Já que esculhambaram o ano 2000

Henrique Milen

   Pelos idos de 85, quando eu me locupletava com "A Gata Comeu", "Ti-ti-ti", "Roque Santeiro" e outras robledagens que supriam todas as minhas necessidades intelectuais de então, às vezes eu me punha a divagar: "como serão essas maravilhosas produções globais no ano 2000?" Bom, percebendo que o ano 2000 era futuro há pouco tempo atrás e o futuro não é mais como era antigamente (citando dois roqueiros que se destacaram neste interregno), eu tenho agora as respostas.
   A bordo de uma máquina do tempo que ainda não inventaram (cambada de incompetente, de que me servem chips nanômicos, feijoada diet e iMacs cor-de-rosa se não posso ver o Galo campeão em 71?), eu volto até 1985 e me encontro com aquele menino que já dava sinais da boniteza que viria a ter. E antecipo-lhe:
   - Ô menino!
   - Que foi, sô.
   - No ano 2000 a novela das 6 vai continuar sendo de época. Mas a correntinha fazendo 'tchac' na abertura só será possível com o advento do Silicon Graphics.
   - Nú (referência ao Melo e ao Maurício).
   - A novela das 8 vai continuar tendo personagens agropecuários. A música da abertura vai ser do Agnaldo Rayol junto com uma mulé aí. A história vai ter duas ou três fases, sendo que a primeira delas será toda falada num novo idioma, o portuliano.
   - Núúúú. E a das 7? E a das 7?
   - A das 7 vai continuar com o Edson Celulari, a Maitê Compensa e o Jorge Fernando entrando no final para tapar buraco. Só que no lugar da abertura, vai ter clipes musicais com qualidade visual e sonora que só serão conhecidas na próxima década. Você não perde por esperar. Agora vá ler suas revistinhas que elas lhe serão bastante úteis no futuro.
   Omito que, a exemplo dos trabalhadores do setor secundário, Hans Donner também se tornou obsoleto. Deixo o menino com os olhos brilhando e entro no Delorean. De volta para o "futuro".
   Que venha o ano 3000.