Esses bichos feios

Henrique Milen

Enquanto o Ilex paraguariensis não esfria, vou andando com a xícara na mão. Nisso, pisoteio um besouro sem querer. Crec cric cric. Crec do cefalotórax e cric das artro dos podes.

Saco. Não gosto dessa de matar besouros. Besouros são tão magníficos. São tanques de guerra que não atacam, apenas são. Sabem se defender, porém. Tem que ser muito macho para encarar um besouro, só tem chance se for um bicho maior. Um cachorro, por exemplo (já vi um cachorro comendo um besouro, cachorro imbecil. Crec chomp chomp).

Na Amazônia tem um besouro do tamanho de um Mega da Yopa. Jogar num desses adolescentes do shopping, já pensou? Uma minina com moleton do Planet Hollywood. O pai dela, com camisa pólo Lacoste, mandar o besouro bem no ombro. Pânico no sábado, uma civilização posta em xeque. Mas putz, é sacanagem com o besouro. Sem contar que o matariam; a pena é sempre capital para insetos que incomodam.

Certa vez, uma tia cismou com uma barata subindo-lhe as costas e começou o escândalo. Arrancou o que vestia e socou no chão, pisoteando histericamente por alguns segundos. Era gorda; se havia barata deve ter morrido mesmo. Um horror. Coitada da barata. Mas barata é foda, gosta de lixo, traz mais doenças além dessas que o ar já traz. Realmente merece a morte uma porra dessas.

Não tem a beleza, a fleuma de um besouro. E para piorar as coisas ainda é muito mais rápida do que deveria. Meu medo de baratas está nessa rapidez que não consigo acompanhar. Se insetos tivessem poderes jedais, as baratas seriam os Siphs. Mini-Darth Mouls espalhados pelo planeta há milhões de anos. Sabem demais para quem deveria ser só um inseto; sabem de nós. Tem uma história de que as baratas sentem quando alguém tem medo delas e, ao invés de sumirem no escuro, aproximam-se. Deve ser a antena. Ou talvez fibroblastos jedais imersos naquele caldo branco que vaza quando se faz crec nelas.

Por outro lado há os humanos sensíveis a baratas. "Tem barata aqui, tô ouvindo". Essas pessoas normalmente são pobres, porque gastam muito com hotéis cinco estrelas. E também têm olheiras porque, para elas, dormir é uma emoção diferente. Eu só ouço quando elas voam e dão um rasante na minha cabeça, o que é comum nesses lugares quentes, úmidos e mal lavados - Rei do Kibe, Pastelândia, Lojas Americanas...

Por fim baratas me lembram escorpiões, que também são imunes a incidentes nucleares. Quem gosta muito de escorpião, cru ou al dente, é galinha. E é de "galinha" que chamam os medrosos... Que virilidade humana põe um escorpião semi-vivo goela abaixo? Terreiro que tem galinha solta pode ter o entulho que for, não tem escapatória para o aracnídeo. Deve ser foda ser escorpião nessas horas. "Droga de vida" - pensaria se pudesse.

E Galinha d'Angola (cujo cacarejo foi inexplicavelmente onomatopeizado como "tô fraco, tô fraco") é uma passa-fome, parece que nunca viu, que nasceu primeiro que escorpião. Come tanto que só pode ser magra de ruim. Mas pelo menos a feia adota os pintos órfãos da redondeza, que crescem felizes a cantar. Um anjo de bicho.

Ainda não pisei numa galinha d'Angola. Tenho salvação.