estão estreitamente relacionadas às formas pelas quais a sociedade produz e utiliza classificações. As classificações são sempre feitas a partir do ponto de vista da identidade. Isto é, as classes nas quais o mundo social é dividido não são simples agrupamentos simétricos” (2000, p. 82).
Pensamos que para a legitimação da condição de “torcedor organizado”, o indivíduo irá se identificar intersubjetivamente com um determinado clube, em um contexto de interação determinado com diversos outros atores que compactuarão a criação da identidade comum da torcida organizada. Esta identificação abre ao sujeito a possibilidade de vivências distintas daquelas impostas pela ordem social cotidiana. Da Matta (1979) discute esta questão pensando o futebol como um redimensionador das representações sociais tornando os ritos e centros privilegiados às dramatizações através dos processos comunicativos partilhados promovendo a integração coletiva e uniforme dos sujeitos, fenômeno social que o autor costuma designar como o “drama brasileiro” [3].
As Torcidas Organizadas abrigam um contingente disposto a vivenciar, através de uma paixão comum e de maneira intensa, um gosto específico pelo futebol, onde a lógica da competição, do lúdico, do conflito e sociabilidade, da visibilidade política, da construção de um universo estético e simbólico, ditam um estilo de vida capaz de sociabilizar, através de uma mesma motivação, trabalhadores, burgueses, mauricinhos e malandros, pessoas da zona leste e zona sul, jovens e velhos, pessoas com opiniões políticas de esquerda ou direita. (TOLEDO, 1996, p.152).
As torcidas organizadas sustentam “massas” que compactuam relações interacionistas diretas e intensas. Características como a competição, a sociabilidade e os conflitos orquestrados nestes universos simbólicos ditam representações sociais que integram grupos diversos na mesma partilha motivadora. Estes torcedores organizados transformam-se em uma gama heterogênea de pessoas que representam seus interesses próprios, práticas e discursos de acordo com suas interpretações pessoais, influenciando e sendo influenciados nestes processos comunicativos e relacionais.
A obra O Tempo das Tribos, de Michel Maffesoli (1998), traz uma importante contribuição na tentativa de compreensão do fenômeno social das torcidas organizadas de futebol. O surgimento dos grupos e a tecitura das redes de sociabilidade podem ser analisados na partilha das experiências coletivas entre os sujeitos sociais como uma das principais características das sociedades contemporâneas. Para o autor, os vínculos coletivos de identificação e representação nas sociedades de massas ajustam-se como matrizes à desintegração, cada vez maior, do individualismo já que “na massa, a gente se cruza, se roça, interações se estabelecem, cristalizações se operam e grupos se formam” (1998, p.102).
O conceito de socialidade proposto por Maffesoli será entendido aqui, como uma transposição do sentido de pessoa – persona - na sua representação de papéis em distintos contratos sociais da vida cotidiana, nas relações interacionistas com outros indivíduos. Desta forma, os sujeitos são convocados a interpretar diferentes papéis, em diferentes contextos que o inscrevem socialmente. Stuart Hall (1997) menciona que a construção do sentido desta “realidade” é o resultado da constante integração deste sujeito com as suas diversas “realidades representadas” e mediadas pela linguagem. Para Hall, a linguagem é o mecanismo que os sujeitos utilizam para compartilhar significados permitindo que os grupos possam interpretar o mundo de modo similar. Tal operação é devido ao sistema representacional que se cria nestas práticas comunicacionais. Por linguagem, ele aponta como todo sistema que, usando signos ou símbolos, representam idéias e “dotam o mundo de sentidos de modo similar” entre os diversos interlocutores.
O papel de torcedor organizado da Galoucura, sob a luz do pensamento de Maffesoli (1998) e Hall (1997), está na inscrição do sujeito como ator social, interagente, na experiência intersubjetiva do mesmo nas trocas sociais com outros indivíduos. Estas trocas são produzidas a partir de escolhas e ajustamentos, mediadas pelo simbólico, ou seja, pelas linguagens [4]. O contato do torcedor organizado com o outro na partilha de sentidos intersubjetivos torna-se um viés analítico ao entendimento sobre a construção de uma dada identidade coletiva, em uma relação social. Goffman (1971) cita que,
Una interacción puede ser definida como la interacción total que tiene lugar en cualquier ocasión en que un conjunto dado de individuos se encuentra en presencia mutua continua; el termino encuentro serviria para los mismo fines. Una actuación puede definirse como la actividad total de un participante dado en una ocasión dada que sirve para influir de algún modo sobre los otros participantes (1971: 27).
Esta ação conjugada na qual os sujeitos atuam de acordo com as suas interações sociais fixadas como relações contratuais ordenadoras dos posicionamentos, é marcada pela plasticidade, fluidez, por dinâmicas de ajustamentos pontuais, pela dispersão. Portanto, as práticas simbólicas configuradas no interior da Galoucura, podem ser compreendidas pela integração de diversos indivíduos em distintos arranjos sociais e em múltiplos projetos identitários. O conceito de neo-tribalismo desenvolvido por Maffesoli (1998) para fazer referência às construções grupais contemporâneas, nos auxilia na reflexão sobre a natureza simbólica das redes estabelecidas através das relações interacionistas entre os torcedores. Segundo o autor, “não podemos deixar de assinalar a eflorescência e a efervescência do neo-tribalismo que, sob as mais diversas formas, recusa reconhecer-se em qualquer projeto político não se inscreve em nenhuma finalidade e (...) vivido coletivamente” (1998, p.105).
A configuração simbólica da torcida organizada surge com as interações partilhadoras de pertencimento e no jogo de práticas da comunicação (Mead, 1934). Sendo assim, podemos pensar o futebol como um rito que fomenta a construção de identidades coletivas. Estas são visualizadas através, por exemplo, da utilização de símbolos semelhantes que identificam os sujeitos como integrantes do grupo ou na disposição espacial antagônicas das torcidas organizadas rivais nos estádios, que implicará na divisão entre Nós e Eles.
A formação dos grupos na divisão entre identidades e oposições no futebol, ordena um sistema classificatório que interfere na composição dos espaços públicos, cujos limites são demarcados e o torcedor organizado se orienta na sociabilidade ritual configurada. Toledo (1996) diz que a condição de torcedor, “abre a possibilidade de determinadas vivências, tipos de sociabilidade e imagens que transcendem aquelas impostas pelo cotidiano ao indivíduo no papel de cidadão comum” (1996, p.41). Quando pensamos a torcida organizada como uma construção narrativa, em trocas intersubjetivas que os atores sociais submetem no interior destes fenômenos sociais, remetemos novamente ao pensamento de Maffesoli, ao dizer que,
A interação e a intersubjetividade criam algo que é qualitativamente diferente dos elementos que as constituem. Dessa maneira a memória coletiva pode servir, no sentido simples do termo de revelador para as ações, intenções e experiências individuais. Ela é, verdadeiramente, uma esfera de comunicação, causa e efeito da comunidade (1998, p.98).
Discursos são, portanto, práticas narrativas. As linguagens construídas e re-construídas nestas trocas simbólicas tornam-se constitutivas destes processos comunicacionais. O ato de torcer, é por si só, uma transmissão de experiências, garantia de construção destas linguagens que sustentam o fenômeno das torcidas organizadas. Pensamos que a partir do referencial teórico desenvolvido nesta seção, podemos descrever e identificar alguns dos símbolos partilhados entre os integrantes da Galoucura que explicitarão os significados configurados nestas redes de sociabilidade.
O sentido de existência da torcida organizada e o reconhecimento coletivo como grupo organizado no composto simbólico adjacente ao futebol é compartilhado intersubjetivamente pelos sujeitos integrantes que acionam os símbolos distintivos e linguagens. Estas marcam a identidade de grupo, apontando visibilidade e oposição diante dos demais torcedores. As construções simbólicas estabelecidas em tais manifestações relacionais nos oferecem a observação necessária na interpretação das interações sociais, a partir dos usos, concepções e significações que os torcedores organizados fazem dos espaços públicos, nestas práticas rituais, como por exemplo, os estádios de futebol em dias de jogos.
Os espaços públicos e as vias de acesso aos locais dos estádios são tomados por um grande contingente de público nos dias de jogos. Os transportes públicos que auxiliam diariamente sujeitos em contextos sociais e de vida diversos, são ocupados nestes eventos, por estes torcedores organizados direcionados em ações coletivas. Isto implica a transformação dos indivíduos em massa, mas que, diferenciados através dos seus grupos, formam um macrossistema classificatório através das afinidades e adesões às cores, símbolos, bandeiras e distintivos (Toledo, 1996, p.40). Para Giulianotti (2002), os rituais de pertencimento das torcidas organizadas nos estádios de futebol, assemelham-se com condutas religiosas, sendo o futebol e a religião entendidos pelo autor, como dois fenômenos presentes nas narrativas do cotidiano. O autor diz que “(...) As cores das torcidas denotam sua identidade tribal distinta dos adversários distantes que estão amontoados no outro oposto do mundo. O entusiasmo é aumentado pelas torcidas rivais pulando e ao mesmo tempo cantando seus hinos” (2002: 37).
As torcidas organizadas, em geral, possuem sede própria onde os torcedores podem interagir com diversos outros indivíduos em vínculos de sociabilidade e identificação e de acordo com Toledo (1996), “são espaços vivos de pertencimento a estes grupos e de reconhecimento frente a outros” (p.51). Sendo assim, a manutenção e ordenação deste local de encontro para os torcedores, inscreve a torcida organizada nos arranjos constitutivos dos espaços urbanos.
Entre os símbolos mais importantes exibidos pela torcida organizada no domínio público, estão os uniformes. As vestimentas de identificação como as camisas, calças, bonés entre outros, tornam-se signos de pertencimento à totalidade, proporcionando visibilidade e reforçando o pacto junto ao grupo. A identificação visual do membro é valorizada pois ordena a prática simbólica na inscrição de torcedor organizado.
As maiores motivações em participar de uma Torcida são armazenadas nestes símbolos e marcas, que ordenam determinadas experiências, ou seja, de ocupar os espaços públicos na condição de torcedores organizados. A camisa relaciona-se a uma certa conduta e estética; assumir-se enquanto membro de uma Torcida Organizada é, sobretudo, assumir seus símbolos e marcas. (...) Ela (a camisa da torcida) demarca diferenças, delimita espaços, reitera identidades, solidariedade e oposições. Sua eficácia consiste no uso pelas ruas, trajetos até os estádios e mesmo dentro deles. (TOLEDO, 1996, p.57).
Outras importantes marcas que a Galoucura apresenta como representação estética de uma construção coletiva são as bandeiras e as faixas. O prestígio da torcida organizada na relação com as torcidas de outros clubes é construído, entre outros fatores, pela quantidade e tamanho de suas bandeiras. Na maioria das composições, as bandeiras exibem os distintivos, marcas e brasões do time e da torcida organizada, geralmente sem apresentarem um padrão estético e uniforme de criação visual.
As falas das torcidas organizadas também são relevantes na explicitação destes vínculos de sociabilidade estabelecidos. O comportamento verbal torna-se um fator de representação das torcidas organizadas nesta configuração social. Para Toledo (1996), a linguagem é um ritual partilhado de significações simbólicas através de cantos, músicas, gritos e hinos. Remetendo ao pensamento de FRANÇA (2006), pensamos estes instrumentos sonoros pertencentes aos rituais comunhados pelas torcidas, como construções simbólicas partilhadas entre “sujeitos interlocutores que falam um com outro, produzidos nos e pelos laços discursivos que os unem” (p.77). Compreendemos estes cantos, neste viés, como ritos de auto-afirmação do grupo surgidos para criar tramas de significações simbólicas, delimitando identidade e inserindo diferenças entre os torcedores organizados e os demais.
Adjacentes aos cantos comunhados, a Galoucura assim como outras torcidas organizadas possuem os seus “puxadores”, sujeitos que puxam e propagam os cantos pelos torcedores. Junto com a bateria, estes indivíduos marcam o ritmo específico dos coros. A cadência imposta pelo ritmo dos bumbos, tamborins, caixas (instrumentos que compõem a bateria) das torcidas organizadas é uma configuração simbólica inserida no ritual partilhado. Muitos destes cantos ecoam a probabilidade de conflito, outra canalização da rede de sociabilidade criada a partir das relações interativas entre os torcedores.
A violência expressa nestas interações verbais, especialmente entre torcedores rivais, muitas vezes são carregadas de expressões que negam o outro. Mauss (1979) discute tais expressões coletivas como manifestações naturais, construídas na coletividade grupal partilhada, no contato entres grupos distintos, pois segundo o autor, os gritos são como frases e entendimentos, “É preciso emiti-los, mas é preciso só porque todo o grupo os entende. É mais do que uma manifestação dos próprios sentimentos, é um modo de manifestá-lo aos outros, pois assim é preciso fazer”. (1979, p.153). Para se afirmarem, os torcedores organizados se reconhecem como constituintes de um grupo composto simbolicamente através das linguagens comuns configuradas e se diferenciam (no processo de auto-afirmação) dos demais torcedores através desta batalha verbal.
O objetivo deste trabalho buscava entender como a Torcida Organizada de Futebol, mais especificamente, a Galoucura, estabelece suas redes de sociabilidade através da configuração de sentidos partilhados entre os sujeitos nos espaços públicos urbanos. A reflexão proposta neste trabalho científico aponta que as interações sociais demarcadas na linguagem (do simbólico) podem demarcar projetos identitários visto que esta configuração em “massas” de interferência no cenário urbano sejam nas ruas, praças ou nos estádios, costura os sujeitos em grupos como a Galoucura no espectro de configurações sociais da contemporaneidade.
Toledo (1996) afirma ainda que estas práticas narrativas são legitimadas porque a subjetividade consciente de um Nós neste universo simbólico formatado, interfere na lógica cotidiana e rotineira da cidade pois ao assumirem preferências pelas cores, símbolos e marcas de cada torcida organizada, estes indivíduos referendam condutas específicas diante de outros grupos no cotidiano constituinte de sua vida social. Esta rede de sociabilidade canalizada pelo futebol impõe um sistema de diferenciações sempre aberto às negociações, sendo identidade uma relação social configurada pela ação comunicativa dos sujeitos na sociedade (Silva, 2000). O projeto de identidade coletiva configurado a partir das relações Nós X Eles, está no reconhecimento da diferença em processos de produção simbólica e discursiva.
Acreditamos que este conflito interativo entre os torcedores organizados pode ser alvo de futuros estudos que investiguem até que ponto as formas de transgressão e a violência observada possuem papéis instrumentais na constituição e coesão dessas torcidas organizadas. Quais são os fenômenos que surgem nas interações entre esses torcedores organizados que podem nos ajudar a pensar o fenômeno da violência nos estádios de futebol? Embora o enfoque deste artigo não tenha privilegiado, especificamente, a discussão sobre a violência engendrada nos eventos futebolísticos pelas torcidas organizadas, partilhamos da idéia de que o futebol é um provedor de padrões e formas de sociabilidade na cidade e conseqüentemente, tornando fonte de expressão para alguns comportamentos grupais constituintes das sociedades contemporâneas como tais conflitos, excessos, transgressões, colisões. A possibilidade do confronto no encontro entre duas torcidas organizadas rivais, seja este conflito verbal ou físico, é um elemento constitutivo na ocupação destes espaços públicos. Em suma, pensamos que estudos futuros poderão constatar que esta forma de sociabilidade impõe um fenômeno simbólico de sentido dual, ele sempre opõe/assemelha, une/separa, identifica/ diferencia, enfim, torna-se um fator de reconhecimento do coletivo, através do rito futebol.
1 Robert Ezra Park afirmou que “(...) A cidade é um estado de espírito, um corpo de costumes e tradições e dos sentimentos e atitudes organizados, inerentes a esses costumes e transmitidos por essa tradição. Em outras palavras, a cidade não é meramente um mecanismo físico e uma construção artificial. Esta, envolvida nos processos vitais das pessoas que a compõem; É um produto da natureza, e particularmente da natureza humana” (1967, p.26).
2 Toledo (1996, p.134) afirma que um dia de jogo pode ser pensado como um ritual de cisão simbólica e também como representação do embate entre as várias instâncias que assumem distintos papéis na sociedade, como por exemplo, os dirigentes, o aparato policial, os vendedores ambulantes, os próprios torcedores.
3 Este fenômeno de dramatização do futebol no contexto cultural brasileiro, de acordo com as idéias trabalhadas por Roberto Da Matta (1979) permite abordar a questão da integração social sob um outro viés analítico. O “drama brasileiro” consiste justamente na possibilidade de rompimento das hierarquias da ordem social cotidiana através da horizontalização dos sujeitos participantes do rito futebol redimensionando as representações sociais.
4 Segundo França, “a interação (...) é uma ação reciprocamente referenciada entre sujeitos dotados de linguagem e de uma inteligência reflexiva; é um processo móvel, baseado em escolhas e ajustamentos” (2006, p. 78).
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