Nikolas Spagnol, um dos principais articulistas deste jornal trancou sua matrícula no curso de Comunicação para se auto-exilar na única agência do Banco do Brasil de N. S. do Conceição do Mato Dentro - MG. Por isso está de castigo. Agora, sua única maneira de contribir para o Jornal Gardenal será através deste espaço.


10|maio|2000

Depois de ter comentado o filme Tudo sobre minha mãe, em pleno abril de 2000, demonstrando o quão atrasado é a vida em N.S.J.C. de Conceição do Mato Dentro, recebo uma carta (escrita a mão!!!) do nosso correspondente intermunicipal. Dentro do envelope estava sua dupla contribuição que deveria ser digitada por alguém. Sobrou pro editor. Não reclamem dos erros de português, pois vai contra o regulamento deste periódico.
Lá vai bomba!

Prólogo do texto anterior
Se você não leu, azar, porque não vai entender porra nenhuma
Nikolas Spagnol

Ao adentrar na já há algum tempo "veralicicamente" higienizada Fafich, deparo-me com a pequena sete-lagoana que um dia cativou esse desengonçado formiguense naturalizado em Arcos "que tinha apenas dezessete anos". Mas a cena que se segue não tem as lágrimas e o drama de uma despedida de imigrantes de "Terra Nostra", só um abraço. Dois anos de infinita paciência para tolerar a conflituosa intelectual sufragete dentro da pele de uma patricinha do interior com moleton da Planet Hollywood, e o que recebo é um abraço com a emoção de uma Ella Mercedes... Aquela Mezenga nem tinha lido o meu texto! Pelo menos isso não demonstra a confiança que vai me ver de novo - tomara que tenha sido por isso.

Pior mesmo foi a atleticana protótipo de mulata-globeleza insinuando, com a frieza de um espião da KGB dos filmes do 007, sem nem olhar pra mim, que eu me acomodaria com a vida bucólica de Conception in the Sky with Diamonds e ficaria por lá (aqui) mesmo. E ainda reclamou que eu não tinha telefonado! Inté parece que eu vou pagar a Telemar pra ficar ouvindo um desaforo desses!...

Ah, se todas fossem como a Carol C4, que além de escrever sobre mim, elevando meu ego ao Olimpo, chorou ao ler meu texto... Ou a Eleonora, que além de chorar, foi a única que estava em casa pra tentar combinar um sábado à noite de despedida (fatalmente cancelado por falta de quorum). Ou a "cachinhos de ouro no more", Cynthia, que além de ter gostado dos "Campos de Morangos Dinamarqueses" (ao qual tentou dar uma resposta, mas foi incapaz), me abraçou sorridente perguntando "Nikolas, você voltou?" (ao que igualmente fui incapaz de responder).

Pois é assim que devo ser: choro e ranger de dentes, quanto maior o sofrimento de vocês, maior minha satisfação. Sem hipocrisia: quem não se deleita em saber que os colegas e amigos sofrem com sua ausência? Hein? Hein?

O sadismo é a base de todo relacionamento.

E quem é que escreve um calhau que extrapola os 2 gigabytes disponíveis no Garden e ainda se atreve a colocar um "prólogo" na edição seguinte? É, empolguei. Melhor deixar pra falar do trote ao som de Claudinho e Bochecha em outra oportunidade. O título podia ser "A desvirginação dos tímpanos acadêmicos" ou coisa assim...

 

As incríveis aventuras de
Gli Sidious no espaço
Nikolas Spagnol

O primeiro de abril é o carnaval de todo espírito-de-porco. Alguns inventam uma notícia boa pra ver a alegria no rosto do interlocutos se desmanchar quando a farsa é revelada. Pura sacanagem. mas há os que inventam notícias ruins sobre si mesmos, tipo "tenho apenas mais 2 semanas de vida", "vou me casar" ou então "vou largar o curso pra não voltar mais", para ver o interlocutor se comover, chorar e espernear, para depois alegrá-lo com a verdade. Este busca apenas uma massagem no ego (ih...), auto atirmação e popularidade para, em seguida, conquistar o mundo. Bom, meu plano era esse quando deixei uma supostamente chocante revelação na seção de opinião deste periódico sem período definido, na tarde do sábado primeiro de abril.

Então, no sábado seguinte, mesmo bat-horário, mesmo bat-Garden, lá vou eu saciar meu sadismo conferindo as mensagens sesesperadas de "diga que não é verdade!" e encontro... 00001 mensagem. Era o Milen me comparando a Machado de Assis, meio conformado com a deserção, meio esperando minha volta. Valeu, mas acho que falta uns 60 e tantos alunos...

Vou no Eymael (também conhecido como e-mail) e acho ninguém mais, ninguém menos que o espertalhão do Thiago Máximo: "primeiro de abril não tá com nada..." Maldição! Então são só eles que se importam? Ninguém gosta de mim, snif!

Já estava selecionando, dentre meu refinado vocabulário de palavrões cabeludos, quais usaria para dizer que não me importa a indiferença de vocês, que voltaria de qualquer jeito não por causa de vocês, mas pelos meus anseios intelectuais acadêmicos, que vocês deveriam era fazer sexo anal com extintor de incêndio e que as mães de todos vocês são grandíssimas...

Epa!, Comecei a reparar nas mensagens que estavam lá e descobri o óbvio: não tem ninguém acompanhando essa mixórdia de Opinião. Desde que o Star Wars perdeu o Oscar de efeitos especiais para o Matrix, uma horda de Sidious, Jedis, Power Rangers e outros bichos estranhos invadiram a seção para protestar contra esta suposta injustiça. E como não há nada mais chato que Starwar-maníaco cutucado com vara curta, os leitores prudentemente deixaram os molóides falando sozinhos. Honra seja feita aos que desafiaram, como um certo Sui Sidious (só pode ser o Milen), pois é preciso muita coragem para contra argumentar tamanha alienação e chatice. Mas a obstinação deste Kamikase não foi capaz de evitar o fiasco do meu plano genial de primeiro de abril. Agora as forças malignas do Darth Vadder encarnaram em mim para derrubar de uma vez por todas os argumentos dos fanáticos por esta porra de filme. O Império contra-ataca!

AVISO: se seu nome é Moisés Nazário, Bruno Fortini ou Daniel Florêncio, não leia isso sem recomendação médica!

Era uma vez um pequeno reino distante onde as pessoas viviam em paz e harmonia suas vidinhas simplórias. Mas de repente, eles passaram a ser ameaçados covardemente por um império bestial que pretendia escravizá-los. Dejá-vu? Não, você com certeza já viu isso em algum lugar... A história de Davi vs. Golias é o clichê mais copiado desde o velho testamento - com a possível exceção do príncipe que troca de lugar com o plebeu, tem até um episódio de Johnny Bravo Satirizando isso. Na Bíblia o pequeno Davi deu uma pedrada no coco do gigante fariseu e o matou, o que deve ter sido o stopim para o arranca-rabo que até hoje rola nas imediações palestinas... Pensando nisso, George Lucas colocou um capacete no capetão Darth Vadder, e chamou os Jedis com aquelas espadas de lâmpada fluorescente, o bobalhão do jabá Bingo, um robozinho que é a estátua do Oscar animada (será uma fixação?) e outro que parece uma lixeira de banheiro para fazerem o papel da "Sétima Cavalaria" que vai salvar a mocinha indefesa representada pela Princesa Pó-de-Arroz. O diretor mudou o cenário da batalha para os confins galácticos, afinal ele é da geração que acompanhou a chagada do homem à lua, e os únicos filmes que usavam deserto como cenário naquela época eram justamente os épicos-bíblicos modorrentos estilo "Moisés" (que deve ter umas 2 horas de duração que parecem ser 60...). Isto permitiu-lhe encher o filme de efeitos especiais, guerras de navinhas, corridas futuristas e exércitos multiplicados por computador. No fim, "o bem vence o mal, espanta o temporal" (alguém lembra dessa musiquinha do He-Man?). Mas este é apenas o Episode I, depois começa tudo de novo...

Filmes assim existem aos montes - Independence Day, Tropas Estrelares, Os trapalhões no Espaço, entre outros ainda menos cotados - e não deixam de ser uma boa opção para quem quer se divertir audio-visualmente enquanto come pipoca, ter um assunto para comentar com os amigos na saída do cinema, dormir e confortavelmente esquecer tudo. Entretenimento descartável tão-somente, como jogar vídeo-game (simuladores realistas de fórmula 1 obviamente não-incluídos, ou não teria quebrado meu pé), ver um espetáculo pirotécnico ou ler um romance policial. Então, por que essa bronca toda com Star Wars?

Simples: o George Lucas nunca aceitou esta verdade. É crente que sua robledagem cinematográfica é uma obra prima, que revoluciona a história do cinema; não criou uma série campeã de bilheteria, mas uma saga mítica, a "mitologia moderna". Para reforçar essa tese mirabolante, colocou entre uma corrida de "pods" e uma batalha de jedi, a hipótese de que Skywalker, o mocinho, é filho bastardo de Darth, o capetão. Draminha de "Você Decide" (se você acha que skywalker deve perdoar o pai, disque 0800, meia-coco-coco-meia...), só pra dar um ar de complexo de édipo mal-resolvido" na história. O pior é que ele conseguiu convercer muita gente. Mas muita gente mesmo. Criou uma nova seita. Daqui a pouco Moisés vai aparecer com uma mensagem do tipo "Jedi Cristo salva" ou "há um só Deus, George Lucas é seu profeta".

A pergunta persiste: seitas de bobos também não são novidades, tem gente que acredita em coisa bem pior. Não tem aquelas seitas que marcam um dia na folhinha para Elvis Presley sair de um disco-voador pousado no Grand Canyon, que irá levá-los ao planeta dos gnomos? Aí eles chegam lá, não tem nada, eles se suicidam como lemings? Então, pelo menos a seita George Lucas e seus miquinhos amestrados é inofensiva. São apenas bobos que vivem atrás d uma ilusão sem atrapalhar os outros. Igualzinho aos comunas do DCE, ou àqueles candidatos a presidência estilo Marronzinho, Enéas e João de Deus, ou aos evangélicos da Universal, aos... Epa outra vez!

Eu disse evangélicos da Universal? Está pensando no que eu estou pensando, Pinky? Sim, Cérebro, mas aode vamos arranjar dançarinas ula-ula a essa hora da madrugada? (essa eu devo a Carol C1).

A Universal não é uma seita de bobos: só os fiéis que são realmente corós (para usar o termo com que um Sidious anônimo blasfemou contra Matrix).

Edir "Mau" Cedo e seus comparsas apenas simularam que acreditam na cura divina da AIDS enquanto nadam em dinheiro e poder. O que aconteceria se eles confessassem que não passam de charlatões e que o dízimo que arrecadam não levam ninguém para o céu, mas para o congresso? Certamente o mesmo que aconteceria sese o calhorda do George Lucas parassede fazer cenas e dissesse que a única coisa "mítica" nesta bobagem galática foi o tutu que ele ganhou vendendo bonés, camisetas, bonequinhos, navinhas, vídeo-games e até artefatos eróticos em forma de espadas Jedis para trouxas no mundo intero. A bilheteria de ambos(sim, a palhaçada da universal também acontece dentro de cimenas) iriam despencar, só não iria acabar por completo porque restariam os bobos incrédulos (casos perdidos). Mas obviamente eles não vão fazer isso, pois de starwar-maníacos, desculpem, de bobos, não têm nada.

Quando comecei a escrever isso, pensei em um comentário na seção Opinião, mas vi que estava cometendo o mesmo erro. Pensei um comentário fílmico, mas percebi que isto extrapolaria aquele espaço, tanto em tamanho quanto em temática. minha crítica não se refere apenas a um filme, mas a toda uma humanidade de hipocrisia e estupidez glamourizadas. Hipocrisia dos que vendem ilusões de festim como excepcionalidades em um mundo onde tudo parece corriqueiro. Estupidez dos que se deixam iludir e se satisfazem cegamente. Star Wars é mitologia, Back Street Boys é música e Xuxa é a imaculada rainha dos baixinhos. No fundo no fundo, o mais ridículo dos acéfalos sabe que é tudo mentira, mas da falsidade midiática depende seu equilíbrio emocional; sua vida é uma ilusão.

Último argumento! "gosto não se discute!" Ué, então que graça tem a vida? Não há sentido em se discutir nada; as coisas são assim porque as pessoas gostam, e gosto não se discute. O debate e o pensamento não teriam lugar nesta realidade autista. E nosso curso de Comunicação Social deveria servir apenas para a gente aprender a mexer no Page Maker para escrever a previsão do tempo e, a cotação da bolsa e o aumento da ração de chocolate (alguém aí leu ou viu o filme 1984?).

 


15|abril|2000

Caro leitor, este comentário fílmico está por tempo indeterminado fora do seu local habitual. Desculpem-nos pelos transtornos, esperamos sua compreensão.

Comentários Fílmicos
Tudo o que você não deveria saber sobre o filme mas leu na sinopse antes
Nikolas Spagnol

Dizem que se você souber o final de um filme como Sexto Sentido ele perde a graça. Por isso recomendo não ler aquelas sinopses escritas por um acéfalo formado na PUC (não é à toa que eles tiraram C no Provão) antes de ir ao cinema, pois, além de falar bobagem, falam demais. Sabem demais, mas deviam ser torturados para não falar. Um filme como Tudo Sobre minha Mãe seria bem melhor se eu não conhecesse boa parte da história, a começar pelo próprio começo. (Se você ainda não viu o filme, recomendo parar por aqui, ao menos que seja curioso, aí o azar é seu).

Como é que você cria empatia por um personagem como Estebam, se você sabe que ele não vai durar mais de 10 minutos? O espectador, ao invés de sofrer um baque, aguarda o acidente como um perfeito "espírito de porco". E quando a mãe dele sai atrás do pai, a sinopse do corno da PUC te lembra que o pai é um traveco, e como não é difícil perceber que não é Agrado, só pode o tal do Lola. Você pode dizer que isso é óbvio, mas o fim do Sexto Sentido ou mesmo da Bruxa de Blair também seriam se o desgraçado da UNI-BH (mudei pra não parecer perseguição) contasse na sinopse.

Mas é claro que o infeliz sinopsista é incapaz de descrever a literalmente estonteante cena do atropelamento em primeira pessoa, ou a tomada aérea da bela Barcelona à noite, cortando direto para um inferninho onde a tradicional boemia espanhola não é tão glamourosa. Aliás, esta cena define o filme e seu diretor: mostrar o lado mais profundo das pessoas e das coisas, o perturbado ser humano que se esconde dentro de cada um de nós, e também dos ídolos, drogados, lésbicas, putas, travecos e até aberrações como o (a?) Agrado da (do?) Antonia San Juan. Mas eu não vou ficar aqui babando ovo pro Amofadóvar, já basta o Rodrigo "Quero ser o Talentoso Ripley" e os Brunos Fortini da vida que chamam de "mitologia moderna" aquela besteirada preenchida com efeitos especiais da Lucas Arts que perdeu o Oscar para o Matrix, bem feito, enfu! (Sim, Milen, existe justiça no mundo).

Que negócio é aquele da mãe tentar perseguir o cara que ficou com o coração do filho? Além de ser um clichê abaixo da crítica, não acrescenta nada ao filme. Outra sacanagem foi matar a Rosa na cesariana, pela ordem natural das coisas ela tinha que ter "aidsgonizado" por um ou dois anos, para ver crescer o filho que jamais se lembraria dela... Tudo bem que ela já tava com o pé na cova, mas esse troço de mãe morrer no parto é um clichê tão batido que chega a perturbar. Almofadóvar, meu filho, já falei pra você parar de ver novela brasileira! Fica parecendo que é mais perigoso ter um filho do que trepar sem camisinha com um travesti drogado que se prostitui (com passagens por Paris e Argentina).

A mim não resta dúvida sobre porque as personagens almofadovanos são predominantemente femininas. Personagens com a genitália pendurada tendem a ser superficiais, principalmente os hombres (entre os quais nos incluímos, enquanto o Plano Real não nos tira de perto desses latinos barangas e nos instala nas adjacências escandinavas), escondidos sob a máscara que os impede de chorar no ombro de uma pessoa amada sem que sua masculinidade seja arruinada. Para quem gosta de filmes com personagens que honram o próprio Luciano "Todo Duro" (ou Tackleberry, como quiser), existe Rambo, além dos pornôs, obviamente. É claro que, no último caso, os supostos "varões" teimarão que o que lhes atraem são as mulheres, mas enfim. Freud explica.

 


17|março|2000

O Incrível Homem Sem Passado e Outras Estórias
Nikolas Spagnol

   "A dor do parto é triste, mas eu tenho que partir". Pessoalmente, detesto esta frase. Primeiro porque não há nada de errado na dor do parto, muito pelo contrário, acredito que ela sirva para nos lembrar que, apesar das soluções práticas "kitschs" oferecidas por nosso admirável mundo novo capitalista, a dor está e estará sempre presente na vida. Desde o nascimento até a morte, tudo envolve alguma dose de sofrimento, angústia, medo, decepção e sacrifício, e não há o que se lamentar disso, pois de outra forma a vida seria tão chata e besta como um adolescente americano mascando chiclete. É bem verdade que, neste final de século, a natural dor do parto vem sendo substituída pelo artificialismo anestésico cirúrgico huxleyano da cesariana, tal qual a vida pouco a pouco perde em sofrimento e espontaniedade e se torna cada vez mais confortável, falsa e previsível. Viva a vida, agora em sabor artificial limão! E tem gente, como o nosso Henrique Milen, que ainda homenageia as Barbies do fim do século no mesmo 8 de março em que suas antepassadas foram queimadas vivas lutando para que fossem consideradas mais que um pedaço de carne... Mas disso eu já falei em outra oportunidade.
   A segunda coisa que eu odeio na frase do início do texto é seu tom fatalista, derrotista, tipo "a vida é uma bosta e não há nada que eu possa fazer". Sofrimento, sim, mas com as devidas reivindicações. Você deve ter o direito (ou melhor, lutar por ele, porque eu não tenho filho do seu tamanho) de escolher aonde quer chegar e por quais espinhos, tobogãs de gilete e piscinas de álcool vai passar para chegar lá. E a partir do momento em que você segue de cabeça erguida para onde seu próprio nariz mandar, não tem do que ficar resmungando ou lamentando. Senão a Ku Klux Klan, a CIA, a SS nazista e a KGB te pegam pra você deixar de moleza.
   A terceira e última razão para eu detestar essa frase é menos profunda e mais óbvia: é um trocadilho de quinta categoria. Tipo aquele "quem é o rei da horta? o REIpolho". Acho que esses nem o Ary Toledo e o palhaço Carequinha usam mais.
   Agora, mudando completamente de assunto, doido mesmo foram os sonhos que eu tive outro dia (foi de dia mesmo, a internet me transformou em um notívago). Na sétima série uma professora de Ciências que se gabava de ter fraturado 47 ossos na infância, um em cada peraltice (bem-vindo ao mundo macabro das palavras morto-vivas!), explicou que cada sonho não dura mais que cinco minutos, mas que a gente só lembra o último, isso quando lembra. Não sei se ela inventou isso, mas tem um fundo de verdade, embora ambos os sonhos que relatarei aqui ocorreram no mesmo dia, embora eu não tenha certeza de qual dos dois foi o primeiro.
   É comum a reis egípcios e Mães Dinah da vida prever acontecimentos futuros em sonhos, talvez seja uma falha na matrix... Mesmo não me encaixando nessas categorias, em um desses sonhos previ que visitava a Fafich pela última vez antes de me tornar um empregado do banco que alguns de vocês passaram a odiar (o que de fato acontecerá no próximo dia 23 e/ou 24, prepare yourselves). Depois de cumprimentar o pessoal, acontece o inevitável: Camila me abraça e chora. Ou melhor, choramos. Comovente. Fecha o pano.
   (Calma, não entrem em pânico, a despedida em questão não é definitiva, já prometi que no máximo ano que vem eu volto mesmo que tenha que andar as léguas que separam Conceição of Deep Inside Jungle e Belo Horizonte a pé. Mas, cedo ou tarde, haverá uma despedida. Voltaremos a este assunto adiante.)
   O outro sonho é obscuro e enigmático, do tipo que o Rodrigo e o Bruno de Vitória iam gostar. Um homem é jogado do precipício ao mar e sobrevive com uma grave seqüela no cérebro. A cada vez que pisca o olho, ele esquece de tudo o que aconteceu antes, menos de que irá se esquecer novamente. De repente, esse homem sou eu (é comum para mim encarnar nos personagens do meu sonho). A cada piscada, tinha que começar do zero. Tentava manter os olhos abertos o máximo possível, eles ardiam, era inevitável. Piscava, esquecia, meu passado deixado para trás. Acabava não vivendo o presente, angustiado em preservar o passado. Virei um louco irrecuperável e intratável (lembro de ter ouvido esta palavra no sonho).
   A princípio, achei que este era um sonho metalingüístico, pois os sonhos, segundo minha fragmentada professora de Ciências já citada, são presentes efêmeros que não deixam lembranças, justamente como os intervalos entre os piscares de olho no meu sonho. Não consta que alguém tenha ficado cinco minutos de olhos abertos e tenha sobrevivido, mas em relação à suposta infinitude do tempo 5 minutos ou um piscar de olhos representam algo tão insignificante quanto a inteligência de Ana Maria Braga. O problema é que, partindo do princípio da infinitude do tempo, ou mesmo considerando apenas os anos de vida que esperamos ter pela frente, nosso convívio acadêmico representa pouco mais que mais um sonho igualmente efêmero, mas que não será esquecido (ou sim?) por ser o último sonho antes de encararmos o maledito mercado de trabajo (ou não?). Outro dia estava conversando virtualmente sobre com o Rodrigo (que deve estar meio abalado por ter sido subitamente abandonado pela dita cuja que ele define como Danielouca), ao que ele fez um angustiado comentário:
   "Quando eu era pequeno eu já ficava deprimido quando meu pai encontrava alguém na rua e falava algumas bobagens e dizia 'depois vamos combinar um chopinho' eu sabia que eles nunca combinariam... E ele dizia: 'esse aí foi um grande amigo meu no colégio'."
   O passado, invariavelmente, fica para trás. Lembrar é apenas uma questão de memória, pois a vida segue e quem se preocupa em demasia em lembrar o passado acaba esquecendo o presente e pode acabar seus dias no Raul Soares que nem o doido do meu sonho, então, como diria o Daniel Florêncio, keep on moving! Ou não?
   Não seria isso também uma visão derrotista e fatalista, tipo "a dor do parto é triste mas eu tenho que partir"? Tolo, achou que os primeiros parágrafos eram só enchecão, né? A efemeridade é uma característica do admirável mundo novo capitalista. Trocam-se as famílias, as cidades, as amizades, os craques do seu time, posições políticas, empregos, tudo em nome da novidade... Doroga, vocês como comunicólogos deviam saber que não há nada mais velho que o jornal de ontem, a campanha publicitária do ano passado (excluindo-se os casos de extrema longevidade do Auri-Sedina e do Audi-Som) e o sucesso musical do carnaval passado. O passado fica para trás porque o que é velho, obsoleto, não interessa ao sistema. É interessante ao comércio que você troque de namorada de mês em mês, para comprar um prensentinho diferente para cada uma. E a amizade verdadeira e a família são prejudiciais porque... sei lá, eu li isso num livro chamado "Admirável Mundo Novo", e agora fiquei impregnado por esses bordões. Se quiserem saber, leiam, eu não recebo dinheiro pra dar aula pra ninguém aqui.
   Manter os amigos que vemos todo dia é muito fácil, mas esquecer os que estão longe e trocá-los por outros é ainda mais confortável. É o jeito "extremamente fácil" de se viver. Talvez depois da nossa formatura, optemos não por esquecer o passado ou ignorar o presente, mas olhar para frente de olho no retrovisor. Ou o contrário. Sem dúvida é o caminho mais difícil, mas, como já disse, é isso mesmo. Quer moleza, senta na gelatina. O mesmo Rodrigo, ao apagar das luzes do semestre passado no Bay-up (na noite que seria meu último encontro boêmio com comunicólogos antes de partir rumo ao tenebroso exílio), sugeriu que, até nossa formatura, arranjaria dinheiro de alguma forma para nos sustentar em uma espécie de colônia pós-moderna, sem que precisássemos trabalhar. Lógico, sabemos que ele havia se entorpecido com Fanta Uva, como de costume, mas o fundamento básico é esse. Assim, esperamos que nossa derradeira despedida não seja mais que um "até logo", e que ao abraçar Camila minhas lágrimas não sejam de lamento, mas de emoção. Ou apenas um cisco no olho.