Arte de fazer justiça
com o cabo serial

Henrique Milen

Quem precisa de chacos, chicotes, garruchas? Deixemos que nossos ancestrais se virem com suas clavas e pedaços de fêmur. As armas do presente são os cabos de computador. De impressora, especificamente.

Confesso ter sido por acaso, quando precisei e saí à procura dum desses, que descobri. Numa casa do ramo, adquiri o cabo made in sudeste asiático com o qual eu declararia minha independência em relação ao tôner, aos horários da faculdade e, claro, à cara de bunda dos monitores.

Canclinianamente feliz com minha compra, eis que me surge pelocaminho um dejeto de capitalismo anunciando estômago vazio e uma iminente redistribuição alternativa de renda. Ou seja, assalto embasado sociologicamente*, ao mesmo tempo em que vejo um caco de vidro empunhado contra a minha (até aqui) discreta pança. Centenas de milhões de anos para que a espécie desenvolvesse a fala articulada, e bom, deu mais ou menos nisso: "Libera aí, chegado!"

Percebendo que tava prestes a virar um stigmata cético, saquei da única arma de que dispunha (mesmo ciente do perigo de se reagir a assaltos, seqüestros, impostos e outras arbitrariedades previstas nessa Lei dos Homens). Com a destreza que me é peculiar, desembalei o tal cabo e fiz-me ouvir:

-Ayôu, Silver!

Posso dizer que, após esse meu gesto intempestivo, a face do sujeito me remeteu à do detetive de "Psicose", tal a astúcia do golpe. Como bônus, e ainda me dando ao luxo de fazer uns cálculos, fiz um movimento de "j" no intuito de enroscar o pescoço do excluído. Vlapt! Mas não foi preciso sujar a calçada: um reles puxão fez com que o dito-cujo rodopiasse desgovernadamente até o meio do asfalto, onde foi devidamente prensado por uma Scania do McDonald's.

EPÍLOGO:

No aconchego do lar, algo realmente terrível me aguardava: a tela azul do Windows, a tela preta da Compaq e insistentes mensagens do tipo "sistema instável" e "providencie um extintor aí no mundo real" alternariam-se noite adentro, comprometendo meu relógio biológico pelo resto da semana.

Posteriormente recorri a pós e pílulas industrializados, mas por que me iludir? Saudades do tempo em que as coisas se resolviam com músculos e destreza corpórea.

 

 


*Zona Sul é outra coisa!