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Colóquio e encontro de trabalho do GT de estética da ANPOF na PUC-RS, em Porto Alegre, de 19 a 21 de junho de 2002
Reflexividade, compreensão e historicidade no conceito de público teatral na estética de HegelMarco Aurélio Werle (Depto. de Filosofia da UNESP) Por meio da análise que Hegel, em seus Cursos de estética, faz do teatro moderno, particularmente da relação deste com materiais históricos, pretende-se apontar para a dimensão histórica, reflexiva e compreensiva presente no conceito de público teatral. Esta dimensão permite pensar a estética de Hegel segundo uma nova perspectiva, menos como um sistema que apenas reconstitui especulativamente a história da arte, de um ponto de vista único e exterior, e mais como um pensamento atento ao caráter essencialmente intersubjetivo da arte (moderna). O teatro moderno tem de fazer frente tanto a seu tempo como lidar com o passado e, além disso, satisfazer o espectador, a fim de que ocorra a compreensão. Este aspecto não se punha no teatro antigo, no qual o interesse essencial não era a subjetividade, e sim o elemento ético, que por si só conduzia a uma ressonância com o público. Uma Discussão sobre a Relação entre Filosofia e Poesia a partir da Análise de um Diálogo Crítico entre as Filosofias da Arte de Hegel e de SchellingMarcia Gonçalves (Depto. de Filosofia da UERJ) Interessa-me discutir a relação entre filosofia e literatura, focalizando, na esfera
do que chamamos de produção literária, sua dimensão exclusivamente poética, e então
promover uma reflexão sobre a possibilidade de pensar esta dimensão - por um lado em seu
aspecto formal, ou seja, como forma da linguagem poética, e por outro lado, em seu
aspecto material, ou seja, como A independência individual em Grande Sertão: VeredasRodrigo Duarte (Depto. de Filosofia da UFMG) Em suas Preleções sobre a estética, Hegel chamava a atenção para o fato de que a Antigüidade clássica especialmente grega continuava sendo de vital importância para a consciência estética até a sua época, principalmente em virtude de um conteúdo ético específico de sua arte, o qual se perdeu em virtude de um percurso na civilização ocidental que privilegiou crescentemente o papel das instituições nas tomadas de decisão de natureza moral, em detrimento de uma ação e reflexão autônomas do sujeito. De certa maneira, a situação incerta da arte em geral é, para Hegel, uma decorrência do fato de que as produções modernas dignas de nota, de algum modo têm que se reportar ao que ele chama de "independência individual" a autonomia ética do indivíduo vivendo numa sociedade ainda não completamente regulamentada como a moderna. O objeto dessa comunicação é mostrar em que medida o mundo descrito em Grande sertão: veredas corresponde à situação axiológica de "independência individual" dos agentes e a expressão literária de Guimarães Rosa pode ser vista como uma incorporação do princípio hegeliano do "anacronismo" da arte, transposta, entretanto, para um contexto propício à sua transfiguração pela linguagem do modernismo. As formas literárias da filosofiaJeanne Marie Gagnebin (Instituto de letras da UNICAMP/Depto. de Filosofia da PUC-SP) Gostaria de adentrar na problemática "Filosofia/Literatura" a partir de um recorte mais preciso, proposto pela coletânea preciosa, intitulada Literarische Formen der Philosophie, organizada por Gottfried Gabriel e Christiane Schildknecht (Metzler, 1990). O tema "formas literárias da filosofia" tem a vantagem de não colocar uma questão normativa a respeito das diferenças e dos domínios específicos da literatura e da filosofia, mas de suscitar uma auto-reflexão sobre as diversas formas literárias (no sentido amplo, defendido pelo Romantismo Alemão, do conceito de literatura) que caracterizam o discurso filosófico. A hipótese de príncipio consiste em afirmar que tais formas não são indiferentes ou exteriores aos enunciados filosóficos, mas, enquanto formas de exposição ou de apresentação (Darstellung), participam inseparavelmente da transmissão de conhecimento ou da busca de verdaade que visa o texto filosófico. Negligenciar estas formas, afirmando que são um aspecto "meramente retôrico" do discurso filosófico não consiste só em aceitar, de maneira acrítica, a discrepância entre "forma" e "conteúdo", mas também em incorrer em vários erros de interpretação (por exemplo, quando se lê os Diálogos de Platão como se formassem um Sistema). O movimento auto-reflexivo da filosofia sobre seu carater de linguagem (sprachlich), isto é também sobre sua forma literária, permite, em termos de história da filosofia, uma leitura renovada, mais atenta à singularidade dos textos. G. Gabriel dá o exemplo do texto da "prova ontológica"; quando se lembra que o texto de Anselmo é um tipo de oração (proslogion), o caráter de prova (onto)lógica passa a ter um outro peso, pois tratar-se-ia aqui muito mais de confirmar a própria fé do que de provar logicamente a necessidade da existência de Deus. Poderiamos também dizer que ler o Zaratustra de Nietzsche como um poema teatral , com indicações de ritmo e de palco, suscita uma outra compreensão da função dos animais ou do além-do-homem. Sem falar de todos mal-entendidos oriundos de uma leitura que torna o Tractatus de Wittgenstein um manual de epistemologia ou as Teses de Benjamin umas lições de filosofia da história. Mas a auto-reflexão da filosofia sobre sua "literalidade" não traz só proveitos metodológicos ou hermenêuticos. Mais fundamentalmente, ela remete a três conjuntos de questões que sempre acompanharam a filosofia desde sua origem em Platão, enquanto gênero discursivo diferente de outros gêneros e a filosofia de Platão pode ser tomada como campo privilegiado dessas questões. Primeiro, o fato de se tratar, em filosofia, não só de linguagem, mas mais precisamente de textos escritos: isto é toda reflexão sobre oralidade e escritura, sobre transmissão oral da sabedoria e codificação escrita (ver, em relação a Platão, todo debate sobre a "condenação da escrita" e sobre "as doutrinas não-escritas"). Segundo, o fato que a multiplicidade de formas literárias em textos filosóficos também remete á separação entre uma filosofia ligada ao ensino, da Academia de Platão até a universidade de hoje, uma Schulphilosophie mais erudita e técnica, e uma filosofia entendida como exercício de meditação ou de atenção, como tomada de posição e como prática teórica, como Weltphilosophie. Enfim, em terceiro lugar, a multiplicidade destas formas também traduz as diferentes tentativas de abordar aquilo que excede a linguagem discursiva (logos), aquilo que a transcende, aquilo que não pode ser dito, seja este algo chamado de Verdade, de Deus, de Real, ou, ainda da relação entre linguagem e mundo. Em outras palavras, a reflexão sobre as formas literárias da filosofia também significa uma reflexão crítica sobre os seus limites. Ensaísmo e ceticismo em MontaigneRicardo Barbosa ( Depto. de Filosofia da UERJ) O trabalho apresenta o ensaísmo de Montaigne como expressão do seu ceticismo e sua forma de exposição adequada. O ensaio é visto então como a experiência de uma atitude e de uma disciplina que lhe corresponde: a da cultura de uma subjetividade que se constitui e se apresenta na unidade de "objeto" (a "passagem" do ser) e "método" (a transição, por analogia, do individual ao universal, do micro ao macro). Esta unidade resulta num estilo poroso, no qual a prosa artística, a prosa conceitual e a narrativa tornam-se permeáveis umas às outras, prefigurando assim o que séculos depois seria explicitamente reivindicado pelo jovem Lukács: a autonomia do ensaio como forma.A presença de Nietzsche na crítica literária brasileiraRosa Dias (Depto. de Filosofia da UERJ) O objetivo da comunicação será investigar a presença de Nietzsche na crítica literária brasileira no início do século XX. Procuraremos destacar os temas e os conceitos que essa crítica privilegia e procurar reconstruir a influência da obra de Nietzsche no panorama literário brasileiro a partir de ensaios de João Ribeiro, José Veríssimo, Tristão da Cunha, Araripe Júnior, Alberto Ramos, Monteiro Lobato e Antonio Cândido. Tragédia Grega e Estética kantianaPedro Costa Rego (Depto. de Filosofia da UFPR) O tema da presente comunicação é a Tragédia Grega pensada a partir
da teoria kantiana do gosto na Crítica da Faculdade do Juízo. Desde a interpretação
schilleriana da Estética de Kant, muita literatura se produziu com o fim de
analisar e iluminar os clássicos conflitos trágicos com os instrumentos conceituais
daquela parte da terceira Crítica que trata do sublime. A aposta deste trabalho é a de
que a Analítica do Belo é mais apropriada para lançar uma luz sobre o fenômeno do
trágico grego do que a Analítica do Sublime. Para mostrar isso, procederemos, em
primeiro lugar, a uma caracterização arriscadamente sintética dos traços essenciais do
trágico Verlaine Freitas (Depto. de Filosofia da UFOP) Pretende-se analisar as tragédias de Ésquilo e de Sófocles como uma elaboração simbólica que se nutre da elaboração homérica dos mitos e que assinala as tensões políticas que emergem da democracia ática. O ponto de apoio principal da análise será o contraponto da noção de destino mítico e de espaço da liberdade política, que será abordado a partir da idéia de abstração por que passa a linguagem e os produtos do pensamento em geral, tomada por nós como conceito fundamental para a emergência do que virá a ser, na modernidade, a subjetividade. O trabalho consistirá em mostrar como o caráter intermediário no processo de elaboração do pensamento abstrato (entre a epopéia e a filosofia) confere a peculiaridade à tragédia. A dedirrósea prole de UlissesVirginia Figueiredo (Depto. de Filosofia da UFMG) Esse trabalho tentará abordar o Livro IX da Odisséia à luz das teses contidas no ensaio de Heidegger sobre "A questão da técnica". Limbo, o morno hálito dos dias e o caminho para Timbuktu: uma leitura filosófica de Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu e Timbuktu, de Paul AusterRicardo Timm de Souza (Depto. de Filosofia da PUC-RS) Este estudo desenvolve, em um estilo que se poderia eventualmente chamar de fenomenológico-dialético, uma leitura filosófica das obras Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu, e Timbuktu, de Paul Auster, objetivando caracterizar as dimensões de abertura a novas estruturas de sentido propiciadas pela construção de suas linguagens e temas e pelas respectivas dimensões interpretativas que deles brotam, e que se evidenciam em contraposição a modelos filosófico-interpretativos de tendência "analítico-reducionista". Trata-se, em última análise, de um estudo sobre algumas dimensões possíveis de mútua sensibilização aqui entendida como frutificação dialogal possível entre a literatura e a filosofia como tais.Borges e Berkeley: a relação entre percepção e criação de uma subjetividadeHoracio L. Martínez (Depto. de Filosofia da UNIOESTE-PR) Jorge Luis Borges afirmou uma vez que utilizava as teses do idealismo (referindo-se à obra de Berkeley e Schopenhauer) como recurso literário. Esse recurso é evidente em contos como "As ruínas circulares" ou "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius".Nossa leitura tentará demonstrar que a identidade entre ser e percepção postulada por Berkeley serve a Borges para a construção de uma subjetividade de caráter literário. A leitura entre a filosofia e a literatura: o caso Swedenborg entre Kant e BorgesDaniel Omar Perez (Depto. de filosofia da Unioeste-PR)O trabalho tem como objetivo apresentar comparativamente duas leituras possíveis de um "mesmo" texto. Tanto na leitura "filosófica" de Kant, quanto na leitura "literária" de Borges procura-se reconstituir o sentido do texto de Swedenborg. Swedenborg lido por Kant aparece como sem qualquer sentido cognitivo, e por isso passível de crítica. O texto kantiano Sonhos de um visionário... mostra o exercício de um verdadeiro "filósofo da linguagem", na busca de procedimentos de significação a leitura se articula a partir de uma análise semântica do conceito de espírito. Entretanto, Swedenborg lido por Borges aparece explodindo sentidos, e por isso passível de elogios. O texto de Swedenborg se apresenta no texto de Borges como o resultado de uma leitura possível. Assim, a leitura literária de Borges mostra-se com um tipo de coerência diferente da leitura filosófica de Kant, entretanto, ambas leituras se pautam a partir da problemática do sentido. Beckett e Descartes ou Sobre a Escuridão da CertezaMarcia Tiburi (Depto. de Filosofia da UNISINOS) O mito que virou conceitoImaculada Kangussu (Depto. de Filosofia da UFOP)
J.L. Heiber e G. Brandes. Dois críticos dinamarqueses entre a literatura e a filosofia
Georg Morris Cohen Brandes, filósofo e crítico dinamarquês (1842-1927), combateu o romantismo e introduziu nos países escandinavos a estética realista. Sua obra mais importante, As tendências principais da literatura no século XIX (1872-90) exerceu grande influência na Europa. Admirador de Shakespeare, foi ele quem descobriu Nietzsche, tendo-lhe até recomendado a leitura de Dostoiévski e Kierkegaard. Ao seu círculo pertenceu Jacobsen, poeta e romancista, botânico (naturalista) e tradutor de Darwin. - Georg Brandes e seu irmão Edvard substituíram a liderança cultural de um crítico anterior hoje menos conhecido, Johan Ludvig Heiberg (1791-1860), que escreveu vaudevilles e dramas e divulgou como filósofo improvisado o idealismo hegeliano em seu país. Heiberg, apóstolo do Sistema, acreditava que Goethe e Hegel já haviam dito tudo, cada um na sua forma específica. - O que se pretende é reconstruir tal transição, investigando o contexto estético-filosófico, e em especial o ambiente cultural imediatamente anterior e posterior a Kierkegaard. | ||||||||||||||||||||||||||||||