Delírios de verão
Porta e janela abrindo o meu quarto para o mundo. Céu brilhando estridente chamando. Meu corpo arde de verão. O que fazes parado aí então - diz o clamor nascido dos recôncavos do meu ser. Faço, desfaço, nada faço, que mormaço. Sonhar com praias, com dunas, coxas, quentes, fervendo junto com o sangue, que parou de jorrar pro meu cérebro e escolheu apenas meu coração como foz. Mas a praia está longe, muito além das obrigações de um estudante já não tão certo da eficácia das greves universitárias. Serão elas apenas inimigos que nos fazem perder cor dentro de salas torradeiras. Ou serão um espécie de mal necessário para o governo notar que o ensino ainda respira, muita poluição, mas respira.
As razões da greve não me refrescam. Um caixote, por mais dolorido que possa ser, pelo menos vai me trazer a sensação da onda, a vida na praia. Ao invés disso sinto ter de ir ao bandeijão mais uma vez. Subir, ou melhor, escalar o morro que me traz a comida. Borbulham dentro de mim gotas de suor que preferiam estar escorrendo numa prancha de surf e não numa fila. Imagino um quiosque com uma ducha ao lado. Comer casquinha de siri e refrescar a garganta, para depois tomar um ducha e ficar embaixo da sombra. Estou aqui esperando para comer pedacinhos de fígado e tomar água colorida, suar uma ducha debaixo deste sol. Acordo do sonho sendo chamado pelo senhor do caixa, estava na minha vez de comprar a refeição. Esses sonhos só me fazem aumentar o pesar de ficar longe do mar.
Contradições sempre existiram, mas nunca elas estiveram tão claras para mim quanto nessas "férias". À medida que os graus vão aumentando os trabalhos vão se multiplicando. Quanto mais quente fica, mais exigidos nós somos. Não que isso seja um prazer para os professores, mas parece que eles têm um termômetro interno que conserva seus corpos em 25ºC. Ao invés de se cansarem, a cada aula estão mais dispostos a nos encher de conhecimentos. Mas um conhecimento básico eles esqueceram: aula entre 10 e 16 horas não é recomendado no verão, sob risco de fundir os neurônios. E mesmo as aulas antes das dez devem ser dadas com moderação para não ressecar o cérebro. As aulas devem ser ao ar livre e de preferência nas piscinas do C.E.U. Fazer uma amostragem por conglomerado separando o conjunto de meninas com maiô e de meninas com biquini, facilitaria o entendimento de estatística.
Claro que o C.E.U não é nenhuma Brastemp mas é a praia que nós temos. Os professores deveriam usar dele como base para um melhor aprendizado, de acordo com o que a estação manda. Descontração e relaxamento para todos chegarmos revigorados para as férias de março.