Sob
a escuridão das copas dos pinheiros que cercam a fonte
principal, não há pressa. Ao som de uma flauta indígena
e envolvidos por uma baixa névoa produzida pelos vários
jatos d'água da fonte, os casais de cada banco trocam carícias
e discussões sob o céu limpo da noite de segunda-feira.
Ainda que, na maioria, ofuscadas pelas luzes das edificações
e veículos que circundam a praça, as estrelas parecem
expectadores da frenética roda-viva que se intensificava
cada vez mais. São adolescentes, idosos, homens, mulheres
e cães de estimação, a maioria caminhando
com muita, muita pressa... No interior da praça, poucos
passam. A via central parece feita exclusivamente para divagações...
O suave vento da noite é incapaz de agitar uma só
folha da imponente Palmeira-Imperial, mas provoca um frescor tão
agradável... Descrevendo assim, pareço estar no
lugar ideal, na hora ideal; em plena paz e tranqüilidade.
Pareço, apenas...
O
monstro do ácido clorídrico começa a rugir.
Não hesito em matar sua fome e sigo diretamente à
lanchonete mais próxima daquele cenário de aparente
paz. Peço o tão ansiado sanduíche (ai, que
saudade dele!) e meu monstro não se satisfaz. Somos só
eu e ele. Espero mais um pouco, enquanto observo o movimento dos
carros e da praça. Só consigo pensar em uma coisa.
Por favor, um milk-shake de 300 ml de baunilha. E é pelo
caminho escuro e solitário das palmeiras-imperiais que
vou... Pensando... Passos contados, quase preguiçosos e
hesitantes - exatamente o contrário dos pensamentos que
se atropelavam... As sugadas de milk-shake adormeciam o monstro
do ácido clorídrico - lá se ia minha única
companhia -, mas pareciam alimentar o movimento frenético
daqueles pensamentos... Nem mesmo percebia como a bebida estava
gelada (o que depois me causou uma dor de garganta daquelas)...
Aqueles 300 ml pareciam infinitos, estimulando ainda mais os passos
vagarosos e os pensamentos confusos... Entre uma sugada e outra,
uma menina olhando triste pro chão - ou talvez até
mesmo compenetrada... Às vezes suspendia seu esguio pescoço
e olhava para algum lugar, ou talvez para lugar algum... Parecia
procurar por algo, ou por alguém... Preferia não
pedir ajuda a ninguém. Apesar dos caminhantes, namorados
e até mesmo de dezenas de colegas de sala presentes naquela
praça, preferia permanecer só. Era como se a praça
tivesse, como seres animados e companhias que lhe proporcionassem
sorrisos raros, apenas os cães de estimação...
Mesmo assim, não eram capazes de afastar sua melancolia,
por mais engraçadinhos que fossem. Ah, eles sim é
que são felizes: tão bem cuidados; existências
tão simples.... E a menina continuava, mergulhada em seus
pensamentos, sentimentos e no milk-shake (mas esse trem dura,
sô!)...
De
repente, ela acorda - acaba a bebida. O canudo procura por mais
líquido - não para matar a fome do monstro do ácido
clorídrico, mas para manter, pelo menos simbolicamente,
a presença de algo tão ausente; tão distante...
E tão ansiado; tão estimado... E depois de tanto
pensar, a menina encontra, com o fim do milk-shake de baunilha,
o porquê dele durar tanto e a razão de sua melancolia:
a ausência de alguém... Mas é tarde: seu professor
a chama -é hora de produzir. Mal ele sabia o quanto aquela
dispersão seria capaz de criar e produzir, dentro e fora
daquela aula de descrição...