Minha primeira vez

Paula Carinhas Guimarães

Acordei assustada. Vozes, barulho de água, chuva incessante. Por um momento, pensei que ainda estava na praia - havia chegado do réveillon no dia anterior. Mas foi só por um momento. Na verdade, estava começando outra enchente em São Lourenço - a pior da história da cidade - e minha casa estava prestes a ser invadida pela água.
Era difícil acreditar. Endosso Camus: "Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. (...) diz-se então que o flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar". Mas não era um sonho. Foram quase dois metros d'água em minha casa, na academia do meu irmão a água foi até o teto e no centro da cidade só era possível andar de barco.
Mas a intenção aqui não é ficar lamentando as perdas e estragos da enchente, mesmo porque já está tudo mais ou menos sob controle. Desocupamos a casa, que será reformada pela Caixa Econômica Federal, a academia está recuperada e a cidade limpa recebeu milhares de turistas nesse Carnaval (e que Carnaval!...). Minha mãe sempre diz que não devemos nos perguntar o porquê mas o para quê das coisas. E, citando mais uma vez Camus, "um flagelo que assusta pode nos mostrar caminhos".
No meu caso, a enchente abriu caminho para minha primeira experiência jornalística. Jornalística mesmo. O secretário de redação do jornal O TEMPO, Almerindo Camilo, entrou em contato comigo, pedindo para fazer a cobertura da enchente na cidade: "Você é a única pessoa que pode fazer isso pra gente". Fiquei apavorada. Nunca tinha escrito para um jornal antes, ou melhor, só para o Jornal Mural. Que responsabilidade! E nem sabia onde buscar as informações, a cidade estava um caos. Liguei pro meu tio, que é jornalista e mediou o meu contato com Almerindo. Diante da minha relutância em escrever a matéria, ele disse: "Vai ser uma experiência importante pra você". Ainda relutei: "Mas nem sei onde vou buscar informações!". Ao que ele simplesmente respondeu: "É aí que entra o trabalho do repórter".
Senti que tinha que fazer a matéria e fiz. Tive menos de três horas para coletar as informações e redigir o texto. Foi uma loucura! Cacei o prefeito no meio da rua (sua casa também fora coberta pela água), fui à sede provisória da Prefeitura (que também estava embaixo d'água) e a escolas onde estavam alojadas famílias desabrigadas. Era muito difícil entrevistar aquelas pessoas - conhecidos, vizinhos, amigos. E eu também estava passando por tudo aquilo, sabia o que elas estavam sentindo. Pude perceber o quanto é difícil separar nossas emoções, sentimentos, experiências de nossa vida profissional. Como garantir a objetividade e a imparcialidade de que tanto ouvimos falar em quase todas as disciplinas de nosso curso?
É hora de redigir. Não sabia se chorava, escrevia ou dava atenção ao Gabriel, meu sobrinho, que chorava querendo entrar no quarto em que eu estava. Mas a matéria acabou saindo e enviada por fax às 4 da tarde. Depois de enviada, ainda fiquei lamentando: "Se tivesse tido mais tempo (o tempo, sempre nosso grande obstáculo) teria feito algo muito melhor. O título poderia ser mais atrativo. E a abertura? Será que vai despertar o interesse do leitor?"
Confesso que senti uma pontinha de orgulho. Não, Paula, não minta. Senti muito orgulho no dia seguinte ao ler no jornal, ou melhor, na folha do fax, porque os jornais não estavam chegando à cidade: PAULA GUIMARÃES SIMÕES - ESPECIAL PARA O TEMPO. Foi a primeira vez que escrevi para um jornal de grande circulação e todos sabem: a primeira vez a gente nunca esquece.
Mas acompanhadas do orgulho vieram a frustração e a ansiedade que provavelmente vão me acompanhar em todo trabalho jornalístico que realizar. Frustração por saber que poderia ter feito algo melhor. Ansiedade para saber a opinião dos leitores. Os elogios de Almerido e do meu tio, que para mim é a voz da experiência, me confortaram um pouco. Eu tinha dado conta do recado e continuei escrevendo outras matérias nos dois dias seguintes.
Meu tio tinha razão. Foi uma experiência interessante que me permitiu conhecer melhor a profissão que escolhi. É claro que não era o tema desejado para minha primeira matéria tampouco a realizei como gostaria. Mas valeu a pena. Fiz contatos importantes, visitei (mais uma vez) a redação daquele jornal e ainda recebi meu primeiro salário como repórter. Não se iludam, é mesmo pouco...
Apesar das limitações do tempo, do nervosismo, da ansiedade e das frustrações, o trabalho jornalístico vale a pena. Pude transportar os leitores para a realidade de São Lourenço e o papel da imprensa foi fundamental para conseguir ajuda para a cidade. Nós, futuros jornalistas, temos um importante papel a cumprir. Em nossa trajetória, muitos sonhos são desfeitos, encantos, quebrados, expectativas, dissipadas. Mas somos alimentados por novos sonhos, outras expectativas, novos encantos. Às vezes pode ser difícil, mas compensa. É o caminho que escolhi e é o que vou seguir. (Eu acho...)