Itamar
Franco, governador de Minas Gerais, provocou polêmica mais
uma vez. No episódio de Buritis, Itamar e o presidente
protagonizaram mais uma cena lamentável e as atitudes do
governador colocam quase todos contra ele. A presença do
Exército para proteger propriedade privada, sem a autorização
do estado mineiro, realmente é discutível. Entretanto,
Itamar beira o ridículo ao fazer do Palácio da Liberdade
uma praça de guerra e propor a desapropriação
da fazenda dos filhos do presidente.
A capacidade de gerar debates em torno de si é um fato
que impressiona. Ao assumir o mais alto cargo político
do país, Itamar passou a ser motivo de controvérsia.
A mídia paulista e carioca logo evidenciaram a postura
que adotariam em relação ao novo presidente da nação
e naquela época cunharam uma expressão que é
usada até hoje: "República do Pão de
Queijo", uma alusão a seus colaboradores fiéis,
como Henrique Hargreaves e José Aparecido, ambos mineiros.
Na sua passagem pela Presidência da República, a
maior parte da Imprensa Nacional o rotulou de político
intempestivo e provinciano, incapaz de governar um país.
Chegando ao Planalto por um golpe do destino, Itamar afogou-se
em confusões até nomear Fernando Henrique Cardoso
como ministro da Fazenda. Depois disso, os problemas acabaram,
porque o "brilhante sociólogo e intelectual"
lançou o Plano Real.
Aí se deu o início do caso de amor entre FHC e a
mídia nacional. Itamar, um presidente ultrapassado e boboca
que reeditou o Fusca e posou no Carnaval ao lado de uma mulher
sem calcinha, foi substituído por um homem de idéias
arrojadas. Fernando Henrique reinou absoluto até o final
do seu primeiro mandato, quando no dia 6 de janeiro de 1999 Itamar
decretou a moratória.
O
marco da moratória
O
jornalista Murilo Gontijo acredita que ela foi um marco. Ele é
autor da dissertação de mestrado sobre a cobertura
da mídia à moratória mineira e analisou as
matérias publicadas pelo Estado de Minas, O Globo e Folha
de São Paulo, de 7 a 19 de janeiro. Ele inferiu que a partir
desse fato a imprensa nacional começou a discutir a falência
do país. A mídia brasileira, que havia "comprado"
o projeto de reestruturação econômica de Fernando
Henrique, saiu da letargia e retomou seu papel de provocadora
de debates em torno de interesses nacionais, como a política
econômica do governo. De um discurso quase único
de apoio incondicional ao governo de FHC passou a discutir a crise
do Real.
Entretanto, elegeu Itamar Franco como bode expiatório.
O jornal que mais criticou a ação do governador
foi O Globo, de propriedade de Roberto Marinho. O diferencial
foi a cobertura do Estado de Minas. Oscilante entre seguir a linha
da imprensa nacional ou defender os interesses do governo estadual
e o "orgulho" do povo mineiro, o "grande jornal
dos mineiros" foi o único que publicou a maioria das
matérias favoráveis à moratória. O
jornal evidenciou que a crise da economia não era obra
de Itamar, mas sim uma conseqüência da frágil
política de juros altos e excessivos gastos do setor público.
Veja
bate forte
Mas
o órgão que "bateu" com mais veemência
na ação de Franco foi a revista Veja. Os títulos
de algumas matérias falam por si: "A volta do trapalhão",
"Itamar ficou louco" e "Ele está radiante".
Nessa última, de 20 de janeiro de 1999, o semanário
compara a biografia do governador mineiro à do imperador
Nero, que mandou colocar fogo em Roma e assistiu ao espetáculo.
Itamar foi culpado de "dar o sopro final que acendeu a fogueira
em que arde o Brasil".
Chamando
o governador de caloteiro e "Topete", Veja chegou ao
cúmulo de publicar um perfil psicológico intitulado
"A mente de Itamar", no qual o psicólogo Jacob
Pinheiro Goldberg, autor do sugestivo "Psicologia da Agressividade",
tece considerações ridículas. Pérola
de Goldberg: "A extrema necessidade de aceitação
do governador pode ter origem em um complexo de rejeição
e numa insegurança profunda. Nascido em Salvador, mas morando
em Minas desde criança, o governador sempre demonstrou
o desconforto do outsider".
Respeito
Não
se trata de defender as ações de Itamar enquanto
ocupante de cargos públicos executivos ou legislativos,
nem tampouco alçá-lo a mártir, da categoria
de Tiradentes. Mas é imperativo que a imprensa se dirija
respeitosamente a um ex-presidente da República, ex-senador
e governador de um dos mais importantes estados da Federação.
A conceituação de Murilo Gontijo é interessante
e pertinente. Segundo Murilo, o jornalismo é espaço
público na medida em que acolhe e processa os mais variados
discursos da sociedade, e é ator social, na medida em que
faz opções editoriais e publica editoriais, emitindo
suas opiniões e construindo um discurso próprio.
A mídia nacional, que influencia milhões de brasileiros,
deve ser mais cuidadosa e zelar pela produção de
um bom jornalismo. Mas o que é praticado, principalmente
em veículos com tiragem superior a 1 milhão de exemplares,
não pode ser chamado de jornalismo.
Por
outro lado, o governador reclama da mídia mas fornece subsídios
para que o chamem de "louco" e "patético".
É impossível não ligar o motivo de suas ações
à candidatura à Presidência em 2002, ao invés
da promoção de um debate sério sobre as políticas
públicas do governo federal.