Esfera pública virtual: debates públicos no Blog do Noblat

  • Resumo
  • Palavras-chave
  • Introdução
  • A INTERFACE ENTRE INTERNET E POLÍTICA
  • UM BREVE HISTÓRICO DOS BLOGS
  • NOTÍCIAS NA BLOGOSFERA: O BLOG DO NOBLAT
  • ESFERA PÚBLICA VIRTUAL: UM OLHAR SOBRE OS BLOGS
  • RACIONALIDADE E RECIPROCIDADE NO BLOG DO NOBLAT
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS
  • Referências bibliográficas

Kátia Fonseca Aguiar

Resumo

O presente ensaio tem por objetivo perceber as possíveis aproximações entre os debates ocorridos em ambientes virtuais e a noção de esfera pública descrita por Habermas. Com base em algumas das discussões sobre a interface entre democracia, esfera pública, deliberação e novas tecnologias, busca-se fazer uma análise do espaço de comentários do Blog do Noblat, com o intuito de encontrar semelhanças e dessemelhanças entre aqueles debates e a esfera pública habermasiana.

Palavras-chave:

Internet – Democracia – Blog – Esfera Pública

Introdução

O mundo atual passa por profundas transformações no que se refere à esfera do conhecimento, da informação e da comunicação. O desenvolvimento tecnológico se encontra no cerne dessa revolução e se reflete em mudanças significativas em todos os campos da sociedade. A internet é um elemento importante nesse cenário. Ela participa da transformação do modo como as pessoas se relacionam entre si, com o mundo e com o conhecimento.

Com grande potencial comunicativo e uma organização que privilegia a descentralização, a internet vem sendo apontada como o ambiente em que seria possível surgir e se desenvolver um novo tipo de democracia e de política. Termos como ciberpolítica, ciberdemocracia, e-democracy, democracia digital, entre outros, aparecem para tentar dar conta dessa nova realidade política marcada pelo uso das novas tecnologias (GOMES, 2005, p.02).

O presente trabalho pretende descrever um desses espaços em que se podem encontrar elementos que possibilitam uma discussão política: o Blog do jornalista Ricardo Noblat [2], bastante conhecido entre os internautas brasileiros, que foi inclusive premiado, em 2004, em um concurso internacional, como o melhor blog jornalístico em língua portuguesa.

Pretende-se observar como os leitores do blog discutem os assuntos ligados às eleições presidenciais, tentando perceber até que ponto os fluxos comunicativos que ocorrem neste espaço podem configurar uma esfera pública como a descrita por Habermas e outros autores. A intenção é observar como os leitores usam o espaço dos comentários para desenvolver argumentos e contra-argumentos em torno de temas políticos e em que sentido essa argumentação se aproxima ou não das características consideradas fundamentais na constituição da esfera pública, a saber, racionalidade, não-coerção, reciprocidade e universalidade.

A INTERFACE ENTRE INTERNET E POLÍTICA

Em meio às transformações sociais, culturais e políticas vividas na segunda metade do século XX e início do XXI, a idéia de democracia aparece como um tema central, especialmente depois das experiências totalitárias vividas na Europa em meados do século passado e que ameaçaram a paz mundial.

Autores como Chantal Mouffe (2005) e Marcos Nobre (2004), por exemplo, ressaltam a centralidade do tema e comentam uma certa euforia em torno do conceito de democracia. Mas, de acordo com David Held (1987), “a disputa sobre o significado contemporâneo de democracia gerou uma extraordinária diversidade de modelos democráticos” (HELD, 1987, p.241).

Na prática, é freqüente a adoção de um modelo de democracia assentado sobre as idéias de Joseph Shumpeter: o “modelo agregativo”. Para Shumpeter (1942), o desenvolvimento da democracia de massa fez surgir a necessidade de um modelo democrático embasado na agregação de preferências, organizadas em torno de partidos políticos em que as pessoas votam regularmente. Desta forma, a democracia seria entendida como “o sistema no qual as pessoas teriam a oportunidade de aceitar ou rejeitar seus líderes graças a um processo eleitoral competitivo” (MOUFFE, 2005, p.12).

Não é difícil perceber que as instituições políticas contemporâneas, embasadas neste modelo, vivem um momento de crise. Wilson Gomes (2005) atribui essa crise a dois elementos em especial: ausência da participação política dos cidadãos nos processos decisórios e separação nítida e seca entre esfera civil e esfera política. Assim, fica prejudicada a idéia central da democracia entendida como governo do povo, com o povo e para o povo.

Nesse cenário, surgem propostas de modelos alternativos de democracia. Um desses modelos, que vem ganhando espaço nos últimos anos, é o de democracia deliberativa, cujo ponto central é a idéia de que “as decisões afetando o bem-estar de uma coletividade devem ser o resultado de um procedimento de deliberação livre e razoável entre cidadãos considerados iguais moral e politicamente” (BENHABIB apud MAIA, 2004, p.09).

Esta não é uma idéia totalmente nova, posto que já acompanha a noção de democracia desde a Grécia Antiga. Mas, as configurações comunicacionais contemporâneas, em especial com as novas tecnologias da comunicação e da informação, acabam por trazer elementos novos para a idéia de deliberação pública. Esta proposta encontra na internet um espaço promissor, já que o ambiente digital poderia facilitar e agilizar a participação civil nos processos decisórios, possibilitar uma relação sem intermediários entre esfera civil e esfera política e, ainda, permitir que o cidadão deixasse de ser um mero consumidor de informação política, passando a participar também do processo de produção dessas informações (GOMES, 2005, p.05).

Mas, mesmo os mais utópicos e otimistas em relação à utilização da internet como ferramenta para a implementação de uma democracia deliberativa virtual percebem que apenas a disponibilização de dispositivos tecnológicos não é suficiente para garantir o pleno desenvolvimento de uma democracia virtual.

A verdadeira democracia eletrônica consiste em encorajar, tanto quanto possível – graças às possibilidades de comunicação interativa e coletiva oferecidas pelo ciberespaço –, a expressão e a elaboração dos problemas da cidade pelos próprios cidadãos, a auto-organização das comunidades locais, a participação nas deliberações por parte dos grupos diretamente afetados pelas decisões, a transparência das políticas públicas e sua avaliação pelos cidadãos (LÉVY, 1999, p.186).

Encorajar os cidadãos a participar e a vencer a apatia política, no entanto, parece ser um desafio crucial enfrentado pela democracia digital. Mas, essa não é a única questão a ser levada em conta. Outro aspecto que deve ser destacado é o da exclusão digital. Em um país em que os índices de analfabetismo e pobreza são altos, a democratização do acesso às tecnologias digitais ainda engatinha e isso significa um enorme contingente de cidadãos que não dispõem desses dispositivos para participarem da vida política.

Há ainda que se considerar que, como se trata de um meio relativamente novo, os efeitos das discussões via rede ainda são pouco eficazes, ou produzem pouco efeito junto à esfera política. Nesse sentido,

é mais fácil identificar deliberação na comunicação mediada por computador, entendendo-a como debate ou entendendo-a como produção de decisão argumentada e discutida, do que indicar como tal deliberação precisamente produza algum efeito na produção da decisão política que conta no interior do Estado (GOMES, 2005, p.7).

Desta forma, a esfera pública que se forma num ambiente virtual deve ser entendida como um espaço de “conversação civil (...) destinado à formação complementar de opiniões” (MARQUES, 2006, p.164). E é justamente no âmbito da discussão política ou da conversação civil que se encontram as principais ferramentas ou dispositivos comunicacionais que podem favorecer a formação de uma esfera pública virtual, tais como os blogs, por exemplo.

UM BREVE HISTÓRICO DOS BLOGS

Os blogs são um fenômeno comunicacional relativamente recente. São páginas pessoais que começaram a surgir na primeira metade da década de 1990 e ganham cada vez mais adeptos por todo o mundo. A expressão blog [3] é uma abreviação de weblog que, por sua vez, vem da junção de duas palavras em inglês: web (forma simplificada de se referir à world wide web), que significa rede, e log, que significa registro. Assim, weblogs ou blogs são uma espécie de registro na web.

São páginas que podem ser facilmente identificados na rede em função de dois elementos bastante marcantes: em primeiro lugar, por sua estrutura, determinada por blocos de conteúdo textual ou imagético permanentemente renovados e, em segundo, pela organização cronológica de seus textos ou posts. Os blocos de informações mais recentes aparecem sempre no alto da página (OLIVEIRA, 2003).

Os primeiros blogueiros eram entusiastas da informática, que conheciam bem os códigos e linguagens de programação. Com o surgimento de novas ferramentas de criação e manutenção, a partir de 1999, o processo se simplificou bastante, permitindo que pessoas sem conhecimentos específicos pudessem criar e manter páginas pessoais na rede. O número de páginas desse tipo cresceu, então, vertiginosamente. Segundo um site especializado em monitorar blogs brasileiros[4] , existem atualmente aproximadamente de 122 mil blogs ativos e cerca de 30 novas páginas são criadas no país todos os dias [5].

Ao lado da facilidade de criação e manutenção das páginas, os recursos interativos que possibilitam a participação dos leitores através de comentários, são os principais ingredientes que contribuem para o sucesso dessas páginas e para a constante ampliação de suas formas de utilização.

Embora as primeiras páginas desse tipo tenham sido pensadas como guias de navegação ou mesmo como espaços de auto-exposição do autor, muitas delas começam a ocupar novos lugares, sendo utilizadas para outros fins. Política, educação, saúde, jornalismo, enfim, são muitas as apropriações possíveis deste dispositivo comunicacional.

Um exemplo de blog que serve tanto para a divulgação de notícias quanto para o debate público sobre política é a página do jornalista Ricardo Noblat (colunista do jornal O Estado de São Paulo), especializado em cobertura da política nacional e que, além de informações com pinceladas de opiniões do autor traz, ainda, espaços em que os leitores/usuários são convidados a participarem e debaterem os textos.

NOTÍCIAS NA BLOGOSFERA: O BLOG DO NOBLAT

Depois de passar por importantes veículos impressos do país, como as revistas Veja e Istoé, Jornal do Brasil e Correio Brasiliense, Ricardo Noblat migrou para a web. O Blog do Noblat está no ar desde março de 2004, fazendo a cobertura dos bastidores da política brasileira.

A web-estréia do jornalista aconteceu em função de uma coluna semanal mantida no jornal O Dia. “Como notícias cavadas no início da semana acabavam envelhecendo antes que a semana terminasse” (NOBLAT, 2005), um amigo sugeriu a criação de um blog para que os textos fossem atualizados constantemente. Assim, o jornalista poderia usufruir a possibilidade de realizar atualizações contínuas em seus textos.

Nem todos os textos, no entanto, são de autoria de Noblat. Muitos deles são retirados de jornais e revistas de circulação nacional. Embora seja um jornalista profissional e, portanto, utilize uma linguagem jornalística, os textos do blogueiro são marcados também pela ironia e pela explicitação da opinião do autor, fugindo um pouco da tradição do jornalismo convencional, em que a opinião tende a ser velada.

Diferentemente de outros blogs, de pessoas anônimas, o Blog do Noblat já nasceu com um forte vínculo com a grande mídia. Hospedado inicialmente no portal IG [6], o blog hoje está vinculado ao jornal O Estado de São Paulo [7]. Obviamente, o fato de estar hospedado no portal de um grande jornal de circulação nacional e de ser escrito por um jornalista renomado e experiente contribui para que o blog seja um dos mais acessados, tornando-se uma referência em termos de jornalismo alternativo. Mas, o sucesso da página parece estar mais ligado à possibilidade de participação dos leitores, à abertura para a expressão de opinião e ao ambiente de debate político nele presentes.

ESFERA PÚBLICA VIRTUAL: UM OLHAR SOBRE OS BLOGS

Às vésperas da eleição presidencial, num período marcado por denúncias de corrupção, as discussões sobre política chamam ainda mais a atenção. O rádio, a TV, os jornais e revistas, a internet, enfim, todas as mídias abordam temas ligados às eleições. Em um blog especializado em cobertura política, obviamente, esses assuntos não se limitam ao período eleitoral, mas, ainda assim, a atividade se intensifica. Aumentam os números de textos postados e de comentários. E os ânimos se acirram.

Os blogs, para Catarina Rodrigues, “impulsionam a formação de novos espaços de debate e discussão, o que em determinados pontos faz lembrar algumas idéias defendidas por Jürgen Habermas, apesar das situações, até pelo seu contexto histórico, serem completamente diferentes” (RODRIGUES, 2006, p.15).

Vale ressaltar que o que interessa, neste texto, não são os blogs em si, mas as discussões políticas que neles se processam, até porque, quando se fala em esfera pública não está se falando em arenas específicas de conversação ou em locais físicos em que essas discussões se processam, embora a confusão entre a discussão e o lugar em que a discussão ocorre seja relativamente comum. Tratando desta confusão, Gomes ressalta que “Öffentlichkeit [8] é a condição a que se submetem as coisas tratadas na praça e no terreiro (...) A esfera pública não é um terreiro ou uma praça onde se conversa sobre os negócios do Estado e do interesse civil, mas é a própria conversa ou debate que aí se processam” (GOMES, 2006, p. 54-55).

Nos blogs, prevalece um ambiente de interlocução, de troca de informações e de opiniões. Para Rodrigues (2006, p.25), “os blogs vêm permitir algo novo, algo que os media de massas não podiam dar, pelo menos com total plenitude: a possibilidade de cada um dar sua opinião sobre um determinado assunto”.

Essa abertura à participação, ao menos potencial, de todos remete ao princípio da universalidade ou da inclusividade descrito por Habermas e outros autores como elemento constituinte da esfera pública que, segundo Rousiley Maia (2001), pode ser descrita como o “locus da discussão que potencialmente engaja a todos” (MAIA, 2001, p.05).

Embora o acesso ao espaço dos comentários seja livre, não se pode deixar de considerar a questão da inclusão/exclusão digital. Essa liberdade pressupõe que todos tenham acesso ao aparato tecnológico e habilidade suficiente para acessar e utilizar a ferramenta, o que efetivamente não ocorre, especialmente em um país com tantas disparidades sociais, como o Brasil.

O blog parece garantir ainda, ao menos teoricamente, o princípio da não-coerção, permitindo a efetiva participação de todos, desconsiderando qualquer forma de poder que não a do melhor argumento. No espaço de comentários do Blog do Noblat, os leitores são protegidos por um anonimato, que os livra de quaisquer constrangimentos. Todos se sentem suficientemente livres para falar o que pensam.

Este anonimato contribui para estabelecer uma condição mais paritária de participação no debate, já que as desigualdades do mundo real (...) sofrem um certo apagamento (...) Se a discussão acontece em um ambiente livre de medo, de intimidação e da possibilidade do ridículo, uma variedade maior de pontos de vista pode ser expressa (MAIA, 2002, p.55).

Por outro lado, se o anonimato garante uma participação livre de coerções e constrangimentos, ele também pode ser um “reforço considerável para conteúdos e práticas tirânicas, racistas, discriminatórias e anti-democráticas” (GOMES, 2005, p.09). Protegidos por apelidos, os usuários podem – e muitas vezes o fazem – lançar ofensas aos colegas de debate e/ou a pessoas, partidos políticos e entidades sem, contudo, poderem ser responsabilizados pelo que dizem.

Vale salientar, ainda, que qualquer situação de discurso, invariavelmente, implica alguma assimetria comunicacional, mesmo que não haja nenhum tipo de coerção explícita. Questões de ordem psicológica, cultural, intelectual, social, educacional e econômica acabam por interferir na relação que se estabelece discursivamente nestes espaços.

Ainda assim, a possibilidade de ampla participação e o apagamento das desigualdades sociais garantem, ao menos em tese, que os blogs atendam aos princípios de universalidade e não-coerção. Pretende-se, na próxima seção, a partir dos fragmentos selecionados no Blog do Noblat, verificar se as discussões que acontecem no espaço dos comentários do blog atendem também aos princípios da racionalidade e da reciprocidade.

RACIONALIDADE E RECIPROCIDADE NO BLOG DO NOBLAT

O número de posts e de comentários disponibilizados no blog ao longo do período eleitoral foi bastante significativo. Seria inviável proceder a uma análise de todos eles e, portanto, foi feito um recorte. Foram escolhidos quatro textos do jornalista e os comentários feitos a eles: dois referentes aos debates entre os candidatos à presidência realizados pela TV Globo no primeiro [9] e segundo [10] turno e os outros dois que apresentavam os resultados da votação no primeiro [11] e no segundo turno [12].

Ainda assim, o número de comentários relativos a estes quatro posts é grande. Foram, no total, 621 comentários. Nem todos serão analisados detidamente, embora todos tenham sido lidos e contribuam para a proposta do trabalho. Alguns textos, no entanto, serão reproduzidos adiante como exemplos de como as discussões sobre política acontecem nesse espaço.

O próprio jornalista comenta que nem sempre os debates ocorridos em seu blog são modelos de argumentação e de discussão séria. Em alguns momentos, segundo Noblat (2005, p.03), as discussões que acontecem no espaço dos comentários mais parecem um “diálogo de surdos” em que todos falam e ninguém parece disposto a ouvir. Ainda assim, há certos momentos em que se pode observar uma real troca argumentativa, um bate-rebate de idéias racionalmente embasadas, mesmo que expressas através de ironias, deboches e piadas.

Exemplo de um momento em que prevaleceu um diálogo mais próximo e mais recíproco foi dado quando o jornalista postou o resultado das votações do primeiro turno. Depois de várias horas em que ora os tucanos exultavam o resultado das urnas, ora petistas desafiavam os adversários, dois leitores travaram uma discussão relativamente longa, com argumentação mais consistente e respeitosa, embora sem abrir mão da ironia que é uma peculiaridade neste tipo de comunicação. Embora adversários, ‘Jamanta Sabe’ e ‘Chico Amaro’ discutiram amigavelmente – sem ofensas e sem muitas ironias – o resultado das urnas e fizeram projeções sobre o segundo turno.

Tentando minimizar o clima de euforia que tomava conta dos comentários, Chico Amaro pergunta: “Poxa vida, o Geraldo ganhou no primeiro turno e eu não fiquei sabendo? Alguém me explica o que está acontecendo? Pelo que eu entendi, ainda haverá segundo turno, e o Lula mantém a vantagem. Alguma coisa mudou na lei eleitoral?”. Ao que Jamanta Sabe responde: “Jamanta dá um toque: o segundo turno começa com empate técnico. FHC estourou uma champanhe: é o único presidente brasileiro eleito duas vezes consecutivas no primeiro turno. Isso não é pouco. Jamanta acha que não é”.

Em seguida, eles entram numa discussão sobre o destino dos votos dados pelos eleitores à candidata Heloisa Helena. Para Chico Amaro, Lula herdaria esses votos: “O Chico não sabe, mas desconfia: os eleitores de Heloísa Helena não votam em Geraldo de jeito nenhum, votam no Lula. Basta metade deles para o Lula ganhar no segundo turno. Isso, é claro, se não houver nenhum "fato novo"...” . Enquanto isso, Jamanta Sabe defendia que os votos da candidata iriam para Geraldo Alckmin: “Jamanta discorda. De jeito nenhum é muito radical. Aqueles que votaram em Lula "porque ia ter a maior vitória da história" será que repetem o voto? Aqueles que terão o governador Serra e o Governador Aécio a incentivar o voto em Geraldo votarão em Lula? Jamanta garante, mas desconfia.”

O diálogo entre eles (parcialmente reproduzido aqui) exemplifica a possibilidade de se estabelecer, num ambiente virtual, um debate sério, embasado em argumentação crítica e respeitosa, mesmo que irônica e bem-humorada, em que os parceiros se enfrentam de forma limpa e amigável, firmando um vínculo racional e recíproco.

Embora seja ilustrativo, o diálogo descrito entre ‘Jamanta Sabe’ e ‘Chico Amaro’ não parece ser a regra no espaço de discussão do blog. Na maior parte do tempo cada um apenas diz o que pensa sobre o assunto, sem se importar com o que os demais debatedores comentam. Em momentos assim, o blog parece, mesmo, o “diálogo de surdos” a que o próprio Noblat se refere. A idéia de uma argumentação racional e organizada se perde em momentos assim.

Se todos falam e ninguém ouve, temos o resultado semelhante ao de uma Torre de Babel (...) A prática argumentativa, o dizer e contra-dizer com vistas a resolver discursivamente (“por razões”) impasses ou diferenças de pontos de vista, é relativamente reduzida se comparada com outras modalidades de comunicação (MAIA, 2001, p.08).

Embora em certos casos possa ser percebida, a reciprocidade, não parece ser o forte deste tipo de debate. A maior parte dos comentaristas se limita a emitir sua opinião sem se preocupar em ouvir a opinião do outro, como acontece, por exemplo, na discussão em torno do debate entre os candidatos ao segundo turno, realizado pela Rede Globo. Foram mais de 300 comentários. Alguns defendendo que Lula havia se saído melhor e outros alardeando a vitória de Alckmin no debate. Segundo o leitor que se auto-denomina ‘BóiaSecret’, por exemplo, “Lulla tava com cara de 'ué'...rs Geraldo arrasou!!!”. Enquanto isso, o leitor ‘fabiolycos’ parabeniza o presidente-candidato: “Parabéns Presidente Lula. Show de Bola, nem precisava ter sido tão bom. E Lula de novo com a força do POVO!”.

Obviamente, em certos casos, é possível perceber, sim, uma genuína troca de argumentos, mas isso, ao menos com base nos textos analisados, parece ocorrer apenas raramente. Embora alguns argumentos sejam, sim, construídos racionalmente, este também não parece ser um ponto forte nesse tipo de ambiente. Os leitores parecem estar mais interessados em expor suas idéias, em mostrar suas paixões do que, propriamente em empreender um debate com vistas a alcançar um objetivo comum. Provocações, ofensas, ironias acabam substituindo uma argumentação mais consistente.

Ainda assim, esse tipo de discussão, mesmo não se baseando em argumentação sólida, pode gerar uma mudança posterior de posição, uma reavaliação da própria postura. Até porque, como salienta Maia (2001, p. 09), “o processo de reavaliação de nossas próprias posições ocorre, com maior freqüência, nos intervalos entre as conversações, do que propriamente nas conversações”.

Nesse sentido, a esfera pública virtual que se forma no Blog do Noblat pode ser entendida como um espaço de conversação civil, “um complemento para uma melhor formação cívica, como um lugar de debates de naturezas distintas (uns mais sérios, outros nem tanto)” (MARQUES, 2006, p. 172).

Considerações finais

Apesar de haver uma certa euforia em torno das potencialidades democráticas das novas tecnologias da comunicação e informação, fato é que, conforme diversos autores vêm alertando, apenas a disponibilização de aparato tecnológico que permite a troca de informações é insuficiente para garantir um maior desenvolvimento da democracia.

Embora a internet se constitua de um ambiente propício para a troca informacional e para o estabelecimento de diálogos mediados, ela é apenas um meio de comunicação, um mecanismo a mais para permitir que conversações ocorram. Mas, a mera existência da internet não garante a existência de uma esfera pública virtual.

Isso não significa, contudo, dizer que não seja possível o desenvolvimento de debates políticos em ambientes virtuais. Ao contrário, diversos ambientes digitais abrigam, sim, discussões políticas relevantes. O que deve ser ressaltado, contudo, é que o que faz com que os debates realizados em ambiente digital configurem uma esfera pública virtual não é a tecnologia, a ferramenta utilizada ou o maquinário disponível. É, sim, a disposição dos usuários em empreender um diálogo racional, com vistas a fazer emergir uma opinião compartilhada.

Analisando o espaço de comentários do Blog do Noblat, é possível perceber elementos que permitem entender as discussões que ali acontecem como elementos de uma esfera pública virtual. Mas, isso depende muito mais do ânimo e do interesse dos próprios comentaristas-debatedores que do próprio blog ou do blogueiro.

Em alguns momentos, os comentários assumem aspectos de esfera pública, com o desenvolvimento de uma argumentação consistente em torno de temas políticos. Em outros, no entanto, as discussões fazem mesmo lembrar o “diálogo de surdos” que Noblat (2005) comenta ou a “Torre de Babel”, lembrada por Maia (2001). Todos falam e ninguém ouve. De uma situação assim, dificilmente poderia emergir algo que fizesse lembrar a esfera pública habermasiana.

Vale ressaltar que o presente trabalho foi apenas uma tentativa de entender as possíveis aproximações entre os debates travados no Blog do Noblat e a descrição da esfera pública política feita por Habermas. Não havia a intenção de apresentar uma visão conclusiva sobre o tema, até porque, como o ambiente virtual muda constantemente, dificilmente se poderá chegar a alguma conclusão definitiva nesse âmbito, o que não invalida as discussões a respeito. Ao contrário, o caráter mutante das novas tecnologias da comunicação fascina, encanta, desafia. Assim como é um desafio transpor as idéias de Habermas para este ambiente mutante.

Notas

1 Trabalho apresentado como requisito para a obtenção do título de especialista em Comunicação: Imagens e Culturas Midiáticas pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Com orientação do Prof. Ricardo Fabrino Mendonça.

2 Uma descrição mais detalhada do Blog do Noblat será feita mais adiante.

3 Blog: o termo, cunhado pelo norte-americano Jorn Barger em 1997, foi inserido em 2003 no dicionário Oxford da língua inglesa.

4 http://www.blogblogs.com.br

5 Dados de 16 de dezembro de 2006.

6 http://www.ig.com.br

7 http://www.estadao.com.br

8 O termo Öffentlichkeit é usado por Habermas em seu texto original, em alemão, e traduzido para o francês como Espace Publique, para o italiano como Publicitá e para o inglês como Public Sphere, que foi transposto para o português como Esfera Pública.

9 Post intitulado: Debate - Balanço final. Publicado no dia 29/09/06. Disponível em: <http://noblat1.estadao.com.br/noblat/visualizar
Conteudo.do?metodo=exibirPosts&data=29/09/2006#post2618
>. Acesso em: 23 nov 2006.

10 Post intitulado: Debate - Alckmin se deu bem. Publicado no dia 28/10/06. Disponível em: <http://noblat1.estadao.com.br/noblat/visualizar
Conteudo.do?metodo=exibirPosts&data=28/10/2006#post27579
. Acesso em: 23 nov 2006.

11 Post intitulado: Apuração – Presidente. Publicado no dia 01/10/06. Disponível em: <http://noblat1.estadao.com.br/noblat/visualizar
Conteudo.do?metodo=exibirPosts&data=01/10/2006#post2639
>. Acesso em: 23 nov 2006.

12 Post intitulado: 99,61% das urnas apuradas. Publicado no dia 29/10/06. Disponível em: <http://noblat1.estadao.com.br/noblat/visualizar
Conteudo.do?metodo=exibirPosts&data=29/10/2006#post2778
>. Acesso em: 23 nov 2006.

Referências bibliográficas

GOMES, Wilson. A democracia digital e o problema da participação civil na política. Texto apresentado no XIV Encontro Anual da Compós, realizado em Niterói/UFF, em 2005.

______________. Apontamentos sobre o conceito de esfera pública política. In: MAIA, Rousiley; CASTRO, Maria Ceres Pimenta Spínola (orgs). Mídia, esfera pública e identidades coletivas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

HELD, David. O que democracia deveria significar hoje? In: Modelos de democracia. Belo Horizonte: Paidéia, 1987.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

MAIA, Rousiley. Redes cívicas e internet: do ambiente denso às condições da deliberação pública. In: EISENBERG, José, CEPIK, Marco (orgs). Internet e Política: teoria e prática da democracia eletrônica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

_____________. Democracia e a Internet como esfera pública virtual: aproximando as condições do discurso e da deliberação. Texto apresentado no X Encontro Anual da Compós, realizado em Brasília/UNB, em 2001.

_____________. Dos dilemas da visibilidade midiática para a deliberação pública. In: LEMOS, André et al. Mídia.BR. Porto Alegre: Sulina, 2004.

MARQUES, Francisco P. Jamil A. Debates políticos na internet: a perspectiva da conversação civil. Opinião Pública. abr/maio, 2006. v. 12, n. 1, p. 164-187.

MOUFFE, Chantal. Por um modelo agonístico de democracia. In: Revista de Sociologia Política. Nov 2005. n. 25, p. 11-23.

NOBLAT, Ricardo. O que um blog pode ensinar. In: Observatório da Imprensa. 01 fev 2005. Disponível em:<http://200.212.93.30/uploadNoblat/up
load/40624649_1055467b1f8_-7ff4.doc
>. Acesso em: 27 nov 2006.

NOBRE, Marcos. Participação e deliberação na teoria democrática. In: COELHO, Vera S. P.; NOBRE, Marcos. Participação e deliberação: teoria democrática e experiências institucionais no Brasil contemporâneo. São Paulo: Editora 34, 2004.

OLIVEIRA, Rosa Meire Carvalho de. De onda em onda: a evolução dos ciberdiários e a simplificação das interfaces. In: Biblioteca Online de Ciências da Comunicação. 2003. Disponível em: <http://www.bocc.ubi.pt/pag/oliveira-rosa-meire-De-onda-onda.pdf>. Acesso em: 27 nov 2006.

RODRIGUES, Catarina. Blogs e a fragmentação do espaço público. Covilhã (Portugal): Universidade Beira do Interior, 2006.

SCHUMPETER, Joseph. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1942.