Na distante e longínqua cidade de Carmo do Cajuru, uma estrela já despontava. No terceiro festival inter-interiorano da Goiaba, Virgínia já estava com as garras bem afiadas e, segundo fontes seguras, o corpo de moça formado. Todos os habitantes foram convidados para a festa que seria única em toda a história do arraial. Incríveis sucos com sabores diferentes e que faziam coceira na boca tinham sido encomendados para as crianças. Os adultos gostaram tanto da idéia que compraram na capital um endoidece-véia mais fraco que vinha com as bolhas barulhentas (essas bolhas saíam de volta depois de algum tempo dentro do bucho).

O salão estava todo decorado de flores de goiaba e de grãos de milho pregados com cola do armazém do seu Firmino por todos os lados. Virgínia estava acima das intrigas da oposição, pois era a única que sabia falar Inglês depois de uns copos de caninha. Isso renderia valiosos pontos na hora da votação para a Rainha da Goiabada. Além disso seu vestido costurado pelas cegas caridosas de Hierevan era um acompanhamento perfeito que realçava sua graça campestre. Ela estava uma belezura que só. Ou não -pensavam as invejosas da cidade. Isso não foi suficiente para acabar com o já consagrado reinado no mato. A Nova Rainha de Cajuru, Virgínia, eleita por unanimidade, na sua volta vitoriosa, desfilou acenando sorridente dum carro com Jamilton e Lorival guiando. Nunca os dois melhores reprodutores da região tinham saído juntos do curral para escoltar alguém.

Do lado de fora do salão de 100m2 , que comportava todos os habitantes de Cajuru e mais uns intrusos de Divinópolis, seria a queima de bombinhas vindas do Monte. As criancinhas já conheciam o artifício de outros festejos: a quermesse do padre Joaquim, o campeonato de perseguição aos sapos do brejo, ao lado da prefeitura.

Das'Dores, sua primeira e mais aficionada babá, estava doida para rever seu "bebezinho". Juzinha, carinhoso termo empregado durante anos por Das'Dores para conseguir fazer com que o bebê abrisse a boquinha para o "carro de boi entrar", estava demonstrando seus dotes artísticos para a platéia estridente. Olhos lacrimejaram durante a magnífica interpretação de "Pluck Duck Bebê". Peça realizada pela moça mais formosa que potro recém-parido, a nossa Rainha da Goiabada.

Virgínia ganhou beijos fervorosos de Das'Dores e de sua prima Léia. Léia era a cobaia para os terríveis experimentos culinários que Virgínia prepara com amor na época em que brincavam com pureza em casinhas fantasiosas. Amargas lembranças dos bolinhos especiais voltaram à tona. Léia foi tentar comer costela de porco, e seus poucos dentes remanescentes dos bolinhos de cimento feitos pela pequena Virgínia, não conseguiam fincar o osso para rapar o tutano.

Chegou a hora da entrega do prêmio máximo da festança, que seria dado pelo patrocinador oficial de todas os eventos de Cajuru. Seu Firmino era famoso por causa de sua caixinha falante, a única num raio de cinqüenta cavalos deitados, que recebia, ao vivo, notícias e receitas duma senhora famosa na região: dona Ana Maria Braga, a mulher da caixinha. O prêmio era Juquinha, o leitão mais rosado que se tinha notícia naquelas redondezas.

 

Na foto, da esquerda para direita, estão: prima Léia, com seu sorriso quádruplo, Virgínia, a vencedora com um arranjo de flor de goiaba debaixo dos caracóis dos seus cabelos, seu Firmino, e seu sorriso de Juquinha e finalmente Das'Dores.

No fundo do baú,

lá no Cajuru...

Thiago Brasília.