As histórias são de barro

Osmar do sétimo

A maneira de se contar uma história também é a história. O indivíduo que está narrando algo transfere para o fato, às vezes de forma inconsciente, o seu ponto de vista, suprimindo, somando informações; moldando a história como se modela um jarro de barro. O bom narrador é aquele que sabe transformar a massa amorfa da qual é feita as histórias numa avenida que leve o espectador ao encontro do estado de espírito que a fez emergir.

Assim, a construção desta trilha que leva a nascente da experiência é tão importante para que se possa experimentar a história quanto a própria. O ato lúdico de narrar se tornou um problema quando este tomou ares científicos e teve a pretensão de buscar a verdade - jornalismo. Como se sabe, verdade são muitas. Depende do ponto de vista, do ponto de ônibus, do estado de espírito. Quando se está discutindo futebol, não tem muita importância, há sempre uma partida na próxima esquina. Mas quando está em jogo a vida - jantar, músicas e parafusos - de milhões de pessoas, o ar pode ficar tão denso quanto chumbo.

O real não existe como algo acabado, pronto. Ele é construído a todo instante. E a linguagem, que nos coloca em comunicação com o mundo, é a mão do artesão, que molda a experiência de acordo com a poética dos sentidos e a precisão da razão.

Conhecer os meandros da linguagem, seus portos e nós, permite que andemos pelas avenidas da experiência sem escorregar. Permite a nós enxergar com uma certa clareza, ainda que encoberta por uma fina névoa, o jarro de plástico, aquele moldado pelos interesses do narrador mesquinho, que embriagado pelo gosto seco, mas inebriante do fascismo, semeia o mal-estar coletivo achando, tolamente, que encontrará respostas para seus fantasmas.