O
calabouço mental
"A
Cela", um filme sobre a nossa prisão interior
Henrique
Milen
Depois
do homem sem sobra e cérebro, pensei
que tão cedo não pagaria para ver um suspenção
(suspense + ação) americano. Mas como disse certa
vez Galactus ao Surfista Prateado, com a voz tonitruante que
lhe é peculiar: "A memória do homem é
desgraçadamente curta". No caso de "A Cela",
no entanto, minha recaída foi uma bênção.
Quando Griffith inventou a ação no cinema, estabelecendo
planos simultâneos que ocorrem em lugares diferentes (exemplo
clássico: uma mocinha em perigo num plano; um herói
a caminho no outro), qualquer coisa que imaginasse passaria
longe do que esses egressos da MTV andam fazendo com o cinemão
americano.
"A
Cela", estréia no cinema do diretor do vídeo-clipe
"Losing My Religion", do R.E.M. (a princípio,
o grande atrativo do filme), leva a fórmula de Griffith
ao limite. Em seu clímax, o filme tem quatro ações
interligadas, sendo uma delas num plano mental (sei, isso não
é mais novidade). Certamente não é a primeira
vez que isso é feito, mas poucas vezes vi a idéia
tão bem executada como neste filme.
Pela
sinopse, o filme é uma bobagem. Mas o que se vê
na tela é um roteiro primoroso, uma direção
segura, bons atores, imagens que te atormentam.
A
estréia do diretor (já sacaram que eu deslembrei
o nome do indivíduo, mas tudo bem, "no names",
como diz Vincent d'Onofrio a certa altura da película)
seria um tiro n'água caso ele se valesse de um roteiro
qualquer, apenas com o intuito de exibir seu estilo -- a estas
alturas já identificável pelo tom bizarro, surreal,
com imagens fortemente granuladas e contrastadas. Mas ele foi
muito além do mero jogo de imagens de "Losing My
Religion". O que havia de enigmático no clipe do
R.E.M. era só um esboço para "A Cela".
Uma década separa os dois trabalhos do diretor. Sagrada
evolução.
CLAUSURA
POP
Quanto
ao filme em si: "A Cela" é tudo que um filme
ruim queria ser: bom, bonito, barato (relativamente, meus caros,
relativamente) e futuramente cult. E com a Jennifer Lopez. É
um terror sem apelar para o sobrenatural. Uma ficção
sem cientificismo alarmista pseudo-profético. É
suspense, mas evita sustinhos bocós. Um filme de ação
sem explosões, bombas-relógio e aquelas viadagens
de sempre. Por fim, e acima de tudo, um drama complexo e humanista
(ou é todo dia que você se emociona com o fim do
vilão psicopata?).
No
mais, toda obra de ficção que proponha alternativas
à polarização infantilóide entre
o Bem e o Mal já merece uma conferida. "A Cela"
anuncia uma "viagem pela mente de um criminoso", e
cumpre o que promete. O resultado, mais do que chocante, é
comovente. A cela mencionada no título - um cubículo
onde um serial killer enclausura suas vítimas - simboliza
a prisão mental a que os traumas nos confinam. A situação
mostrada no filme é extrema, mas a metáfora da
cela vale, em certa medida, para todos nós.
Esse
filme os produtores não conseguiram estragar. Ironicamente,
é provável que por isso mesmo ele não seja
o grande sucesso comercial que merece (embora talvez nem queira)
ser.
NOTA 10zzz: Vince Vaughn (o Norman Bates
do novo "Psicose"), Jenifer Lopez, Vincent d'Onofrio
(Orson Welles em "Ed Wood"), cenografia, figurino,
roteiro, direção.
NOTA
SUB-ZERO: trailer fudido, cartaz idem. Ignore.
Homem
sem cérebro
Henrique
Milen
O
Homem Sem Sombra é um filme desagradável de se
ver. Não pelo estranhamento e incômodo que provoca
como obra artística, mas sim pela sua opção
em ser um filme ordinário. Poderia ser bom. Os efeitos
são ótimos e a premissa - um homem-invisível
- poderia ser explorada sob vários aspectos.
Mas
os digníssimos executivos resolveram seguir as regrinhas
do retorno financeiro sem maiores riscos: a partir de determinado
momento (precisamente quando o Dr. Sebastian se torna um assassino),
o filme desiste clara e deliberadamente de tentar algo novo
e vira Sexta-Feira 13, Predador, Exterminador, Demolidor, Alien,
enfim, tudo o que se vê toda segunda na Tela Morna, depois
da novela.
Lembrei
de O Colecionador de Ossos, que decepciona pelas mesmas razões.
Os filmes começam bem e depois viram "thrillers"
banais, caindo no que todo mundo já cansou de ver: perseguições,
bombas-relógio, lutinhas e agarramentos. Parece até
que, até um certo ponto, criativos e interessantes, quem
manda nos filmes são os diretores e roteiristas. A partir
deste ponto, quem decide o rumo da história são
os produtores, aos quais só uma coisa interessa: nove
cifrões.
Enquanto
o público se satisfizer com essas variações
do mesmo tema, por preguiça de pensar ou pela comodidade
do (re)conhecido, os engravatados de Roliúdi não
terão mesmo com o que se preocupar. E tome clichê.