7 anos de culpa
"Cú", escreveu Marcelino no quadro negro. Desse jeito mesmo, com acento agudo, que é como aprendemos como criança.
Ainda assim, bastou o "cú" errado no quadro para a 1a. série vir abaixo. Como em uma catarse, a algazarra foi geral. Exceção óbvia para as meninas coladas em suas carteiras com as perninhas cruzadas para conter o pudor.Leninha estava ruborizada. Não que aquela palavra a constrangesse, o seu pudor tinha outra causa. "Quando eles riem, sabem de meu segredo?", "será que enxergam TUDO em minha cara?". Essa angústia era constante, bastava "os meninos" começarem a falar "sacanagem" ou simplesmente xingar "palavrões" para que ela se sentisse transparente, como se quem a olhasse no olhos pudesse ler TODA a sua alma.
Ela se apavorava só de pensar que isso era possível. Ninguém podia saber de seu segredo e de como ela era suja. Mas quanto mais Leninha tentava disfarçar suas emoções, mais as lembranças a incomodava. Como quem se recorda de um pesadelo da noite passada, ela pensava naqueles dias de calor nos fundos de sua casa em que seu tio Jó "brincava" com ela. Quando ele a tocava bem "lá em baixo", ela sentia aquela sensação esquisita crescer na barriga. Parecia com vontade de vomitar.
Tio Jó também gostava muito de beijá-la. Leninha sentia aquela barba suada em todos os lugares de seu corpinho... Mas havia, ainda, dia piores, aqueles em que ele, sem dó, a machucava "de verdade". Depois, no banheiro, Leninha, chorando baixinho, lavava o sangue da calcinha: "Mamãe não pode descobrir!".
A ela pouco importavam as ameaças de tio Jó de machucá-la caso contasse a alguém. Inocente, em seus sete anos, Leninha sentia culpa suficiente para se calar.
Durante a semana, enquanto sentia o Domingo se aproximar rapidamente, rezava para que ele não viesse. Mas ele vinha sempre e queria sempre "brincar" com ela.
Naquele dia de tarde, ao chegar da escola, Leninha se assustou com um rato na porta da cozinha. Pegou um graveto e cutucou o bicho. Estava morto com os dentes cerrados. Foi então que ela se lembrou que estavam jogando veneno para matar os ratos que infestavam sua casa.
Quando se viu sozinha em casa, Leninha achou no armário da cozinha sua "salvação". Pegou aquele pozinho branco, misturou com seu leite achocolatado e tomou plácida como um anjo. Deitada em sua cama, Leninha dormiu profundamente. Nem o cinto da mamãe, com que ela atou firmes e juntas suas pernas, lhe atrapalhou o sono.