NOV 2000

 

Milk-shake de baunilha
Roberta Vieira de Castro


   Sob a escuridão das copas dos pinheiros que cercam a fonte principal, não há pressa. Ao som de uma flauta indígena e envolvidos por uma baixa névoa produzida pelos vários jatos d'água da fonte, os casais de cada banco trocam carícias e discussões sob o céu limpo da noite de segunda-feira. Ainda que, na maioria, ofuscadas pelas luzes das edificações e veículos que circundam a praça, as estrelas parecem expectadores da frenética roda-viva que se intensificava cada vez mais. São adolescentes, idosos, homens, mulheres e cães de estimação, a maioria caminhando com muita, muita pressa... No interior da praça, poucos passam. A via central parece feita exclusivamente para divagações... O suave vento da noite é incapaz de agitar uma só folha da imponente Palmeira-Imperial, mas provoca um frescor tão agradável... Descrevendo assim, pareço estar no lugar ideal, na hora ideal; em plena paz e tranqüilidade. Pareço, apenas...

   O monstro do ácido clorídrico começa a rugir. Não hesito em matar sua fome e sigo diretamente à lanchonete mais próxima daquele cenário de aparente paz. Peço o tão ansiado sanduíche (ai, que saudade dele!) e meu monstro não se satisfaz. Somos só eu e ele. Espero mais um pouco, enquanto observo o movimento dos carros e da praça. Só consigo pensar em uma coisa. Por favor, um milk-shake de 300 ml de baunilha. E é pelo caminho escuro e solitário das palmeiras-imperiais que vou... Pensando... Passos contados, quase preguiçosos e hesitantes - exatamente o contrário dos pensamentos que se atropelavam... As sugadas de milk-shake adormeciam o monstro do ácido clorídrico - lá se ia minha única companhia -, mas pareciam alimentar o movimento frenético daqueles pensamentos... Nem mesmo percebia como a bebida estava gelada (o que depois me causou uma dor de garganta daquelas)... Aqueles 300 ml pareciam infinitos, estimulando ainda mais os passos vagarosos e os pensamentos confusos... Entre uma sugada e outra, uma menina olhando triste pro chão - ou talvez até mesmo compenetrada... Às vezes suspendia seu esguio pescoço e olhava para algum lugar, ou talvez para lugar algum... Parecia procurar por algo, ou por alguém... Preferia não pedir ajuda a ninguém. Apesar dos caminhantes, namorados e até mesmo de dezenas de colegas de sala presentes naquela praça, preferia permanecer só. Era como se a praça tivesse, como seres animados e companhias que lhe proporcionassem sorrisos raros, apenas os cães de estimação... Mesmo assim, não eram capazes de afastar sua melancolia, por mais engraçadinhos que fossem. Ah, eles sim é que são felizes: tão bem cuidados; existências tão simples.... E a menina continuava, mergulhada em seus pensamentos, sentimentos e no milk-shake (mas esse trem dura, sô!)...

   De repente, ela acorda - acaba a bebida. O canudo procura por mais líquido - não para matar a fome do monstro do ácido clorídrico, mas para manter, pelo menos simbolicamente, a presença de algo tão ausente; tão distante... E tão ansiado; tão estimado... E depois de tanto pensar, a menina encontra, com o fim do milk-shake de baunilha, o porquê dele durar tanto e a razão de sua melancolia: a ausência de alguém... Mas é tarde: seu professor a chama -é hora de produzir. Mal ele sabia o quanto aquela dispersão seria capaz de criar e produzir, dentro e fora daquela aula de descrição...