Gustavo
se encolhia rente a parede do shopping, tentando se esquentar
na noite fria do mês de Julho. Sua calça jeans e
camisa de malha não ajudavam muito naquela hora. Eram 9
horas da noite e de novo ele estava naquele shopping esperando,
esperando... Ele não ligava, ele gostava da espera, ele
podia sentir o seu sangue esquentando, bem lá dentro do
corpo. Era uma sensação boa essa, o calor. O calor
humano.
Ele olhou no relógio barato de camelô
no seu pulso magro e escuro. 9:15 Comprou o relógio de
camelô para não se atrasar em encontrar Janice, ela
ficava uma fera. Nunca gostou de Janice, gostava da pele dela,
de passar a mão no corpo dela e pensar nos cabra do morro,
na pele deles, em como queria ter uma pele daquelas. Ele não
gostava de seu tom de pele, nunca gostou. Era escuro, cinza, como
os prédios do centro, cheios de fuligem dos ônibus
que passam. Ele não queria ser branco, branquelo, sem sal,
cor de doente. Ele queria ser negro. 100% negro, igual as camisas
que os cabra do morro desfilavam, todos faceiros. Pensou em comprar
uma um dia, mas desistiu. Era arrumar problema, se os cabra do
morro vissem alguém cinza usando uma camisa "100%
negro" era capaz de passar fogo. Gustavo já tinha
visto muito neguinho morrendo por bobagem nessa vida. Muito fogo
foi passado no morro, o tempo todo. Sua avó, lá
em Surubim, bem no meio do Sertão, sempre disse para ele:
"Guguinha, nessa vida tem os que dá e os que toma...
Ocê tem qui dicidi quar vai sê, um ô outro.
Entendeu? Minino faceiro da vó!" e cuspia no chão
de terra seca. Sua avó adorava a palavra "faceiro"
ouviu em Salvador, quando era menina-moça e nunca mais
esqueceu. Usava para tudo, ultrapassava o que a palavra queria
dizer e ia além. 9:27 Gustavo adorava a sua avó,
assim como ele adorava a pele negra dos traficantes do morro.
Pele reluzente ao sol, brilhando de suor. Queria ter aquela pele...
Um dia teve uma namorada negra. Janice, beiço carnudo,
ciumenta. Comprou o relógio de camelô para não
se atrasar em encontrar Janice, ela ficava uma fera. Nunca gostou
de Janice, gostava da pele dela, de passar a mão no corpo
dela e pensar nos cabra do morro, na pele deles, em como queria
ter uma pele daquelas.
9:31 Gustavo olhou para o chão e viu
uma guimba de cigarro no lugar onde ele estava. Nunca fumou, tentou
uma vez quando era rapaz, tossiu e vomitou. Largou. "Cigarro
no frio é bão, né?" um mendigo disse
para ele no centro a noite. Gustavo concordou com o mendigo enquanto
olhava em seus olhos de catarata e pensava se o mendigo via tudo
com manchas brancas. Gustavo gostava do centro, passava o dia
todo lá, olhando as pessoas passarem. Ficava escondido
entre as pessoas, na calçada, bem no meio da muvuca. Lá
no meio ele não existe, nada existe, o andar das pessoas,
o correr dos meninos, os pés na calçada, o suor
na sandália, os corpos batendo, a cidade. Gustavo gostava
do centro 9:42 Ele passa a mão no rosto e sente a cicatriz.
Doeu quando ele ganhou. Ele gritou e chorou. Pegou fundo e cortou
muito o rosto dele. Gustavo não gostava da cicatriz. Faz
4 meses que ele tem ela. Ganhou aqui perto do shopping mesmo.
1...5...16. Ele já veio nesse shopping 16 vezes. Encontrar
Janice. Nunca gostou de Janice. Gostava da pele dela, de passar
a mão no corpo dela e pensar nos cabra do morro, na pele
deles, em como queria ter uma pele daquelas. Nunca gostou de Janice.
9:54 Janice saiu.
"Mais
uma mulher desaparece na Região Noroeste. Com essa somam-se
9 desaparecimentos e 7 ossadas encontradas só..."