Das Ruínas do Castelo
de GreyscowDe vez em quando meu pai me acordava num sábado, às 9 da madrugada, para procurar alguma velharia no sótão da minha antiga casa - quer dizer, sótão é coisa de americano, o que tinha era um espaço vazio empoeirado entre o telhado e a laje, habitado por capacetes de pedreiro, teias de aranha, sobras de material de construção e, entre outras quinquilharias, meu Castelo de Greyscow, com o indefectível alçapão onde o Esqueleto sempre caía. Triste fim para uma época gloriosa, onde a molecada se dividia em três facções: os que gostavam do He-Man, os que gostavam dos Thundercats (que hoje são integrantes do MIAU) e uma facção menor, que gostava do Rambo e dos Comandos em Ação. Eu era da primeira facção, mas tinha um pouco de tudo: às vezes usava o Panther, dos Thundercats, no lugar do Mentor que meu pai esqueceu de comprar. Outro dia tava lendo na IstoÉ (isto é o quê, porra!) que a Tiazinha vai voltar a usar a cinta-liga e as roupas (que roupas?) dos tempos do Luciano Huck (que nas horas vagas é goleiro do São Paulo com o codinome de Rogério Ceni) para tentar salvar do fracasso suas "Aventuras da Tiazinha". Lembrei da Tila, Mulher Maravilha, She-ha, que não precisavam de cinta-liga para fazer sucesso. Tudo bem que suas coxas eram, digamos, bem torneadas, mas não deixavam de ser personagens de desenho animado, bem pobrezinho por sinal, sendo portanto incapazes de deixar um adolescente com as mãos calejadas como a dos telespectadores do (K) "H" (que trocadilho desnecessário...).
Descendo do sótão e voltando, a contragosto, dos anos 80, me deparo com heroínas inspiradas em aulas de anatomia muscular. Desculpe a comparação tosca, mas sabem aqueles quadros que tem no açougue com o desenho do sistema muscular do boi (que poderia ser vaca) com as indicações "coxão duro", "picanha", ou "filé"? Então, é com isso que os heróis de hoje, e principalmente as heroínas no estilo Tiazinha, se parecem. Na minha época (pareço um ancião falando assim), mocinhos e mocinhas tinham que desvendar mistérios mirabolantes, eram inteligentes antes de serem "vitaminados". Ninguém via o Scooby-doo por causa da bunda da Delma, mas para tentar descobrir quem era o monstro (tinha uns mentirosos que diziam que nunca se enganavam). Hoje, a trama da história é pura encheção de lingüiça, o que interessa são os "atributos sensuais" da Tiazinha, Xena (essa virou musa das lésbicas), tendo como exemplo extremo os seriados no estilo "Peitudas Beach", com Pamela Anderson e seu par de bolsas de silicone. A versão feminina do Zorro seduz o público com sua cinta-liga, quando não seduz o próprio inimigo rebolando e mordendo o lábio inferior.
Os "mortais" também seguem o exemplo dos super-heróis. As jovens que participavam do movimento feminista, encarando a tropa de choque e tudo o que parecia machista (dizem as más línguas que as mais radicais cultuavam um vasto bigode à la Nietzsche), hoje são senhoras quarentonas, casadas com véu e grinalda, que participam de anúncios de cremes para estrias e até de sabão em pó. O inimigo não é mais o homem, mas aquela celulite contra a qual se batalha por horas e horas na academia. Lutar pelas mesmas oportunidades profissionais dos homens? É mais fácil se engravidar de um pagodeiro ou de um jogador de futebol e garantir uma pensão mensal por dezoito anos, ou vender os óvulos colocando uma foto sua (não necessariamente do rosto) numa dessas granjas da Internet. A história, na verdade, é uma troca de ismos: o feminismo, o sindicalismo, o mobilismo social e o socialismo deram lugar ao consumismo, individualismo, comodismo e fisiculturismo. É a força cedendo lugar ao laxante.