DOIS ANOS DE TEMPORALIDADE ESQUIZOFRÊNICA

   Este espaço foi criado como parte das comemorações de dois anos de nossa difícil jornada.
   Destina-se a textos "Baseados em fatos reais" envolvendo os membros legítimos e/ou honorários de nossa comunidade sócio-comunicativa, com temas do tipo "Minha primeira vez no bandeijão" ou "Como descobri que o Rodrigo era maluco" ou ainda "Todas as mulheres de Calado". Como inventor deste espaço, dei a mim mesmo o direito de escrever o texto inaugural, e se não houver voluntários, o segundo, o terceiro, até cansar. Se alguém gostar da idéia e quiser participar, precisa apenas cumprir os mesmos requisitos pré-estabelecidos para qualquer texto no Gardenal, com a condição que, precedendo ao título do texto, deva existir obrigatoriamente (eu inventei, eu dou as regras) algo do tipo "Parte 2 - A Missão" para dar uma (falsa) idéia de seqüência cronológica à série.

 

EPISODE I
Eu era etnocentrista e não sabia
(ou Sigmund Wonder vai pro céu)

Nikolas Spagnol

   Cinco anos no mesmo colégio, mais ou menos na mesma turma, vendo mais ou menos os mesmos 40 e poucos rostos. Não que eu não gostasse deles, muito pelo contrário. O problema é que, logo em seguida, me deparo com mais de uma centena de completos desconhecidos (com a honrosa exceção de Raquel Rubinstein, irmã de um amigo meu de Valadares). Uns quarenta no ciclo básico, outros sessenta ou setenta futuros comunicadores, um mais estranho que o outro. Pra não falar no ambiente acadêmico, totalmente diferente do meu colégio católico do interior onde bastava se declarar ateu ou dizer que as mulheres se masturbam tanto quanto ou mais que os homens para causar um escândalo. Bastaram poucas semanas de ciclo básico para ouvir um psiquiatra estudante de filosofia com idade pra ser meu pai dizer à professora (Tânia, de Sociologia) que ela tinha tesão em dar aula. Mas até que me adaptar a isso não foi o mais difícil - pouco depois perguntei para esse cara, durante a aula, porque ele não era ginecologista ao invés de psiquiatra, ao que ele respondeu "prefiro ser usuário que ser fiscal" - o foda era olhar a lista de chamada e ver uma multidão de estranhos.
   Existem pessoas boas para lembrar nomes, outras boas para lembrar rostos, e algumas, privilegiadas, que lembram nomes, rostos e associam uma coisa à outra de imediato. Eu não pertenço a nenhum desses grupos. No princípio, reconhecia as pessoas não pelo nome ou rosto, mas por traços obscuros de sua personalidade ou por alguma frase solta durante um diálogo. O Marcelo, por exemplo, era um cara que me confessou secretamente que quase votou no Fernando Henrique. O Bruno Fortini eu reconhecia quando ele começava a falar dos Changermans ou coisa assim, e a Virgínia, não sei por que, eu reconhecia mais pelos pêlos no braço do que pelo rosto (tinha lido em algum lugar que as mulheres peludas tem mais hormônio, e... bom, deixa pra lá). Era como se eu não me relacionasse com rostos ou nomes, mas com as pessoas em si. Como se eu não precisasse de signos para chegar à coisa. Como se eu fosse um psicanalista cego cujos pacientes, todos estudantes de comunicação, quisessem ocultar o nome real. Só depois de alguns minutos de divã, eu, Sigmund Wonder (misto de Freud com Stevie Wonder, pra quem não entendeu), conseguia identificar a pessoa.
   Um dia, nosso Sigmund Wonder e uma turma de pacientes não identificados (hoje sei que eram Fernando, Bruno de Vitória, De Oroz, Rodrigo, Mello, talvez o Gabriel e possivelmente o Calado) resolveu matar a aula (?) do Sérgio (este sim, era pior que a Daniela e o Rodrigo juntos) para jogar bola no CEU. Nessa época até o nome das ruas eu trocava: da primeira vez que tentei chegar ao CEU, andei em direção ao Aeroporto da Pampulha até perceber que Antônio Abraão Caaran e Antônio Carlos eram duas avenidas diferentes. Depois de uma pelada típica do amadorismo romântico do futebol, sem os regulamentos e falcatruas dos McLuhans da vida e as crônicas do Milen imitando Nélson Rodrigues, ainda passamos umas boas horas curtindo o ambiente bucólico e o sol ameno de agosto. Do nada, tal como o Mestre dos Magos e o Bronfen, havia surgido Cynthia (apesar de ter sido vista em um mosh no show do Green Day, não consta que ela tenha jogado futebol com a gente). Depois de uma rápida conversa, percebi que ela e minha futura amiga-oculta Daniela do Forró não eram a mesma pessoa: ela estranhou quando perguntei se era ela que usava uma pasta com o emblema "Transar ou não é problema meu, usar camisinha é problema nosso". Pronto: agora Sigmund Wonder tinha uma nova paciente. Não foi a única vez que isso aconteceu: só fui descobrir que Mariana não era a C3 quando começamos a conversar sobre Fórmula Um. Também demorei para saber quem era o tal Daniel Florêncio da PUC, pois quando ele aparecia rindo com os olhos semi-cerrados era idêntico ao Rodrigo.
   Mas, rodeios à parte, o que aconteceu de tão importante nesta tarde ensolarada? Tudo bem, vou ser objetivo. O assunto da moda era aquela mania das tribos africanas de mutilar os clitóris (que nós, recém-saídos do vestibular, chamávamos de "clítoris") das mulheres. Quem pôs o assunto na roda, salvo engano, foi Cynthia, e as opiniões eram praticamente todas do tipo "que selvageria", "coitadas" e tal. De fato, era realmente angustiante imaginar uma coisa dessas, acho que as mulheres devem ter uma reação parecida com a dos homens quando vêem uma pancada de baixo pra cima na zona do agrião. Mesmo eu, na primeira vez que ouvi falar disso, fiz uma careta e levei a mão ao meu clitóris inexistente, num lugar qualquer da virilha. Mas eis que se levanta a voz dissonante de Rodrigo (quem mais poderia ser?), dizendo que "não podemos aplicar nossos conceitos à cultura deles". Era isso! Estávamos sendo etnocentristas e não tínhamos idéia disso. Nossos conceitos não eram mais absolutos, a verdade deixava de existir. Estávamos abandonando as angiospermas e os logaritmos do colégio para entrar num mundo onde se sabia tudo mas ao mesmo tempo não se sabia nada. Um mundo tão doido onde pode-se defender algo tão pavoroso quanto uma mutilação genital. Para mim, naquela fagulha de tempo, teve início nosso famigerado curso superior. E então começamos a desaprender tudo o que já sabíamos, substituindo-o por "algo assim como comunicação... sem comunicação". E vi que era melhor aposentar o Sugismundo Wonder e dar um jeito de decorar aqueles nomes e rostos estranhos antes que eu ficasse louco de vez. Não sei se deu muito certo...