COMENTÁRIOS MÚSICOS


25|junho|2000


The Who, o nº 2
Henrique Milen

Está sendo lançado um novo disco do The Who, com gravações ao vivo de 1965 a 1973. BBC Sessions é só uma amostra da grandiosidade do único grupo que não só pode ser comparado aos Beatles como o superou em diversos momentos.

Um desses momentos foi o álbum Tommy, de 1969. Em importância e inovação, a ópera-rock só está atrás de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, lançado dois anos antes. Mas ao contrário da sofisticação beatle, restrita aos estúdios, Tommy invandiu os estádios e estarreceu multidões na Europa e nos EUA. São deste álbum as magníficas canções "Pinball Wizard", "I'm Free" e "See Me, Feel Me", suficientes para qualquer um se render ao talento do guitarrista Pete Townshend e do espetacular vocalista Roger Daltrey. Para milhares de pessoas, ver a performance de Tommy nos palcos foi, certamente, testemunhar o auge do rock.

A excelência de Tommy e as cada vez melhores apresentações ao vivo fizeram com que publicações como a Melody Maker cravasse em suas páginas: "Certamente o Who é agora o grupo a partir do qual todos os outros devem ser julgados". Um exagero, mas compreensível exagero.

Em 1971 viria Won't Get Fooled Again, "o primeiro uso inteligente do sintetizador no rock", escreveu Richard Barnes, autor de "The Who, Maximum R&B". "Baba O'Riley", aquela música gostosa do trailer do filme Beleza Americana, é deste disco.De quebra, o Who contou com o gênio de Keith Moon, para muitos o maior baterista da história do rock. Sua trágica morte em setembro de 1978 ensejou o fim do grupo, que com o susbstituto Kenney Jones só gravaria mais dois discos, Face Dances, em março de 1981, e o derradeiro It's Hard, em 1982. No final deste ano, a banda faria seu último show, na canadense Toronto, desta vez sem instrumentos destruídos ao final da apresentação, coisa inventada por Pete Townshend & Cia.

Em suma: tal como aquele garoto que girava o mundo, sempre a cantar as coisas lindas da América, e que cabelos longos não usa mais, amo os Beatles. Mas se for para amar uma segunda banda, que esta segunda seja o Who.

 


16|fevereiro|2000

Campos de Morango Dinamarqueses
Nikolas Spagnol

   Toda mulher concorda que não há nada pior que um homem bêbado (tudo bem, algumas acham o Massote pior, mas isso não importa), entretanto deve-se reconhecer algumas virtudes no bebum. Por exemplo: os mais retraídos costumam soltar o verbo, tornam-se sinceros e espontâneos como não são na sobriedade, e no day after sentem-se envergonhados por revelar sua verdadeira identidade (que não se associe nada disso com o ditado "*u de bêbado não tem dono", que é só uma desculpa para bichas enrustidas). Quem viu a Aninha na saída da festa da Camila, sexta dia 3, ou minha pessoa, depois de tomar uma(s) "estupidamente morna(s)" na Festa do Bosque (que tava mais para Festa do Jardim), sabe do que estou falando.
   Me lembro de ter chutado a bunda do Adriano, que estava oferecendo-a para as mulheres beliscarem, depois tudo se tornou confuso, até que encontrei-me derramando elogios à Cynthia. Qualquer um poderia imaginar que era um galanteio barato com segundas intenções (e quem sabe uma terceira, quarta...), mas não: eram elogios espontâneos e sinceros, partidos de alguém que passa a maior parte do tempo xingando e falando bobagens a esmo. Coitada, ela retribuiu como pôde, sem interpretar aquilo como uma cantada (espero eu!). Parecia até que éramos amigos de infância quando disse que "iria me lembrar dela mesmo quando tivesse 80 anos"... Motivos não faltarão, e não vai ser apenas pelo seu rosto de boneca de cera ou por tentar me ensinar a pronunciar "Brøndby" (nome de um time de futebol dinamarquês) corretamente: no final da festa, quando quase todo mundo já havia ido embora, ela me mostrou uma coisa muito boa que eu não via há muito tempo...
   Calma, calma, não é nada disso que vocês estão pensando, seus pervertidos etnocentristas! É que eu tinha uma vaga lembrança que os Beatles tinham produzido uma música que na verdade eram duas totalmente diferentes misturadas, coisa pós-moderna, um pistache, quer dizer, pastiche - sabia que esse negócio de matar aula do César pra fazer os trabalhos do Massote não ia dar certo. Então a Cynthia tirou do som a fita cassete de forró que tocou ininterruptamente durante toda a festa e pôs "A Day in the Life", que é justamente essa música esquecida nas profundezas de minha memória. Simplesmente a viagem mais psicodélica dos Beatles, e olha que a concorrência é dura... Quem duvidar é só conferir na coletânea The Beatles - 1967-1970 que tem as melhores músicas da fase mais criativa dos caras. A foto da capa do CD é uma reedição da do álbum "Please Please Me", do início da carreira deles, com a diferença que no início dos anos 60 eles tinham o cabelo igual o do Melo e no final da década as cabeleiras pareciam com as de um profeta do apocalipse.
   Tudo bem que a fase "ié, ié, ié" era legal também, mas o que fez os quatro imortais foi justamente se desvincular da indústria cultural careta e das insuportáveis tietes histéricas (eles deveriam dizer nas entrevistas "arrumem um homem pra vocês, porra!") para fazer o que eles gostavam. Foi uma mudança tão abrupta que o álbum inaugural desta fase, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, foi lançado em 67 como um trabalho alternativo, como se não fossem os Beatles que tivessem feito, mas a tal Banda do Sargento Pimenta que eles inventaram. Nele tem "Lucy in the Sky with Diamonds", que nem precisa explicar o que é, e "A Day in the Life", a última mas não menos importante faixa. Mais tarde vieram muitas outras obras de pura inspiração lisérgica, com destaque para "Strawberry Fields Forever", que é a primeira faixa da coletânea e que a gente também ouviu ao ocaso (que vocabulário refinado...) da Festa do Bosque, por insistente sugestão minha.
   Eu poderia falar o dia inteiro sobre esta coletânea mas acontece que, para a sorte dos leitores, eu ainda não a ouvi por inteiro. É difícil de achar nas lojas, ainda mais quando os CDs estão alinhados em ordem alfabética, ou seja, vizinhos aos do Backstreet Boys. Da vontade de pular do qüinquagésimo oitavo andar ao ver Sgt. Peppers dividindo espaço com Millenium nas prateleiras! Mas eu hei de comprar (pareço Machado de Assis falando assim) esse CD, antes que eu sofra um Mal de Alziemer ou um acidente de trânsito e esqueça a Cynthia, os Beatles e as vitórias do Galo sobre o Cruzeiro...

   Nikolas recomenda:
   · Pearl Jam - Live at Two Legs - o melhor dos caras ao vivo, só faltou Alive e Jeremy pra ser perfeito.

   · Legião Urbana - Música Para Acampamentos - não vão cair na bobeira de comprar esse acústico requentado com música do Menudos, junta mais um pouco e compra esse duplo que é ótimo até pra quem não é muito chegado na banda.

 

Cinco Penélopes
Daniel Florêncio

   Esse título é ridículo, mas eu to meio sem criatividade ultimamente, e só resolvi escrever esse comentário músico porque o Nikolas me mostrou o dele em primeiríssima mão e eu resolvi fazer o que não fazia desde algum tempo. Escrever... A ultima vez que eu escrevi algo grande foi quando traduzi um texto enorme da Internet pra entregar pro Massote como meu trabalho sobre a Palestina... Proces verem o quanto eu to influenciado pelo texto do Nikolas, até o estilão tá parecido né? Fazer o que...
   Há um tempo atrás eu descobri que aquela Érika, que canta "por favor, seu locutor, ao menos uma vez, melhor se fossem três, lá, lá lá, lá..." naquela "A Mais Pedida" dos Raimundos, se chama Erika na vida real, e que ela é vocalista de uma banda que se chama Penélope. Aí vi um pedaço de um clipe deles, de uma música que chama Hollyday, a música era muito legal, a voz da Penélope também e ela é muito gata, aí eu resolvi que queria comprar o CD deles.... Só fui achar por 19,90 no Submarino.com.br, por acaso, se oces tão querendo CD barato é só ir lá, o preço lá é muito bom, só perde pra Sem Nome quando ela faz essas liquidações de todos os CDs por 14,90...
   Bom, eu comprei o CD e em uns quatro dias o carteiro me entregou ele na minha porta... E quando eu coloquei o CD pra tocar... Que que era aquilo! A banda é muito boa, eles fazem um popzinho muito chic, a voz da Erika é uma delícia ( assim como ela )... E o mais legal são as temáticas das músicas, que foi o que mais me emocionou... Tem uma que é um gato que fica enchendo o saco da menina, querendo comer mais Whiskas e fica pegando o chinelo do pai dela... A outra é da menina que não quer dar pro namorado. Outra é da menina que tá menstruada e não pode "namorar"... Tem uma que é da menina que não consegue gozar e a última facha, a "bonus track", é uma versão supimpa do "Tão Seu" do Skank... Como o CD não discute política nem religião, ele trata sobre amenidades...
   Agora cês devem tar pensando, que história é essa de cinco penélopes... Poisé! Eu falei que o título era ridículo... Bom, mas cês vão entender, e é isso o que importa... Quem assiste a MTV, deve ter visto que tem um clipe novo do Five, uma musiquinha que se chama "Keep on Moving"... Tá, tudo bem, a música é do Five, mas não é por isso que ela deixa de ser boa... O FH Lara confessou na mesa do Tapas que quando escutou a música achou ela boa, mas quando viu que era do Five, deixou de gostar... Tsc, tsc, tsc... Que preconceito! E não tem quem não seja atingido pelo poder das bandas de menininhos bonitinhos, quem não se lembra do Bruno Cardenas cantarolando "I want it that way" enquanto ampliava suas fotos no laboratório de fotografia? Tá, eu cantava também, mas não é disso que eu to querendo falar! O que eu quero falar é que essa "Keep on Moving" é muito boa, a melodia é super legal, a batida é super legal, a letra.... Bom, a letra sei não, ela fala alguma coisa do tipo "Ta triste? Então olhe o mundo ao seu redor e fique feliz", parece letra de musica da Xuxa....Mas a música é legal, melhor que a nova do Backstreet Boys que tem um nome muito comprido e eu to com preguiça de procurar na Internet agora, que fala um trem de solidão... Sei lá!
   Ah! Pra terminar eu vi a Vanessa cantando PAGODE! Poisé, poisé, poisé... Ela e o Milen vão dizer que eu tava cantando Hanson, mas é mentira!

 


novembro|1999

 

Batida sem Desafinar
Melo Copeve

   Realmente devo reconhecer que a música eletrônica é a tendência forte dessa transição de millenium (qualquer semelhança com o quinteto xexelento da rua de trás não é mera coincidência). Mesmo para este próprio crítico conservador, insistir em negar que a parafernália tecnológica de sampleadores e mixadores controlada por computador nunca vai substituir o bom e básico trio baixo-guitarra-bateria é meio saudosismo ranzinza. De fato, os elementos característicos da música techno incorporados em alguns casos pelos outros estilos, vem a afirmar uma tentativa de diálogo entre primos distantes. E é claro que, para qualquer banda compromissada em fazer sua própria música (excluindo, logicamente, as receitas de bolo pré-fabricadas), torna-se válido experimentar alguns thum-txi-thum ou ziiieeennnauuum, desde que seja autêntico, criativo e não mero modismo. Dessa forma, a abertura para novas experiências (sem viadagem, não me entendam mal) pode resultar em trabalhos muito significativos para o contexto musical. Que o diga Chico Science, ícone do movimento mangue beat: inovou sem perder a tradicionalidade da música regional nordestina. Por fim, quero deixar claro que não estou abandonando o velho rock’n’roll. Este breve comentário músico foi apenas fruto de umas idéias meio esquisistas surgidas a partir de uma meditação (enfim, oportuna) do Massote (é, ele mesmo) sobre algo do tipo respeitar as diferenças.

   Obs.: não sei se serve para ilustrar o texto, mas o Rodrigo me contou um fato interessante. Em São Paulo, é comum os skatistas (é assim que se escreve?) darem porrada nos clubbers. Seria um fato extremo de Charlie Brown Jr. vs. Prodigy?

   Melo recomenda:
      1.Dave Matthews & Tim Reynolds – Live at Luther College: baladas acústicas para molhar a calcinha.
      2.Djavan Ao vivo: dispensa comentários. Detalhe para o público cantando ao fundo e para as versões de Oceano e Flor de Lis ao violão.