NOV 2000

 

Itamar, o incendiário
Clara Bello

   Itamar Franco, governador de Minas Gerais, provocou polêmica mais uma vez. No episódio de Buritis, Itamar e o presidente protagonizaram mais uma cena lamentável e as atitudes do governador colocam quase todos contra ele. A presença do Exército para proteger propriedade privada, sem a autorização do estado mineiro, realmente é discutível. Entretanto, Itamar beira o ridículo ao fazer do Palácio da Liberdade uma praça de guerra e propor a desapropriação da fazenda dos filhos do presidente.

    A capacidade de gerar debates em torno de si é um fato que impressiona. Ao assumir o mais alto cargo político do país, Itamar passou a ser motivo de controvérsia. A mídia paulista e carioca logo evidenciaram a postura que adotariam em relação ao novo presidente da nação e naquela época cunharam uma expressão que é usada até hoje: "República do Pão de Queijo", uma alusão a seus colaboradores fiéis, como Henrique Hargreaves e José Aparecido, ambos mineiros.
Na sua passagem pela Presidência da República, a maior parte da Imprensa Nacional o rotulou de político intempestivo e provinciano, incapaz de governar um país. Chegando ao Planalto por um golpe do destino, Itamar afogou-se em confusões até nomear Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda. Depois disso, os problemas acabaram, porque o "brilhante sociólogo e intelectual" lançou o Plano Real.

    Aí se deu o início do caso de amor entre FHC e a mídia nacional. Itamar, um presidente ultrapassado e boboca que reeditou o Fusca e posou no Carnaval ao lado de uma mulher sem calcinha, foi substituído por um homem de idéias arrojadas. Fernando Henrique reinou absoluto até o final do seu primeiro mandato, quando no dia 6 de janeiro de 1999 Itamar decretou a moratória.

O marco da moratória
   O jornalista Murilo Gontijo acredita que ela foi um marco. Ele é autor da dissertação de mestrado sobre a cobertura da mídia à moratória mineira e analisou as matérias publicadas pelo Estado de Minas, O Globo e Folha de São Paulo, de 7 a 19 de janeiro. Ele inferiu que a partir desse fato a imprensa nacional começou a discutir a falência do país. A mídia brasileira, que havia "comprado" o projeto de reestruturação econômica de Fernando Henrique, saiu da letargia e retomou seu papel de provocadora de debates em torno de interesses nacionais, como a política econômica do governo. De um discurso quase único de apoio incondicional ao governo de FHC passou a discutir a crise do Real.
Entretanto, elegeu Itamar Franco como bode expiatório. O jornal que mais criticou a ação do governador foi O Globo, de propriedade de Roberto Marinho. O diferencial foi a cobertura do Estado de Minas. Oscilante entre seguir a linha da imprensa nacional ou defender os interesses do governo estadual e o "orgulho" do povo mineiro, o "grande jornal dos mineiros" foi o único que publicou a maioria das matérias favoráveis à moratória. O jornal evidenciou que a crise da economia não era obra de Itamar, mas sim uma conseqüência da frágil política de juros altos e excessivos gastos do setor público.

Veja bate forte
   Mas o órgão que "bateu" com mais veemência na ação de Franco foi a revista Veja. Os títulos de algumas matérias falam por si: "A volta do trapalhão", "Itamar ficou louco" e "Ele está radiante". Nessa última, de 20 de janeiro de 1999, o semanário compara a biografia do governador mineiro à do imperador Nero, que mandou colocar fogo em Roma e assistiu ao espetáculo. Itamar foi culpado de "dar o sopro final que acendeu a fogueira em que arde o Brasil".

   Chamando o governador de caloteiro e "Topete", Veja chegou ao cúmulo de publicar um perfil psicológico intitulado "A mente de Itamar", no qual o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, autor do sugestivo "Psicologia da Agressividade", tece considerações ridículas. Pérola de Goldberg: "A extrema necessidade de aceitação do governador pode ter origem em um complexo de rejeição e numa insegurança profunda. Nascido em Salvador, mas morando em Minas desde criança, o governador sempre demonstrou o desconforto do outsider".

Respeito
   Não se trata de defender as ações de Itamar enquanto ocupante de cargos públicos executivos ou legislativos, nem tampouco alçá-lo a mártir, da categoria de Tiradentes. Mas é imperativo que a imprensa se dirija respeitosamente a um ex-presidente da República, ex-senador e governador de um dos mais importantes estados da Federação.
A conceituação de Murilo Gontijo é interessante e pertinente. Segundo Murilo, o jornalismo é espaço público na medida em que acolhe e processa os mais variados discursos da sociedade, e é ator social, na medida em que faz opções editoriais e publica editoriais, emitindo suas opiniões e construindo um discurso próprio. A mídia nacional, que influencia milhões de brasileiros, deve ser mais cuidadosa e zelar pela produção de um bom jornalismo. Mas o que é praticado, principalmente em veículos com tiragem superior a 1 milhão de exemplares, não pode ser chamado de jornalismo.

   Por outro lado, o governador reclama da mídia mas fornece subsídios para que o chamem de "louco" e "patético". É impossível não ligar o motivo de suas ações à candidatura à Presidência em 2002, ao invés da promoção de um debate sério sobre as políticas públicas do governo federal.