NOV 2000

COMENTÁRIOS FÍLMICOS

 

O calabouço mental
"A Cela", um filme sobre a nossa prisão interior

Henrique Milen

Depois do homem sem sobra e cérebro, pensei que tão cedo não pagaria para ver um suspenção (suspense + ação) americano. Mas como disse certa vez Galactus ao Surfista Prateado, com a voz tonitruante que lhe é peculiar: "A memória do homem é desgraçadamente curta". No caso de "A Cela", no entanto, minha recaída foi uma bênção.

Quando Griffith inventou a ação no cinema, estabelecendo planos simultâneos que ocorrem em lugares diferentes (exemplo clássico: uma mocinha em perigo num plano; um herói a caminho no outro), qualquer coisa que imaginasse passaria longe do que esses egressos da MTV andam fazendo com o cinemão americano.

"A Cela", estréia no cinema do diretor do vídeo-clipe "Losing My Religion", do R.E.M. (a princípio, o grande atrativo do filme), leva a fórmula de Griffith ao limite. Em seu clímax, o filme tem quatro ações interligadas, sendo uma delas num plano mental (sei, isso não é mais novidade). Certamente não é a primeira vez que isso é feito, mas poucas vezes vi a idéia tão bem executada como neste filme.

Pela sinopse, o filme é uma bobagem. Mas o que se vê na tela é um roteiro primoroso, uma direção segura, bons atores, imagens que te atormentam.

A estréia do diretor (já sacaram que eu deslembrei o nome do indivíduo, mas tudo bem, "no names", como diz Vincent d'Onofrio a certa altura da película) seria um tiro n'água caso ele se valesse de um roteiro qualquer, apenas com o intuito de exibir seu estilo -- a estas alturas já identificável pelo tom bizarro, surreal, com imagens fortemente granuladas e contrastadas. Mas ele foi muito além do mero jogo de imagens de "Losing My Religion". O que havia de enigmático no clipe do R.E.M. era só um esboço para "A Cela". Uma década separa os dois trabalhos do diretor. Sagrada evolução.

CLAUSURA POP

Quanto ao filme em si: "A Cela" é tudo que um filme ruim queria ser: bom, bonito, barato (relativamente, meus caros, relativamente) e futuramente cult. E com a Jennifer Lopez. É um terror sem apelar para o sobrenatural. Uma ficção sem cientificismo alarmista pseudo-profético. É suspense, mas evita sustinhos bocós. Um filme de ação sem explosões, bombas-relógio e aquelas viadagens de sempre. Por fim, e acima de tudo, um drama complexo e humanista (ou é todo dia que você se emociona com o fim do vilão psicopata?).

No mais, toda obra de ficção que proponha alternativas à polarização infantilóide entre o Bem e o Mal já merece uma conferida. "A Cela" anuncia uma "viagem pela mente de um criminoso", e cumpre o que promete. O resultado, mais do que chocante, é comovente. A cela mencionada no título - um cubículo onde um serial killer enclausura suas vítimas - simboliza a prisão mental a que os traumas nos confinam. A situação mostrada no filme é extrema, mas a metáfora da cela vale, em certa medida, para todos nós.

Esse filme os produtores não conseguiram estragar. Ironicamente, é provável que por isso mesmo ele não seja o grande sucesso comercial que merece (embora talvez nem queira) ser.


NOTA 10zzz: Vince Vaughn (o Norman Bates do novo "Psicose"), Jenifer Lopez, Vincent d'Onofrio (Orson Welles em "Ed Wood"), cenografia, figurino, roteiro, direção.

NOTA SUB-ZERO: trailer fudido, cartaz idem. Ignore.

 

Homem sem cérebro

Henrique Milen

O Homem Sem Sombra é um filme desagradável de se ver. Não pelo estranhamento e incômodo que provoca como obra artística, mas sim pela sua opção em ser um filme ordinário. Poderia ser bom. Os efeitos são ótimos e a premissa - um homem-invisível - poderia ser explorada sob vários aspectos.

Mas os digníssimos executivos resolveram seguir as regrinhas do retorno financeiro sem maiores riscos: a partir de determinado momento (precisamente quando o Dr. Sebastian se torna um assassino), o filme desiste clara e deliberadamente de tentar algo novo e vira Sexta-Feira 13, Predador, Exterminador, Demolidor, Alien, enfim, tudo o que se vê toda segunda na Tela Morna, depois da novela.

Lembrei de O Colecionador de Ossos, que decepciona pelas mesmas razões. Os filmes começam bem e depois viram "thrillers" banais, caindo no que todo mundo já cansou de ver: perseguições, bombas-relógio, lutinhas e agarramentos. Parece até que, até um certo ponto, criativos e interessantes, quem manda nos filmes são os diretores e roteiristas. A partir deste ponto, quem decide o rumo da história são os produtores, aos quais só uma coisa interessa: nove cifrões.

Enquanto o público se satisfizer com essas variações do mesmo tema, por preguiça de pensar ou pela comodidade do (re)conhecido, os engravatados de Roliúdi não terão mesmo com o que se preocupar. E tome clichê.