NOV 2000

 

Decupagem
Adriano Frederico de Oliveira

   Gustavo se encolhia rente a parede do shopping, tentando se esquentar na noite fria do mês de Julho. Sua calça jeans e camisa de malha não ajudavam muito naquela hora. Eram 9 horas da noite e de novo ele estava naquele shopping esperando, esperando... Ele não ligava, ele gostava da espera, ele podia sentir o seu sangue esquentando, bem lá dentro do corpo. Era uma sensação boa essa, o calor. O calor humano.

   Ele olhou no relógio barato de camelô no seu pulso magro e escuro. 9:15 Comprou o relógio de camelô para não se atrasar em encontrar Janice, ela ficava uma fera. Nunca gostou de Janice, gostava da pele dela, de passar a mão no corpo dela e pensar nos cabra do morro, na pele deles, em como queria ter uma pele daquelas. Ele não gostava de seu tom de pele, nunca gostou. Era escuro, cinza, como os prédios do centro, cheios de fuligem dos ônibus que passam. Ele não queria ser branco, branquelo, sem sal, cor de doente. Ele queria ser negro. 100% negro, igual as camisas que os cabra do morro desfilavam, todos faceiros. Pensou em comprar uma um dia, mas desistiu. Era arrumar problema, se os cabra do morro vissem alguém cinza usando uma camisa "100% negro" era capaz de passar fogo. Gustavo já tinha visto muito neguinho morrendo por bobagem nessa vida. Muito fogo foi passado no morro, o tempo todo. Sua avó, lá em Surubim, bem no meio do Sertão, sempre disse para ele: "Guguinha, nessa vida tem os que dá e os que toma... Ocê tem qui dicidi quar vai sê, um ô outro. Entendeu? Minino faceiro da vó!" e cuspia no chão de terra seca. Sua avó adorava a palavra "faceiro" ouviu em Salvador, quando era menina-moça e nunca mais esqueceu. Usava para tudo, ultrapassava o que a palavra queria dizer e ia além. 9:27 Gustavo adorava a sua avó, assim como ele adorava a pele negra dos traficantes do morro. Pele reluzente ao sol, brilhando de suor. Queria ter aquela pele... Um dia teve uma namorada negra. Janice, beiço carnudo, ciumenta. Comprou o relógio de camelô para não se atrasar em encontrar Janice, ela ficava uma fera. Nunca gostou de Janice, gostava da pele dela, de passar a mão no corpo dela e pensar nos cabra do morro, na pele deles, em como queria ter uma pele daquelas.

   9:31 Gustavo olhou para o chão e viu uma guimba de cigarro no lugar onde ele estava. Nunca fumou, tentou uma vez quando era rapaz, tossiu e vomitou. Largou. "Cigarro no frio é bão, né?" um mendigo disse para ele no centro a noite. Gustavo concordou com o mendigo enquanto olhava em seus olhos de catarata e pensava se o mendigo via tudo com manchas brancas. Gustavo gostava do centro, passava o dia todo lá, olhando as pessoas passarem. Ficava escondido entre as pessoas, na calçada, bem no meio da muvuca. Lá no meio ele não existe, nada existe, o andar das pessoas, o correr dos meninos, os pés na calçada, o suor na sandália, os corpos batendo, a cidade. Gustavo gostava do centro 9:42 Ele passa a mão no rosto e sente a cicatriz. Doeu quando ele ganhou. Ele gritou e chorou. Pegou fundo e cortou muito o rosto dele. Gustavo não gostava da cicatriz. Faz 4 meses que ele tem ela. Ganhou aqui perto do shopping mesmo. 1...5...16. Ele já veio nesse shopping 16 vezes. Encontrar Janice. Nunca gostou de Janice. Gostava da pele dela, de passar a mão no corpo dela e pensar nos cabra do morro, na pele deles, em como queria ter uma pele daquelas. Nunca gostou de Janice. 9:54 Janice saiu.

"Mais uma mulher desaparece na Região Noroeste. Com essa somam-se 9 desaparecimentos e 7 ossadas encontradas só..."