Capítulo de um livro inexistente.
Procuro estrelas só visíveis
em céus longe da luz.
A vida em certas vilas é
muitas vezes estar de capuz.
Numa hora assim nem deve ser mais 11 de junho. Então já é dia dos namorados e eu posso ser visto empurrando um carrinho de supermercado pelos corredores deste hospital, que me é deserto sem estar.
Sou um personagem de Kubrick desse jeito, "um parafuso solto na engrenagem do universo"? Não. Man at work tão-somente. Preciso me lembrar do adicional de insalubridade na segunda-feira. Ou melhor,
eles é que precisam. Mas é apenas um corredor sem pessoas, mais seguro, impossível. Fantasmas nem penam por aqui; éter os afugenta. Eu também devia fugir, mas para onde? Pensei no baile que está tendo aqui perto. É pelos cinco da entrada que eu não fui? Mas agora há pouco paguei esse tanto pela coletânea de um poeta ridículo. Tem uma bela encadernação, é um livro bonito pelo menos. Para ler na barraquinha enquanto não compravam meus Elma Chips. Descobri que sempre querem Ruffles sabor original quando só se tem de churrasco e cebola e salsa. Eu que nem sabia que havia outros sabores, só assim para descobrir. Mas que gozado, ninguém deixou de comprar pelo sabor que não havia. Talvez se descubra que só perguntam para puxar conversa, querem mesmo é comprar só. Ainda mais menino, tudo perdulário mesmo. Mas o poeta, putz. Cinco paus para saber que escrevo melhor do que ele. Mas para isso eu não precisaria perder cinco paus.
"o néon bis-bica
bicão 'bis-pisca'
belisca
palavras
cabeças
iscas".
Ora, vá tomar no cu. Só comprei porque implorou. Não resisto a implorações, vaidade é foda. Por qualquer prostração eu me deixo persuadir.
"gira a mira
do dedo,
pedaço de vida..."
E com aquilo que era meu dinheiro, passou a noite bebendo cerveja da barraca ao lado. Uma poesia útil, serve ao vício pelo menos. Não que me importe.
"O lume do vaga
lume se apaga na mata
num piscar de neon"
Palhaço, nem para comprar uns baconzitos com o dinheiro dos livros. Mas puta que pariu:
"quando crio um poema
é um fragmento em mim
que teima em nascer."
Pegue esses káktos urbanus do título e enfie mesmo; talvez aprenda. E ainda pede para divulgar. Anrã. E levar para o César, meu professor segunda e quinta, que foi colega dele no curso de Letras. Aí que eu tomo bomba mesmo. Junta com aqueles 20 pontos do trabalho que eu não fiz e aí, já se viu.
"Astral, terra, mar...
LUZALMAZUL pensamento
tormento azular...".
Já viu o cheiro de formiga quando morre? Esmaga uma na mão. Forte demais para um bicho tão pequeno. Algumas noites são de fato muito longas.